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Benfica 4-0 Rio Ave: A maior vitória da época foi a última grande derrota para um de nós

Tiago Martins · 2 min

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Decorria o minuto 20. Na bancada TMN, sector 41, piso 3, um encarnado, quase nos seus 50 anos de benfiquismo, deixava substituir um sorriso de quem viu a jogada fenomenal que antecede o golo de Rodrigo por um sôfrego esgar de dor. Onde antigamente o Benfica costumava deixar as suas marcas, agora nada bate. Onde durante décadas e décadas era costume sentir-se um louco acelerar de palpitações, agora reina a calmaria. Onde o amor pelo Glorioso pedia mais e mais golos numa desenfreada arritmia de paixões, agora é o silêncio que impera. A mão sobre o lado esquerdo do peito já não simboliza a entrega a um amor como há poucos. Um amor que o havia de acompanhar em vida e dele despedir-se, ali mesmo, em morte.

Um caos de bombeiros, polícias, spotters e stewards. Dezenas e dezenas de pessoas chocadas. Com o coração nas mãos pelo homem que deixou o seu parar. Ninguém foi capaz de olhar mais para o campo. Os últimos 25 minutos da primeira parte foram os mais rápidos e os mais lentos que se viveram naquele estádio. Sem saber o que fazer. Como fazer. Por que fazer. Por quem fazer. Acho que em 22 anos de Benfica nunca tinha celebrado um golo sentado. Nem quando recuperava de uma entorse no pé direito. Desta vez…desta vez não havia outra maneira de o fazer. Ali, tão perto de mim, ia-se apagando um como eu. Por entre as muitas tentativas de reanimação cardíaca. À minha frente a alegria de ver o meu amor. Ao meu lado a dor anónima de ver morrer quem nunca hei-de conhecer, mas que hei-de sempre lembrar.

De repente, no meio de todo um amontoado de angústia e estranheza percebi o que não há a perceber no futebol. É isto o desporto-rei. O sofrer por todas as razões e por razão nenhuma. O querer para nós todos os sonhos do mundo e, numa louca conjugação simultânea, também desejar todos os desaires que os substituem. A dor de querer ser feliz no meio de tanta incerteza. O precisar de um sentido e o viver com a completa falta dele. Amar por amar. E ter, ver e viver nesse amor toda a vida.

Enquanto no campo se festejava, no Piso 3 sofria-se em silêncio Fonte: Reuters
Enquanto no campo se festejava, no Piso 3 sofria-se em silêncio
Fonte: Reuters

Hoje não faço um rescaldo. Hoje, como benfiquista que sou, agradeço ao companheiro que não pôde festejar connosco no final. E que não há-de poder festejar o nosso 33º campeonato. Eusébio e Coluna receber-te-ão em braços no olimpo encarnado, onde descansam todos os heróis que aproveitam a vivência térrea para gostar desta espera pela coroação divinal. Por ti, amigo benfiquista, Rodrigo fez o primeiro depois de uma jogada cheia de classe. Por ti, amigo benfiquista, Gaitán fez mais um de bandeira. Por ti, amigo benfiquista, Cardozo disse adeus aos cinco meses de seca e fez duas maldades. Por ti, amigo benfiquista, o nosso Benfica conseguiu a maior vitória do ano e mais um importantíssimo passo rumo àquilo que é nosso por direito há já anos e anos.

Não viste. Estavas a lutar pela vida. Agora descansa. Guardamos-te um espacinho no Marquês.

Tiago Martins

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