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Carta aberta a: Renato Sanches

Alexandre Ribeiro · 3 min

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Quero-te dizer a palavra não, Renato. Acho que precisas de ouvir em alto e bom som um redondo não. Redondo justifica-se porque não tem sido redonda a forma como a bola sai dos teus pés. Os teus erros são mais do que do que os teus proveitos. E não vejas esta carta com maldade, Renato. Sou jovem, tal como tu, e cometo muitos erros à procura de acertar passo num sítio cheio de profissionais prontos a quererem ser melhores que eu.

E é agora que falo contigo sobre a tua juventude, que acaba também por ser a minha. Olho para ti e vejo o talento natural e a força de poucos. Acredito que o potencial que existe em ti é gigante e que só precises da orientação correcta e o ambiente adequado à tua evolução, esperemos que rumo ao que podes ser e não ao que eles querem que sejas. Eles querem 60 milhões. Eles querem um prodígio a pegar num meio-campo jogado a dois. Eles querem um novo Eusébio. Eles querem um novo Ronaldo e eles querem que sejas convocado para uma selecção onde a tua presença tem o impacto tão desmedido que leva jornais desportivos – os grandes culpados pelo circo à tua volta – a colocarem-te acima do nosso capitão e, certamente, o melhor jogador português de sempre.

Poderia dizer-te para ignorares todo o burburinho do adepto fanático, mas isso seria impossível, Renato. O barulho não vai parar e no fim da época certamente que teremos várias formas de olhar para as tuas prestações. A minha leitura será sempre esta: um jovem de 18 anos entrou numa equipa a cair aos bocados e – apesar de a sua entrada estar ligada cronologicamente à subida de nível da equipa – deu-lhe garra, trazendo-lhe uma alegria que só se compara com aquela que só sentíamos quando víamos entrar Mantorras em campo depois de tudo pelo que ele passou nos gabinetes médicos. Porém, a garra não chega para se ser considerado um grande jogador.

Quero-te contar uma coisa, Renato. Os teus erros têm-se acumulado e eu não vejo mal. O que estamos a ver é um jovem jogador a crescer em campo e a suportar o peso de um bicampeão nacional nas costas. Claro que aquele golo do meio da rua na estreia no nosso estádio foi um bálsamo para a alma, mas uma carreira não se faz de um momento gigante. As constantes leituras erradas de jogo, o descurar das missões defensivas e a irascibilidade própria de uma fera indomável são claríssimas num jogador que precisa de descer para subir. Um empréstimo não te faria mal, Renato. William Carvalho, que hoje é chamado de Sir no outro lado da circular, teve que aperfeiçoar e descobrir o seu dom por terras belgas até encontrar o seu espaço em Alvalade.

A eliminatória frente ao FC Bayern Munique mostrou coisas boas e outras a melhorar Fonte: SL Benfica
A eliminatória frente ao FC Bayern Munique mostrou coisas boas e outras a melhorar
Fonte: SL Benfica

Dir-te-ia agora para esqueceres o barulho gigante da comunicação social que tens à tua volta, Renato. Não quero que penses nos 60 milhões, esses números que interessam a outros, e peço que esqueças as más-línguas que preferem um jogador mediano na Luz do que um futuro grande jogador português a brilhar pela selecção. São muitos contra ti e são muitos a teu favor. As capas de jornais não te fazem mais jogador e os elogios por parte de meio mundo não te tornarão num jogador mais capaz. São o que são e só servem para encher espaços vazios de ideias.

Chego ao fim desta carta e espero que percebas o meu não, Renato. Não quero que sejas mais um miúdo talentoso a cair num buraco sem fim. Não quero que sejas mais uma força da natureza que o extra-futebol leve para outro lado. Não quero que sejas convocado para o Euro 2016. Não quero que sejas jogador no Benfica só porque as soluções escasseiam. Não quero entrar em euforias desmesuradas porque quero ver-te crescer de forma equilibrada e pronto a dominar o meio-campo do Benfica e da Selecção na plena capacidade das tuas posses. Os nãos que lês aqui são facilmente tornados em sim, basta não seres menos do que podes vir a ser.

Alexandre Ribeiro

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