E se Jesus ressuscitasse?

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Numa altura em que a posição de Rui Vitória como treinador do Benfica está muito fragilizada surge a hipótese de um despedimento na mente dos adeptos. Estes já se fizeram ouvir por muitas vezes ao mostrar lenços brancos no final das partidas em que os encarnados saíram derrotados na Luz – contra Ajax e Moreirense – quando antes já tinham demonstrado o seu desagrado em formato de assobios na derrota no Jamor contra os Belenenses SAD. Com o cerco a apertar e com exibições que claramente estão longe do alcance de um plantel como o do Benfica, a paciência dos adeptos perante o treinador começa a esgotar-se e a saída do atual timoneiro é recorrentemente exigida ao presidente Luís Filipe Vieira. Neste clima de tensão, surge, tal Dom Sebastião a regressar no nevoeiro, o nome de Jorge Jesus para tomar conta do comando técnico dos encarnados uma segunda vez. Poderá acontecer a ressurreição de Jesus à quarta época?

Em caso afirmativo, há duas perspetivas, pensando apenas em futebol, ao invés de colocar a “traição” de ter ido para o rival leonino na equação:

Na primeira abordagem surge logo no pensamento o facto de Jesus ter perdido três campeonatos consecutivos – dois deles com uma vantagem considerável e nas derradeiras jornadas da competição. Vem a dor de ter perdido duas finais europeias, uma taça de Portugal frente ao Vitória SC (contra o treinador que agora orienta as águias), o desacato com Óscar Cardozo, a insistência em Émerson, Bruno Cortez, Melgarejo, David Luiz a defesa esquerdo, e muitas outras teimosias de Jesus ao longo dos seis anos em que esteve no banco do Benfica. Vêm também à memória os 0-5 contra o FC Porto no Estádio do Dragão, a falha na aposta nos jovens – deixando perder o talento de Bernardo Silva e João Cancelo, que agora são jogadores de equipas de topo mundial -, e o fracasso na Liga dos Campeões – sucessivas relegações para a Liga Europa.

Jorge Jesus saiu do Benfica para o Sporting em 2015. A sua presença nos festejos foi totalmente diferente do ano anterior
Fonte: SL Benfica

Porém, vem a segunda perspetiva, que é aquela que encara o regresso como um conto de fadas fantástico. Lembramo-nos do campeonato avassalador na época de estreia – aquele tipo de jogo fantástico cheio de golos; o futebol com “nota artística” que se conseguia jogar; as campanhas longas e intermináveis nas competições europeias, com aquela emoção que há muito não se sentia ao jogar por um troféu externo; o bicampeonato que não se conseguia há décadas e o sonho de duas finais consecutivas da Liga Europa, onde se eliminou a Juventus para chegar à final. Jesus trouxe grande futebol para o Benfica, fez renascer a hegemonia dos encarnados e trouxe um Benfica mais Europeu, em conjunto com a alegria de ir ao Estádio da Luz. Trouxe estrutura e discernimento tático – não fosse ele intitulado de “mestre da tática” enquanto cá esteve. Sem o trabalho dele por detrás, sabe-se lá se o Benfica de Rui Vitória teria conseguido vencer por tanto tempo. Agora que o trabalho de Jesus parece estar a desaparecer do plantel, as coisas estão a piorar exponencialmente.

O seu regresso é discutível. O que não é discutível é que o Benfica de Jorge Jesus foi possivelmente o melhor Benfica dos últimos 30 anos. Há que lhe dar mérito por isso; há que perceber quando alguém olha para este Benfica e suspira pelo futebol do Benfica de há quatro anos atrás.

Foto de Capa: SL Benfica

Revisto por: Mariana Coelho

Pedro Afonso
Pedro Afonsohttp://www.bolanarede.pt
Foi com o Portugal x Inglaterra do Euro 2000 que descobriu um dos maiores amores da sua vida: o futebol. Natural de Lisboa, teve a primeira experiência profissional na Abola TV e agora é jornalista da ELEVEN

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