Nada de inovador ou invulgar

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Há adeptos confusos desde o último clássico – que o FC Porto venceu com mérito e o provável auxílio do bruxo de Fafe – e que desde esse dia vivem entre a euforia e a depressão. Este resultado provocou uma instantânea inversão de sensações, materializada numa ininterrupta travessia de optimismos e pessimismos, de um e para o outro lado, capaz de atulhar por completo a Segunda Circular. Em gíria futebolística dir-se-ia que naquela noite chuvosa de sexta-feira “a bola não quis entrar” (à segunda, terceira e quarta vez); Iker Casillas foi o homem do jogo e o Benfica cometeu erros que o adversário, fazendo o que lhe competia, não desaproveitou. Numa partida equilibrada e bem disputada venceu a equipa mais competente, na defesa e no ataque. Nada de inovador, ou sequer invulgar, para a história do futebol.

A partir daquele ponto concluiu-se, imediatamente, sobre o que foi, é e será, daqui para diante, este campeonato. Caro leitor, tenho a informá-lo do seu erro de avaliação. Não se precipite, pois, como os dias seguintes vieram a confirmar, ninguém de encarnado vestido está deprimido ou pensa em desistir, por simpatia ou solidariedade, de lutar até ao fim. Ainda nada está decidido e aquela partida de Carnaval (atrasada) dos Deuses do futebol – festejada a azul e a verde como se Kelvin tivesse voltado a marcar – vale para todos: não há vitórias antecipadas, seja no Inferno, no Céu ou no Purgatório. Nada de inovador, ou sequer invulgar, para a história do futebol.

As vitórias justas e seguras pós-FC Porto confirmaram a qualidade deste grupo; Fonte: #SLBenfica
As vitórias justas e seguras pós-FC Porto confirmaram a qualidade deste grupo
Fonte: #SLBenfica

Dentro de casa
Estou habituado às reacções pela derrota. O coração benfiquista solta-se facilmente, e pior que o ter junto à boca é vê-lo aos saltos, incontrolável, cheio de emoção e nenhuma razão, batendo a mil por uma questão de vida ou de morte. Rui Vitória cometeu erros – é mau; Jonas falhou golos – é mau; Júlio César não defendeu – é mau. Esta atracção fatalista pelo abismo está gasta pelo uso e, sinceramente, encaro-a com a mesma naturalidade com que encaro a vitória seguinte, quatro dias depois, contra o Zenit, num jogo de Champions, a caminho do top oito europeu. Rui Vitória acertou – é bom. Jonas marcou – é bom. Júlio César defendeu – é bom. Nada de inovador, ou sequer invulgar, para a história do futebol.

Importa-me, sim, verificar que o Benfica detém hoje um grupo de jogadores que demonstra, a cada lance disputado, uma vontade inquebrável de vencer: o jogo e o campeonato. Esta equipa, trabalhadora e humilde, um misto de juventude e experiência, joga “à Benfica” – seja na derrota frente ao FC Porto ou nas vitórias diante do Zenit ou do Paços de Ferreira – e, por isso, merece todo o nosso respeito e apoio. Se a lógica estatística cumprir o seu papel, o triunfo na Capital do Móvel marcará o início de um ciclo que nos fará consolidar, no próximo mês, a liderança da prova. Não se preocupem, os adversários: podemos levar os três pontos, mas garantir-vos-emos lotação esgotada. Nada de inovador, ou sequer invulgar, para a história do futebol. 

Fora de casa
A vitória do FC Porto no Estádio da Luz teve o condão de fazer ressuscitar os mortos e de suspender, temporariamente, a candidatura do Benfica ao tricampeonato. Os rivais adoram quando a águia tropeça e o ruído pela comemoração é proporcional ao tempo de espera – eu compreendo (a sério!).

Pinto da Costa voltou à fina ironia e, pouco depois, o FC Porto jogou em Dortmund com um quarteto defensivo engraçado (do ponto de vista cómico e não bonitinho), chegando aliviado ao apito final, com uma desvantagem de apenas dois golos. O FC Porto continua a praticar o seu futebol, com as suas virtudes e os seus defeitos, e nem a meritória vitória na Luz permitirá alterar esse facto. Nada de inovador, ou sequer invulgar, para a história do futebol.

Depois da festa, o Sporting perdeu em casa com o Bayer Leverkusen. O “cérebro” – como certamente hão-de se recordar o termo não é meu –, que no Benfica fazia as mesmas rotações e, ainda assim, chegava às finais da Liga Europa, recordou que sabe vencer em casa dos farmacêuticos. Sabe Jorge Jesus, sei eu e sabe Cardozo (é preciso dizer porquê?). De resto, confiro apenas que o Sporting continua a praticar o seu futebol, com as suas virtudes e os seus defeitos, e nem a meritória vitória do FC Porto na Luz permitirá alterar esse facto. Nada de inovador, ou sequer invulgar, para a história do futebol.

 Foto de Capa: SL Benfica

João Amaral Santos
João Amaral Santoshttp://www.bolanarede.pt
O João já nasceu apaixonado por desporto. Depois, veio a escrita – onde encontra o seu lugar feliz. Embora apaixonado por futebol, a natureza tosca dos seus pés cedo o convenceu a jogar ao teclado. Ex-jogador de andebol, é jornalista desde 2002 (de jornal e rádio) e adora (tentar) contar uma boa história envolvendo os verdadeiros protagonistas. Adora viajar, literatura e cinema. E anseia pelo regresso da Académica à 1.ª divisão..                                                                                                                                                 O João não escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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