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Nas largas costas dos outros

João Amaral Santos · 2 min

Nas largas costas dos outros

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O tempo é matéria diáfana e fugidia que muito temo e respeito. Ensina-me coisas da bola e da vida, recordando-me constante e sabiamente “a” frase, repetida vezes sem conta, daquele que foi o meu melhor professor: “já está tudo inventado!” – significando, simplesmente, que basta boa observação e memória para que, quando possível, se corrijam os erros e, daí para a frente, se faça mais e melhor. Os dirigentes do Benfica, porém, optaram por começar a época fazendo tudo ao contrário; esta semana, Luís Filipe Vieira explicou porquê – eu, confesso, não percebi as (suas) razões e, por enquanto, mantenho as mesmas dúvidas e reservas.

Não alinho, no entanto, com a narrativa apocalíptica que aterroriza tantos benfiquistas. A vida é muito simples e ao deparar-me diariamente com um trintão olhando-me no espelho sei, no imediato, que conheço este clube há tempo suficiente para não me assustar com o actual momento. Não se ofendam com a comparação, mas eu já vivi o meu Holocausto, mais longo que uma guerra mundial (entre o fim e o início dos séculos), e, por isso, sou muito pouco fatalista. Entretanto, o Benfica cresceu e hoje, com estatuto de bi-campeão e recursos próprios (feitos de cimento e de carne e osso), está preparado para continuar a vencer; quando não o conseguir, que não restem dúvidas: os culpados encontrar-se-ão sempre dentro da nossa própria casa.

Mais trabalho e talento e menos teorias da conspiração – é a equação das vitórias Fonte: SL Benfica
Mais trabalho e talento e menos teorias da conspiração – é a equação das vitórias
Fonte: SL Benfica

A enxurrada de comentadores que representam o clube – nos jornais, rádios e televisões –, profissionais ou amadores, próximos ou não da estrutura, atiram o foco para longe, provocando lamentáveis danos colaterais, como sucedeu, esta semana, com o jogador Tonel (com recurso a uma retórica que nos deveria a todos envergonhar). É matéria repetida que cansa e enoja, pois, feitas bem as contas, prejudica em primeira e última instância o próprio Benfica. Esta estratégia populista e demagógica trava a reflexão e o debate sérios, dividindo, criando o caos e semeando a dúvida. Tudo isto, bem espremido, impede uma democrática e essencial identificação das causas (e dos culpados), bem como da busca por melhores consequências.

É por isso que insisto: o Benfica tem o direito de se defender, nas instâncias adequadas, contra todos aqueles que atentem contra o clube; seja Jorge Jesus ou os dirigentes do Sporting, investidos, desde o início desta época, numa estratégia caluniosa primária que inclui a injúria ao vizinho (bailada ao jeito “pimba” nas bancadas de Alvalade) e – tal como todos podemos observar a cada jornada – valentes “empurrões” a uma equipa esforçada mas modesta. No entanto, todo este ruído, feito de naturais rivalidades, jamais poderá fazer cair no esquecimento as verdadeiras razões para, em vésperas natalícias, o Benfica estar já afastado da Taça de Portugal e se encontrar a cinco pontos do primeiro lugar do campeonato.

Assumir os nossos erros – corrigi-los e não repeti-los – é o primeiro (e decisivo) passo para voltar a ser feliz. No futebol e na vida.

Foto de Capa: Sport Lisboa e Benfica

João Amaral Santos

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