No princípio era Sport Lisboa e Benfica

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Às vezes, a meio de algum dos 3489 jogos que já vi na Luz, enquanto os jogadores suam (Maxi e Enzo, esta é para vocês) e os colegas de bancada vociferam sobre a mãe do árbitro, sou traído pela (in)consciência e vou em busca do Sport Lisboa e Benfica. Não reconheço este Benfica naquele que me foi explicado e ensinado.

Nasci e cresci Benfica na pior fase da história do clube, é verdade. Mas muito para lá do Damásio, do Pembridge, do Bossio e do Uribe, havia militância, indignação, ambição de algo mais e melhor. Não tínhamos o Matic, o Salvio, a Benfica TV e as cadeiras almofadadas, mas orgulhosamente tínhamos o Estádio da Luz com cento e vinte mil cadeiras vermelhas com tantos outros golos e goleadas para contar. Havia arraial, havia cumplicidade, havia camisas pintadas a vinho, havia odor a Benfica que proliferava de todo aquele calor humano em redor de uma panela com sobras do almoço. O pré-jogo era feito ali mesmo, ensinando e bebendo e comendo Benfica. Não havia “especial antevisão”, comentadores com o cabelo perfeitamente aprumado para o directo. O fora-de-jogo milimétrico, a chuva de dados estatísticos e a previsão dos 22 jogadores que dali por algumas horas dariam cor ao relvado da Luz (os 11 do adepto-treinador-árbitro-dirigente-quase jogador e os 11 do treinador), davam lugar aos fumos e charutos e às cervejas e à Orangina (para tortos, chegavam os pais).

Antigo Estádio da Luz Fonte: vivaobenfica.wordpress.com
Antigo Estádio da Luz
Fonte: vivaobenfica.wordpress.com

Isto desapareceu, emigrou, morreu. Deve estar no quarto anel à espera de acolher o Coluna e o Eusébio e o Águas e o Chalana. Foi-se a aura emuita da mística. Não deixámos de festejar os golos nem sequer o honroso feito das Taças da Liga, claro que não. Muito menos de chorar copiosas derrotas no país vizinho ou facadas aos 92 minutos. Mas não sabe ao mesmo. Hoje, 2013, onde está o benfiquista bêbado e labrego, que deixava o galhardete no espelho do carro e o cachecol na traseira? Só passaram (quase) duas décadas mas parece que foi uma vida. O cabelo arranjado e brilhante dos comentadores passou a embelezar o piso 1 e 2 do Estádio, repleto de humanos que ali vão ficando e bocejando durante os 90 minutos. Quase mortos-vivos sem que ninguém os tenha avisado, dão tanta importância ao jogo como a uma ida à mercearia comprar o açúcar que falta. Apertam-se mãos, dão-se abraços (não, não foi golo do Cardozo) e fecha-se aquele negócio. Os corredores da Luz ostentam douradas placas, gloriosa obra da empresa do cunhado do filho do director X e Y, “Benfica Corporate” e “Benfica Business” e outros que tais. O Sport Lisboa e Benfica virou negócio, interesse e palmadinhas nas costas. Ao que chegámos.

Tragam-me de volta o bêbado, o taxista, a filinha pirilau para a espécie de casa-de-banho e o Gullit pendurado nas grades, de megafone com mil vidas para contar na mão. Quando é que vais voltar a ser Sport Lisboa e Benfica, Benfica?

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