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O Clássico de Alfred Hitchcock

João Amaral Santos · 3 min

O Clássico de Alfred Hitchcock

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Há uns anos, numa noite como outra qualquer, decidi rever um filme de Alfred Hitchcock. Por motivos que desconheço – provavelmente algo do foro psicológico – viciei-me totalmente, o que me levou a consumir avidamente e em tempo recorde a esmagadora maioria da sua (longa) obra. À distância, vejo nesse período um acto voluntário de masoquismo: qualquer filme de Hitchcock é excepcional e superior; no entanto, de natureza maligna – um veículo de sensações desagradáveis, de tensão e angústia. Durante duas horas, seguimos o herói – perdido num contexto que lhe é estranho e inquietante – e sofremos, invariavelmente, das suas dúvidas e temores. Hitchcock serviu-se da ficção para expiar problemas reais: fobias de infância e adolescência, causadas pela severidade do pai e do colégio. Esses traumas deram origem à sua linguagem cinematográfica, porém, jamais o permitiram (ou à sua consciência) ir para além do pontual humor negro – não foi, em todo o caso, o pior exemplo do uso dado a um conjunto de frustrações e complexos.

A visita ao Estádio do Dragão é um filme deste género (e esta deve ser a comparação benfiquista mais simpática alguma vez feita). Hitchcock reclamava não se importar com o assunto dos seus filmes, nem com a moral ou a mensagem. Simplificando, apenas lhe interessava incomodar o espectador. Como tal, é necessariamente assim – sem tirar, nem pôr –, que qualquer benfiquista (ou qualquer bom adepto do próprio jogo) visiona esta película. Desde o genérico de abertura (que o realizador sempre utiliza), o ambiente é carregado a preto e branco: uma hostilidade primária e autóctone, feita por sombras e sons (embora piores que os de Bernard Herrmann), acossando o nosso herói e quem o apoia.

Na Luz, os filmes são sempre a cores vivas e alegres Fonte: Sport Lisboa e Benfica
Na Luz, os filmes são sempre a cores vivas e alegres
Fonte: Sport Lisboa e Benfica

O universo de Hitchcock é imprevisível e quando lá mergulhamos sabemos de antemão que, por vezes, não basta ser-se jovem e bonito; que nem sempre o bem vence o mal. Na sessão de domingo, o protagonista passou duas horas confinado às quatro linhas, dando o seu melhor, dividindo o controlo e justificando a repartição dos louros. No entanto, o cinéfilo é experimentado e realista: sabe que quem manda nesta produção é o Mestre do Suspense – com total controlo do argumento –, dirigindo os noventa minutos ao jeito que lhe convém. Se lhe apetecer, a acção decorre com factos improváveis: se não há corvos e gaivotas, arrancam-se uns olhos com bolas de golfe; na ausência de Anthony Perkins, arranja-se um Maicon de pitões em punho no papel de Norman Bates – tudo em prol do sucesso do thriller psicológico.

Desconheço as frustrações que originaram esta linguagem artística mas, como apaixonado por cinema e futebol, devo admitir: se é para causar repulsa, funciona muito bem, com a vantagem de não perder o efeito de ano para ano. Alfred Hitchcock não faria melhor.

P.S.: Não gosto de perder, obviamente; muito menos de ver o Benfica a quatro pontos do primeiro lugar. No entanto, esta semana deixo para outros as análises técnicas e tácticas e dou-me por satisfeito, apenas, por termos já cumprido a etapa anterior. No sábado, a sessão é já noutro palco – por vezes, a qualidade dos técnicos e actores pode, eventualmente, provar-se inferior; e o vilão, no final, até pode mesmo vencer. No entanto, as matinés na Luz são para a toda a família: é futebol. E quando o golo é nosso, as crianças apanha-bolas gritam o seu amor pelo Benfica, nunca o ódio pelo adversário.

João Amaral Santos

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Jorge Afonso · 3 min de leitura
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