O comunicado perdido

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Na manhã de segunda-feira, algo novo e surpreendente me surgiu, enquanto corria em diagonal, ao sabor de um café e com perversa curiosidade, a lista de condóminos devedores das coisas lá do prédio; alguns nomes mereciam divulgação tablóide, porquanto a evito – mais por ética que por respeito –, mas, sobretudo, para não desiludir tantos crentes e confiando, por certas deliberações democráticas e institucionais, que outros possam agora, melhorados os seus rendimentos, reduzir para zero as centenas, tal como, bem recentemente, puderam reduzir para centenas os milhares.

Dizia eu, perdoe-me o leitor a divagação, que algo me arrancou àquela leitura distraída. Na mesa do lado, um molho de papéis (que pela modéstia soube à partida não pertencerem a Pedro Guerra), repousava à mercê, esquecido ou perdido. Fui ver – naquele misto próprio que me é característico, de virtude profissional e defeito pessoal –, e qual não foi o meu espanto ao verificar, quase instantaneamente, a dimensão do meu erro de avaliação: existe mesmo alguém (para já anónimo) que a coberto de honestidade e seriedade perenes personifica e converge a moral e a verdade.

Parece-me, por isso, ser meu imperativo divulgar aquilo que, aparentemente, se trata de um rascunho de comunicado (quase) pronto a divulgar. Pois, certamente, apenas forças ocultas do destino o impediram até ao momento. Faço-o para glória do autor e da sua obra, mas também por egoísmo, no âmbito de um processo pessoal de indulgência, por tudo o que já disse e escrevi sobre falsos profetas e revolucionários charlatães. Que, neste gesto, possa comprar a absolvição do meu carácter. O tal texto narrava assim:

Caros sócios e adeptos,
Desde que cheguei, apelo à justiça e à transparência, jamais me esquivando das batalhas que, dentro e fora de casa, se tornam necessárias travar em nossa defesa e em prol da verdade. Segui consciente este caminho, denunciando o que de mal aconteceu nos últimos anos e que justifica, em parte – pois não nos esqueçamos do inimigo interno –, o sorriso incómodo e constante no rosto dos nossos vizinhos. Em nome da honra e do bom senso, não me farei silenciar perante todo e qualquer ilícito. Nesta missão, vejo-me forçado a perscrutar a nossa própria consciência colectiva. Senão vejamos:

1. Há ofertas que sabemos o que são e quanto custam; mas o que é, afinal, um suborno, no valor de dois mil euros e em forma de transferência bancária para a conta de um árbitro, concretizado por alguém com acesso aos nossos corredores e, por coincidência, com relações próximas com o nosso vice-presidente, com o objectivo de afastar e/ou condicionar elementos intervenientes no jogo? Valerá isto descida de divisão? 

2. Questiono-me, por vezes, se me excederei em considerações quando, ao comentar nomeações, busco no microfone mais próximo ameaças veladas a quem dirigirá, pressionando com o passado, o presente e o futuro, com as consequências que, em apenas três jornadas, todos pudemos confirmar; o que dizem os regulamentos? Valerá isto descida de divisão? 

3. Como um homem bom e coerente, movido pela pacificação, aproveito, desde já, para prestar nestas linhas genuínas a mais sincera solidariedade a quem, na última semana, se viu agredido pelas costas. Na esperança de que, em prol da mudança que tanto preconizamos, se faça agora a justiça que vimos negada, há não muito tempo, quando em uníssono exigíamos até à exaustão a intervenção da mão pesada da lei (a dos homens e a da bola) contra aqueles que, debaixo de um manto protector, provocavam treinadores adversários e agrediam jogadores e forças da autoridade. É como diz o braço direito do melhor do mundo: que  Vandinho não morra solteiro!”.

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Fonte: SL Benfica 

E assim terminava, esta curta e enigmática missiva, sem remetente ou destinatário, perdida numa esplanada da freguesia do Lumiar, que – com as devidas correcções (não queremos este espaço contaminado com a iliteracia que, vezes demais, invade as redes sociais) – vos resolvi revelar. Um bom exemplo de como ainda há esperança, pois contra todas as (minhas) expectativas andará mesmo por aí um virtuoso Messias, capaz de julgar correctamente as mais polémicas questões da actualidade, sem nunca cair no ridículo de o fazer à luz de alguns mitos tornados reais com recurso à repetição insistente e cansativa.

Mesmo não percebendo realmente o conteúdo do texto – do que trata e quem são o seus protagonistas –, gostava de deixar uma palavra de admiração por quem tem a capacidade de analisar assim, desabridamente e sem complexos de Napoleão, o vasto interior do próprio umbigo: uma verdadeira inspiração.

P.S.: se alguém souber algo sobre este Shakespeare moderno,  faça o favor de pagar a dívida de gratidão.

Foto de Capa: SL Benfica

João Amaral Santos
João Amaral Santoshttp://www.bolanarede.pt
O João já nasceu apaixonado por desporto. Depois, veio a escrita – onde encontra o seu lugar feliz. Embora apaixonado por futebol, a natureza tosca dos seus pés cedo o convenceu a jogar ao teclado. Ex-jogador de andebol, é jornalista desde 2002 (de jornal e rádio) e adora (tentar) contar uma boa história envolvendo os verdadeiros protagonistas. Adora viajar, literatura e cinema. E anseia pelo regresso da Académica à 1.ª divisão..                                                                                                                                                 O João não escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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