O (grande) valor desta vitória moral

- Advertisement -

sl benfica cabeçalho 1

Algo acontece no mundo do futebol e que urge denunciar e fazer por cessar: as vitórias morais são, na sua maioria, alvo de uma enorme discriminação. Este flagelo, incompreensível em pleno século XXI, não é, como se poderia esperar, protagonizado por indivíduos sem rosto, de palavras anónimas e distantes. Pelo contrário, os seus autores são, isso sim, os adeptos comuns, aqueles com quem convivemos diariamente, nossos familiares, amigos ou colegas de trabalho; não escolhe classes, sexo ou idade. E sofre de dupla incompreensão: de quem a conquista e de todos os outros, os rivais, incapazes de encontrarem mérito numa escalada abaixo do Evereste – mesmo se apenas por centímetros.

Quem a conquista – à moral em causa, entenda-se – rejeita assumir perante os outros sentimentos positivos após o desaire da própria equipa. Não lhe importa o adversário, o seu orçamento ou as suas qualidades individuais e colectivas; nem sequer as circunstâncias atenuantes decorrentes do próprio jogo (como castigos e lesões ou erros de arbitragem). Nestes casos, o adepto comum ignora publicamente o carácter inatingível do desafio. Apesar da exibição positiva e do resultado alcançado – normalmente, uma derrota por números reduzidos – usa da vaidade e, em certos casos, da ingenuidade com o alegado propósito de proteger a sagrada dimensão do clube que apoia.

Assistir a tal coisa nos dias que correm parece-me inaceitável; peço, por isso, liberdade e igualdade de oportunidades para a vitória moral, assim como ao direito a usufruir da tranquilidade e da felicidade que ela comporta. A última destas vitórias conquistei, ou melhor, conquistámos – avance quem tiver coragem! – na passada quarta-feira, graças a uma exibição notável de uma equipa constituída maioritariamente por miúdos e suplentes do Benfica frente ao Bayern de Munique de Pep Guardiola, uma das melhores equipas do mundo na actualidade e, muito provavelmente, da história do futebol.

A eliminatória terminou 3-2 e o Benfica foi afastado da Liga dos Campeões. Dito assim, parecem poucos os motivos para festejar. Haverá sempre quem afirme sem vergonha que os efeitos de diferentes derrotas são sempre iguais; ou que nada de positivo pode advir para além da sua consumação. Esta lógica pressupõe que será igual perder por um ou por dez; que perder uma final é, na verdade, o mesmo que nem lá chegar; que a derrota por um com o campeão alemão é, no fundo, o mesmo que perder por três com o da Albânia; ou até que apurar-se via Taça Intertoto é, mais coisa menos coisa, conquistar uma competição europeia.

Três suplentes do Benfica a festejarem um golo ao Bayern de Munique... Fonte: #SL Benfica
Três suplentes do Benfica a festejarem um golo ao Bayern de Munique…
Fonte: #SL Benfica

Pois eu digo que não é! Que este jogo e esta eliminatória confirmaram, essencialmente, o patamar a que pertence o Benfica; ou, se preferirem, ao lote de clubes a que recentemente foi devolvido – e que será sempre inalcançável a qualquer outro emblema deste país pequenino. Como no Estádio da Luz não cabem complexos, como é apenas e só um dos mais belos locais do mundo de partilha de um amor comum, no final do jogo cantou-se em uníssono e sem tabus a grandeza e o orgulho. Nas bancadas eram milhares, mas, por todo o mundo, eram milhões a festejar uma grande vitória moral, tão inútil para tantos, quanto, na minha humilde opinião, indispensável nesta fase da época.

Olhando para nós próprios – todos nós, estando dentro ou fora das quatro linhas – encontramos nestes 180 minutos mais que o suficiente para alcançarmos o nosso principal objectivo. Acredito tanto nesta equipa – com ou sem Jonas, Mitroglu e Gaitán; com ou sem seis miúdos com 22 anos ou menos; com ou sem quatro atletas da nossa formação – que a acho capaz de tudo. Por isso mesmo, a recordarei para sempre como aquela que melhor representou a qualidade, o querer e a ambição que nos são congénitos. Mas já agora, para o campeonato: dêem-me uma vitória real.

João Amaral Santos
João Amaral Santoshttp://www.bolanarede.pt
O João já nasceu apaixonado por desporto. Depois, veio a escrita – onde encontra o seu lugar feliz. Embora apaixonado por futebol, a natureza tosca dos seus pés cedo o convenceu a jogar ao teclado. Ex-jogador de andebol, é jornalista desde 2002 (de jornal e rádio) e adora (tentar) contar uma boa história envolvendo os verdadeiros protagonistas. Adora viajar, literatura e cinema. E anseia pelo regresso da Académica à 1.ª divisão..                                                                                                                                                 O João não escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

Subscreve!

Artigos Populares

Francesco Farioli dá resposta ao interesse da seleção de Itália

Francesco Farioli não está interessado em assumir a seleção de Itália, encontrando-se focado no projeto do FC Porto.

Benfica: imprensa italiana revela que Richard Ríos pode sair da Luz e aponta 4 interessados

Richard Ríos pode deixar de ser jogador do Benfica no mercado de verão. O médio colombiano conta com quatro interessados.

AM Bola na Rede #5 – Uma ‘manita’ portuguesa e o XI da 2ª jornada

O 'AM Bola na Rede' é o podcast que vai acompanhar o Mundial 2026. No quinto episódio, a análise à vitória de Portugal e o XI da jornada.

José Mourinho já entrou em contacto: Jude Bellingham terá papel especial e tática do Real Madrid está definida

José Mourinho falou com Jude Bellingham e revelou que o internacional inglês exerça a posição de número 10 no Real Madrid.

PUB

Mais Artigos Populares

Vozinha é o nome que está na moda: guarda-redes tem 3 interessados

Vozinha está livre no mercado depois de ter terminado a sua ligação ao Chaves. O jogador interessa a três conjuntos da Série B do Brasileirão.

Sporting respira de alívio: excedentário perto de sair

Biel prepara-se para deixar o Sporting, novamente por empréstimo. Já existe acordo para que o extremo rume ao Pafos.

José Mourinho deu luz verde: Real Madrid ‘adia’ três contratações

O Real Madrid pensou em recomprar Nico Paz, Chema Andrés e Jacobo Ramón, mas os jogadores não vão regressar ao Bernabéu para já.