
Vê mais Bola na Rede no teu Discover Seguir no Google
Sentia-se pouco mais que uma brisa leve, o sol raiava, e a temperatura era a mais alta do ano. O primeiro cheiro a verão fazia sentir culpado quem não aproveitasse aquele dia, mesmo que não tivesse outra alternativa. A esplanada do café da esquina convidava à estadia. Não podia haver outro sítio onde se pudesse estar sem se sentir remorsos. 0,5€ por um café e a escuta involuntária de conversas alheias eram um preço justo a pagar por qualquer pessoa que já tivesse dobrado a puberdade.
As conversas não variavam muito, incidiam sobre o rescaldo do campeonato, e cada um puxava para o seu lado como é apanágio destas coisas. Fosse de forma delicada ou brusca, tirando ou reforçando o mérito de quem o tinha vencido e apregoando as injustiças de quem os seus clubes tinham sido alvo. Nessa tarde, calhou ser discutido o campeonato que o Benfica vencera, 11 anos depois da última conquista.
Uns substituiam o mérito por sorte, outros reforçavam a justiça do vencedor. Uns diziam que se ganhou sem saber ler nem escrever, outros falavam na sagacidade de Trapattoni, que fez de Bruno Aguiar grande jogador. Uns falavam em vitórias nos últimos minutos, “às três pancadas”, outros na capacidade de sofrimento, na saúde mental. Havia um nome que entrava nesta última discussão. O de Pedro Mantorras.

Fonte: Copa América
Em 2004/2005, criou-se o “efeito Mantorras”. A fluidez do jogo do Benfica podia não ser a melhor, as oportunidades completamente anuladas, esgotando qualquer indício de possível alegria. Mas quando o angolano era chamado, a Luz acreditava. O público galvanizava-se, quase salivando por um golo, num efeito parecido ao cão de Pavlov (que salivava, sempre que ouvia um estímulo a que associava uma recompensa), por saber que o sucesso ficaria mais perto quando entrasse o Mantorras. Afinal, das 5 vezes que marcou, 4 delas foram saídas do banco, muitas das quais decisivas para a conquista dos três pontos (como, por exemplo, no marcante 4-3 contra o Marítimo).
Algum chamaram-lhe sorte, outros talento. Mas o nome de Pedro Mantorras é indissociável a esse campeonato. Entrava, marcava e era um elemento que galvanizava os colegas e o público. Podia até não marcar, mas só o facto de se saber que se podia contar com esse impulso moral já era uma arma poderosa, a que acrescia a sua disponibilidade física, a crença e o espírito de sacríficio que trazia para dentro de campo. São semelhanças a mais com um jogador, também ele camisola 9, que integra o plantel do Benfica. Raúl Jímenez.
Também ele foi decisivo para que o Benfica se sagrasse campeão. No caso, tricampeão, 39 anos depois (3 vezes o número de anos que foi preciso para que o Benfica vencesse o campeoanto de 2005). Foi decisivo em Vila do Conde e em Coimbra, quando o caso estava mal parado para o lado encarnado, com o tempo a fugir e com ele 4 pontos que chegariam para que o campeão fosse outro. Algo a que se agarram os defensores da “corrente de pensamento crítico” que se opõe à justiça do campeão. Terá sido sorte, dizem eles. Foi raça, querer e ambição, respondem-lhes.
A meu ver, podiam apontar exactamente Jímenez como figura ilustrativa desse lema. Jímenez é aquele jogador que vai sempre, que acredita que o outro vai falhar, que não se importa de fazer um sprint até à linha final mesmo que a hipótese de chegar à bola seja mínima. Jímenez entrega-se, de corpo e alma ao jogo. Como Mantorras.
É certo que as comparações terminam aqui, porque, por exemplo, se o 9 actual do Benfica é mais dado à marcação e não se importa com o contacto físico, o antigo era mais fugidio, à procura do drible. Mas a capacidade mental e a forma como ambos encaram cada bola como uma oportunidade, mexendo com as esperanças do público benfiquista, fazem com que sejam perfeitamente comparáveis. Jímenez já se tornou uma espécie de “Mantorras Mexicano”.
Raúl levou isso para fora do contexto clubístico, e há duas madrugadas atrás, entrou no México 1-1 Uruguai. Passados 5 minutos assistia para o 2-1. À beira do fim fechava as contas com outra assistência.
Não terá passado isento, este feito do mexicano. A conversa sobre a justiça do campeão ter-se-á reanimado, incomodando quem está de fora por ver interrompido o seu sossego. Mas o tempo tem valido a pena e os 0,70€ do café são preço justo a pagar pela consciência tranquila de que se aproveitou o dia, tal como Jímenez aproveita cada oportunidade.
Foto de capa: SL Benfica









