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O plantel (quase) perfeito

João Amaral Santos · 4 min

O plantel (quase) perfeito

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Considero-me um benfiquista um tanto ou quanto desagradável – não apenas para quem encara o benfiquismo como coisa demoníaca, mas mesmo para outros benfiquistas. O problema (apercebi-me recentemente) é que sou incapaz de relaxar, de sentir a tranquilidade e a confiança prometidas pelas sucessivas vitórias. Por esta altura do ano, sou, invariavelmente, invadido por maus sentimentos. Confesso, sem ponta de orgulho, que chego a sentir inveja dos adversários – da sua elevada auto-estima, notória a cada gesto e palavra, das suas certezas reais e irrisórias sobre plantéis e jogadores, o que lhes permite desfrutar convenientemente do Sol e dos banhos de mar, ou de reservar, por voz oficial, um espacinho de museu para a próxima taça de campeão.

Não me dou a esse luxo. Nasci e cresci nos oitenta e vivi com total clareza, já jovem adulto, a travessia dos séculos, verdadeiro período de trevas (uma década inteira e inesquecível), quando a esperança se usava como paliativo e retardador dum desfecho costumado e trágico. Nessa época, o futuro desenhava-se em tons de cinza, desfocado e ondulante; e era somente uma soma congénita de querer e ambição, sem correspondência com a realidade (outra coisa de que me apercebi, ou que soube admitir, bem recentemente). São experiências que marcam, que se fixaram eterna e dolorosamente na memória e no coração – tornando-se inusitadamente úteis. Pela parte que nos toca, recordam-nos da natureza contranatura dos jejuns prolongados; consciencializam-nos sobre o que fazer, como e quando o fazer, para os evitar e para ganhar o próximo jogo e o próximo troféu ou título.

Habituei-me, por isso, a ver o copo meio vazio. A reconhecer prenúncios de desgraça a cada tufo de relva fora do lugar – mesmo com o plantel mais equilibrado e consistente de que há memória. Recuso os excessos, os deslumbramentos e afins, preferindo identificar e apontar lacunas, aquilo que falta e pode ser melhorado. Simultaneamente, abdico de me agarrar a virtudes inquebrantáveis teorizadas nalguns jornais e por todas as mesas de café. Não se trata de uma escolha: a de ser pessimista e temeroso; um adepto aborrecido e preocupado. Porém, continuo convencido de que esta é a melhor forma de exercer o meu benfiquismo. A vitória na Supertaça, dificílima e saborosíssima, comprova que ainda existe um longo e duro caminho a percorrer até à plenitude futebolística.

O problema actual (talvez o mais evidente) prende-se com os elevados níveis de fertilidade daquele tapete verde, sempre fresquinho, sem sulcos ou remendos, enquadrado pelo mais belo estádio do mundo, que os nossos jogadores, e mais alguns afortunados, têm a honra de pisar. É como se, por cada semente lançada ao acaso, florescesse, sem dificuldade, até com naturalidade, um médio centro, o “oito”, box-to-box por excelência, com qualidade suficiente – e as características físicas, técnicas e tácticas – para nos carregar ao sucesso, contribuindo decisivamente para uma época em cheio.

André Horta tem inegável qualidade; todavia, a titularidade no Benfica soa a precipitação Fonte: SL Benfica
André Horta tem inegável qualidade; todavia, a titularidade no Benfica soa a precipitação
Fonte: SL Benfica

 

Sucedeu com Enzo Perez; com Pizzi e Renato Sanches. Em todos estes casos, foi a necessidade – ou, se o leitor preferir, a falta de soluções de raiz – a estimular a veia criativa do treinador. Felizmente, estes exemplos, um por ano, um por cada título de campeão, culminaram em histórias com final feliz, de gordos triunfos de bola e tesouraria. Estes desfechos não impedem, todavia, que se ignorem certas lacunas individuais, próprias de quem aprendeu, num par de meses, a ocupar o centro nevrálgico colectivo. Problemas de carácter técnico e táctico – defeitos que, ainda assim, não superaram as virtudes –, mas que contribuíram, a determinada altura, para que o jogador do momento fosse capaz, sem reservas ou excepção, de fazer mais e melhor, relegando o seu antecessor a uma recordação suave e doce.

Num plantel tão rico, tão unanimemente elogiado, não existem, neste momento, elementos capazes de fazer esquecer Renato Sanches, nem qualquer um dos outros médios enumerados. Essa vaga fundamental continua ocupada por jogadores interessantes, jovens de grande qualidade e futuro, embora, a bem da verdade, nenhum destes atributos – a que se soma o muito querer – possa dar, a este nível, garantias absolutas e imediatas.

André Horta não engana; correm-lhe nas veias futebol e benfiquismo. O seu jogo, porém, é (ainda) demasiado curto; falta-lhe a verticalidade, a explosão, a capacidade de criar rupturas, de galgar metros com a bola, de provocar desequilíbrios, em força e velocidade – características indesmentíveis de Renato Sanches. Foi a sua postura (mais) passiva, de médio de bola no pé, que privilegia a circulação, bem ao jeito de André Gomes, que retirou ao Benfica capacidade de dominar o Sporting de Braga, de controlar os acontecimentos, durante longos 60 minutos e até à chegada do tranquilizador segundo golo. Não duvido, por um segundo, da sua qualidade, do papel que, mais cedo ou mais tarde, ocupará na equipa. No entanto, para já, é ainda demasiado cedo para André Horta – e a pressão a que está sujeito só lhe poderá fazer mal.

Quando se consegue oferecer a Rui Vitória um super plantel, com titulares e alternativas – sejam eles quem forem – de grande categoria, não se pode deixar o trabalho a meio; não é possível esquecer o reforço da posição que, no esquema utilizado pelo Benfica, é, mais que nenhuma outra, basilar.

 

Foto de Capa: SL Benfica

João Amaral Santos

Redação Bola na Rede · ver artigos