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O verdadeiro artista

João Amaral Santos · 2 min

O verdadeiro artista

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Andámos décadas a receber dádivas de José Saramago – nunca suficientes por mais que fossem –, obras de arte imensas e intemporais, produzidas, segundo o próprio, como quem pinta uma parede, para agora ouvir pintores de parede afirmarem que produzem algo parecido a uma obra de arte. Neste caso, imensa e intemporal só a falta de noção do ridículo. A arte, a magia, ou qualquer outro termo figurativo do género aplicado ao futebol, exige sempre bola no pé, acontece no interior das quatro linhas; cá fora, simples bastidor para figurantes, a conversa é outra, existe prazo de validade, e quem define se estamos nos oito, nos oitenta ou nos oitenta e oito são somente os resultados.

Existe, no entanto, um actor secundário que, por estes dias, tem feito por merecer as luzes do palco principal: Rui Vitória. O treinador do Benfica, tricampeão, recordista de pontos no campeonato (oitenta e oito), é o principal responsável pela sequência de resultados positivos que valem a liderança no campeonato à 6.ª jornada. Rui Vitória tem sido bem mais que um pintor de paredes, mas uma equipa completa de construção civil – do engenheiro ao servente –, capaz de manter de pé uma casa a necessitar de remendos urgentes, com bons alicerces, é certo, mas ainda de paredes tortas e telhado a descoberto. Perante as dificuldades, Rui Vitória tem encontrado soluções, algumas delas bem originais, engenhosas e corajosas, sem nunca abdicar, todavia, do registo elevado que o caracteriza como treinador e como homem.

Os encarnados têm resistido com sucesso à onda de lesões do plantel Fonte: SL Benfica
Os encarnados têm resistido com sucesso à onda de lesões do plantel
Fonte: SL Benfica

A sua gestão passa por unir o plantel, dar-lhe moderadas doses de tranquilidade e confiança, capacitá-lo de todas as dificuldades, e, muito mais importante, consciencializar todo o grupo daquilo que, neste momento, ela pode verdadeiramente ser – o suficiente que tem de ser –, sem falsas pretensões, usando e abusando do pragmatismo com que se fazem (e mantêm) os campeões. O edifício tem fissuras, mas antes de concluída a requalificação, antes do “onze” ideal surgir à tona, é indispensável vê-lo suportar mais uma ou outra sacudidela – Rui Vitória trabalha nisso, sem lamentos, com eficácia, aguardando pacientemente pelas ferramentas indispensáveis que permitirão a qualidade da habitação.

O Benfica chega ao lugar que lhe pertence, numa fase algo surpreendente, não só pelo flagelo das lesões (que, semanalmente, afasta do jogo parte significativa da equipa titula), mas também pelo fulgor patenteado pelo seu principal concorrente – comprovado, sobretudo, no jogo de Madrid. Como tal, a naturalidade da ocorrência – feita tanto de mérito próprio, como de demérito alheio (e não é esta a fórmula habitual?) –, permite-nos, por esta altura, reforçar a confiança num novo desfecho positivo. A toada denota assertividade; e a margem para fazer mais e melhor é praticamente uma certeza, embora, por agora, seja impossível de calcular – a recuperação de jogadores como Jonas, Jardel, Samaris ou Raúl Jiéenez, bem como a evolução física e táctica de outros, permitirá, certamente, alavancar o nível exibicional da equipa, garantindo as condições necessárias para alcançar os objectivos desta temporada.

João Amaral Santos

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