A meio da conferência de imprensa de rescaldo da vitória do Benfica sobre o Estrela da Amadora por 4-0, ouviu-se um alarme. José Mourinho levantou-se e, perante o que apelidou de “Pânico no Estádio da Luz”, preparou-se para evacuar o espaço. Na verdade, o som parou logo de seguida e o técnico retomou as explicações sobre o jogo. O incêndio era, afinal, um falso alarme.
Este momento define grande parte da temporada do Benfica. O mês de janeiro foi duro para as águias, que tombaram com um estrondo com a derrota contra o Braga na Taça da Liga e que foram eliminadas da Taça de Portugal. A continuidade na Champions League vai ser decidida contra o papão Real Madrid e nem uma vitória garante que as águias continuarão na prova milionária. No campeonato, e numa altura em que o FC Porto ainda não entrou em campo, são sete pontos de diferença para os dragões. Vencendo esta noite, voltam aos 10. Os alarmes de incêndio tocaram. Há fumo suficiente para um estado de alerta relativo. Importa ao Benfica, num momento em que todos os objetivos parecem distantes, evitar que a casa comece a arder.
Nas últimas semanas, houve passos dados nesse sentido. A conjugação de jogadores mais associativos no ataque trouxe a melhor exibição da época numa primeira parte de grande nível em Vila do Conde. Contra o Estrela da Amadora, o nível não foi tão elevado, mas houve pontos positivos e a sensação de que o caminho começou a ser trilhado.


Com José Mourinho, o crescimento do Benfica deu-se com os cinco médios face às ausências por lesão no ataque e ao protagonismo que Gianluca Prestianni e Andreas Schjelderup não reclamaram. Com o mercado aberto, a continuidade da dupla no plantel é uma incógnita, mas a capacidade associativa dos dois jogadores permitiu às águias maior capacidade de se imporem no meio-campo adversário.
Contra o Estrela da Amadora, o norueguês começou no banco e foi Sidny Cabral quem alinhou de início a partir do corredor esquerdo. Desde cedo que se percebeu que os extremos encarnados trariam complicações ao jogo do emblema da Reboleira, que procurava marcar os médios ao homem. Com acompanhamentos individuais, havia espaço por fora das marcações para se jogar e, quando Gianluca Prestianni o percebeu, o Benfica foi ganhando sequência. Mesmo com Ianis Stoica a baixar para a linha de cinco, para permitir um acompanhamento mais longo ao extremo encarnado, as águias começarão a descobrir espaços dentro do bloco.
A Gianluca Prestianni ainda falta acerto na decisão e uma maior noção dos momentos do jogo, sabendo quando acelerar, quando travar, quando procurar o 1X1 ou quando passar. Ainda assim, é com o argentino em campo que o Benfica mais consegue gerar situações de perigo para a linha defensiva.


Quanto a Sidny Cabral, fez um jogo com alto impacto ofensivo. Não sendo um jogador tão criativo em espaços curtos, é um elemento com alta precisão técnica nas ações. Assistiu, marcou, ganhou um penálti e deu energia ao jogo encarnado. Tem uma batida na bola invejável e uma ambidestria pouco vista. Sendo certo que não é um jogador polido, tem características para se desenvolver e, até pela polivalência, ser importante para as águias. Nas bolas paradas acrescenta muito.
Com os extremos envolvidos, o Benfica tem também maior capacidade de gerar associações por dentro. Sudakov e Pavlidis ainda se estão a conhecer futebolisticamente, mas vão dando mais sinais de mutualidade nas ações por dentro. Ambos têm, como definição, procurar baixar e tocar na bola. Conseguindo fazê-lo em consonância, o Benfica ganhará muita capacidade de jogar por dentro. O ucraniano fez um jogo de momentos. O desafio passa por ganhar a consistência nas ações que o grego já tem. Mais do que o que produziu, os elogios ao grego passam pelos golos, desta feita. Era importante, depois do lance contra o FC Porto e da escorregadela em Turim, que o avançado voltasse a sorrir.
Entre os destaques mais ou menos soltos, Fredrik Aursnes voltou a fazer um jogo perfeitinho no meio-campo. Não tem muito risco nas ações com bola, uma característica importante numa equipa que, de tempos a tempos, demonstra uma atração estranha pelo caos. Na primeira parte esteve mais móvel, com Enzo Barrenechea ao lado, e chegou à área um par de vezes para finalizar ou cruzar. Na segunda parte, com Barreiro à sua frente (um dos melhores jogos do luxemburguês pelas águias), foi mais pendular no seu jogo. O norueguês é um facilitador de jogo e é sob esse prisma que deve ser analisado.


Rafa Silva foi muito mais aplaudido que assobiado na Luz no primeiro aparecimento depois do regresso. A partir de agora, apenas se passará a julgar o jogador, mais do que o modelo do negócio. Aí, há mais-valias claras e limitações evidentes. Como em qualquer outro nome, por certo. O avançado traz consigo capacidade de romper, de acelerar e de causar estragos em campo aberto. Não é, naturalmente, o jogador mais criativo perante blocos baixos e compactos. No regresso aos relvados após três meses de ausência, teve alguns lampejos do que pode oferecer.
Por fim, houve espaço à aposta nos jovens. Dos sub-17, nenhum clube tem tanta matéria-prima como o Benfica. Fora destes, há na formação encarnada nomes interessantes que merecem aposta. Numa época que, sem estar perdida, está muito complicada, pode haver espaço para montar alicerces para o futuro.
Daniel Banjaqui é um dos mais interessantes projetos de laterais que apareceram no Benfica nos últimos anos. A capacidade de condução, de chegada à frente e de transporte são mais-valias ao seu jogo. Também consegue definir perto da área e procurar o cruzamento e o passe atrasado. A rotatividade com Dedic é positiva para o jovem, tal como à esquerda, se espera que José Neto possa ir rodando com José Neto. O momento do cruzamento para o golo de Anísio Cabral, em estreia absoluta, e no simbólico minuto 84, é para emoldurar. O avançado fez os primeiros minutos pela equipa principal do Benfica e, no primeiro toque na bola, marcou. Numa altura de mercado em que se fala de um perfil mais físico para o jogo do Benfica, há que olhar para o que há por casa.


É certo que é na vertente física que residem as maiores dúvidas relativamente à transição para o futebol sénior. Com os meninos da sua idade, Anísio Cabral apresenta argumentos físicos claros, ganhando duelos e atacando espaços nas costas da linha defensiva. Não será tão dominante contra os mais velhos, mas, não ficando atrás, tem condições para se impor. Ganhou nos últimos tempos muita capacidade associativa, para vir atrás e tocar na bola, e na área tem instinto na procura do golo. Pode agarrar o espaço como terceiro avançado do plantel que Henrique Araújo não conseguiu.
Por fim, Diogo Prioste somou minutos importantes e fez o primeiro jogo pela equipa principal com José Mourinho. Até pela idade – “já” tem 21 anos – é natural que não seja dos jogadores mais badalados do Seixal e da equipa B, mas pode vir a ter mais importância. Está no perfil de Aursnes no meio-campo no sentido de ser um facilitador do jogo coletivo, mas as pequenas diferenças para com o norueguês podem ser importantes. Não tem tanta chegada nem capacidade de deslocamento, mas oferece mais pensamento ao jogo do Benfica. Quando privado de Enzo Barrenechea e Manu Silva, é Diogo Prioste o médio – de duplo pivô – que mais pergaminhos tem com bola.
O Benfica estará sempre próximo do pânico quando não estiver na luta por títulos e quando não os ganhar. Isso é evidente e, provavelmente, necessário. Mesmo assim, havendo um projeto e um caminho pensado e projetado para o futuro, o “Pânico no Estádio da Luz” poderá ser evitado. Mesmo que se confirmem os prognósticos mais cruéis na Primeira Liga e na Champions League, trilhar o futuro será sempre um aproximar do Benfica do sucesso. Resta saber qual o caminho que José Mourinho escolherá para as águias dentro de campo e como será feita a aposta na formação que vai chegando no Benfica. É diferente valorizar para apostar ou valorizar para ganhar uns quantos milhões de euros.


BnR na Conferência de Imprensa
Bola na Rede: Já destacou as mudanças no trio da frente, o meio-campo também teve duas estreias absolutas. No papel do treinador e depois de uma semana em que chegou muita gente nova, qual a maior dificuldade na construção de sinergias no jogo do Estrela da Amadora?
João Nuno: A principal dificuldade é o tempo de trabalho, o treino, a ligação entre eles. O Jovane, o Marcus, o Kikas estavam a jogar juntos há vários jogos na frente e conhecem os movimentos uns dos outros. Temos vários jogadores a entrar e vai ser preciso tempo e trabalho no meio da competição. São as condicionantes do nosso projeto e eram propostas que não dá para recusar. Foram duas das maiores vendas do clube e o Kikas também não havia como. Temos de seguir caminho. Vai chegar mais um ou outro jogador. Queremos que chegue rápido o final do mercado para trabalharmos a equipa e fazer uma grande segunda volta. Tenho a certeza disso.
Bola na Rede: Com o Estrela da Amadora a pressionar os médios HxH, qual a importância dos movimentos do Prestianni e do Sidny Cabral nas costas dos médios para receber e permitir chegar com perigo ao ataque.
José Mourinho: Foi importante. Repare, aos cinco minutos mais ou menos, há um duelo individual com um agarrão ao Sudakov pelo número 6 [Kevin Jansson], o reforço. Está tipificado nas indicações da UEFA na Champions e nas reuniões que nós temos que, seja no meio-campo adversário, seja no nosso meio-campo, que é cartão amarelo. O jogador um bocadinho mais tarde tem outro lance em que leva, de facto, o cartão amarelo e que podia ser o segundo. A partir desse lance, em que tem amarelo, começámos a acumular mais jogadores por dentro e as coisas começaram a ser difíceis. No início do jogo, o Prestianni estava muito aberto e o Sidny também, o Enzo é um jogador muito mais posicional que o Barreiro. Praticamente só o Sudakov jogava naquela zona. Com a entrada do Barreiro em campo, começa a jogar vertical com o Aursnes em vez de jogar na horizontal. Naquela zona começa a jogar Prestianni, começa a jogar Sidny, começa a jogar Sudakov. Acho que é por aí a nossa avalanche de jogo na segunda parte.

