Quem és tu, Eusébio?

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Quem foi Eusébio? Eu sei, e o meu caro leitor também saberá, mas será que os miúdos sabem? Não falo dos jovens da formação. Esses respiram Benfica 24 horas por dia, sabem quem está na estátua à porta do estádio e o seu valor. Mas as contratações, sobretudo de jovens estrangeiros. Saberá Talisca quem foi realmente Eusébio, em toda a sua dimensão? Quem diz Talisca diz Carcela, Mitroglou ou Raúl Jiménez. Para uns este pormenor de história clubística pode ser um detalhe, para mim deveria ser requisito de entrada.

Eusébio foi um futebolista português, um dos maiores de todos os tempos. Foi o craque, o King. Foi a pérola do Benfica e a jóia da selecção nacional. Venceu duas botas de ouro. Marcou uma geração, marcou um país. Mais, era um símbolo de um regime, quando lá fora éramos conhecidos pelo país dos três F’s (fado, futebol e Fátima). Os nossos jogadores da formação ainda o sabem. Provavelmente não tão bem como a geração que viu jogar Eusébio, mas sabem-no. Porque mesmo não sabendo tão bem quanto os que o viram jogar sabem que ele foi um marco na viragem da página do futebol português. E, atenção, não são só os jovens encarnados que o sabem. Eusébio é matéria interclubista, ele era demasiado grande para ser só do Benfica… E agora, passados poucos dias de ter feito dois anos que ele partiu, vemos jogadores a colocarem nas redes sociais fotos de Eusébio, jogadores recém-chegados. Enquanto outros nem tentam disfarçar. A minha pergunta é simples: será que eles sabem quem foi realmente Eusébio?

Os adeptos gritam por ele todos os jogos; Fonte: Facebook do Sport Lisboa e Benfica
Os adeptos gritam por ele todos os jogos
Fonte: Facebook do Sport Lisboa e Benfica

Para mim isto é importante e deveria ser pergunta de exame para qualquer jogador que assine pelo Benfica, fosse ele o Messi ou o Ronaldo. Eles tinham que saber quem foi Eusébio e a sua importância para a história do Benfica e do futebol português. Há jogadores que quando chegam se esforçam, é verdade. Samaris é um bom exemplo disso: nem há um ano cá estava e já o via a falar um português limpo e sem grandes engasgos. Acredito que ele saiba quem foi Eusébio, acredito que esta entrega profissional não seja unicamente na fala, mas também na história do clube.

Um jogador que não sabe quem foi Eusébio é também um jogador que não saberá a importância de um clássico ou de um dérbi. É um jogador que não sabe que aqueles jogos com Porto e Sporting valerão muito mais que três pontos para o ego de qualquer adepto. É um jogador que não sabe o peso do emblema que carrega ao peito. É um jogador que está ali para jogar e que não sente o cântico dos No Name a meio do jogo: “Tu és o nosso Rei, Eusébio”. Eu gosto de ganhar, mas não gosto de jogar com peões, com mercenários. Não gosto de que haja ditos cujos a vestir o manto encarnado sem saberem o que está por detrás de cada estrela, o que simboliza a roda da bicicleta e quem é Eusébio, em toda a sua dimensão e em todo o seu esplendor.

Em 2014, no início do ano, estava no Estádio da Luz a partilhar com milhares de pessoas a dor por ver o King partir. Nesse dia choveu. Choveu imenso. O céu chorou lágrimas que muitos hoje não entendem e se não entendem o nosso património, se não entendem a alma imaterial de quem dedicou a sua vida ao futebol, como poderão entregar-se com dignidade, amor, raça e paixão ao jogo, enquanto envergam a camisola do Benfica?

Tomás Gomes
Tomás Gomes
O Tomás é sócio do Benfica desde os dois meses. Amante do desporto rei, o seu passatempo favorito é passar os domingos a beber imperial e a comer tremoços com o rabo enterrado no sofá enquanto vê Premier League.                                                                                                                                                 O Tomás escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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