Publicidade

Realismo benfiquista

João Amaral Santos · 3 min

Vê mais Bola na Rede no teu Discover Seguir no Google

sl benfica cabeçalho 1

Ao recordar Cândido, de Voltaire, o leitor comum recordar-se-á, no imediato, de Pangloss, doutor e mestre da figura central, que baseava os seus conhecimentos e ensinamentos num optimismo intangível; esse optimismo, inspirado em Leibniz e defendido por convicção profunda, sobrevive, ainda hoje, à própria obra, dado o carácter cómico, por vezes ridículo, como os factos do mundo, vividos ingenuamente pela maioria dos personagens, facilmente (e estrondosamente) o vão gradualmente desconstruindo ao longo da narrativa. Por outro lado, o leitor comum não se recordará, com a mesma facilidade, de Martin (ou Martinho, nalgumas edições portuguesas mais abusivas), o sempre fiel companheiro de viagem de Cândido, bem menos ingénuo, pessimista perante a fealdade das coisas, ou melhor, para concluir mais assertivamente, plenamente realista na abordagem daquilo que o destino reservou para si.

Eu sou Martin; partilho o seu traço pessoal. Quando insistem (os fazedores de opinião, que lemos e ouvimos diariamente) que o Benfica está melhor do que há um ano, que está em primeiro, que tem mais nove pontos e uma vantagem confortável em relação aos rivais, recordo sempre, caro leitor, que isso do melhor dos mundos é coisa que nunca existiu (tal como Voltaire já explicara); que o Benfica, apenas para igualar o patamar de há um ano, para voltar a ser campeão, tem ainda muito por fazer, muito por sofrer, e qualquer abordagem menos realista do que esta, que vise algum género de excesso de optimismo – normalmente traduzido em arrogância –, resultará, certamente, numa rápida e natural reversão do actual momento, com influência decisiva no desfecho final – neste caso, a narrativa manteria, do meu ponto de vista, o carácter ridículo, embora perdesse todo o efeito cómico.

No campeonato anterior, por esta altura, já o Benfica havia visitado o FC Porto e o europeu Arouca; e já tinha recebido o Sporting. Consegue recordar-se, caro leitor, destes três jogos? Consegue fazer um balanço dos três? Refresco-lhe, então, a memória: três jogos; três derrotas; zero pontos somados; zero golos marcados e cinco sofridos. Ou seja, os nove pontos que o Benfica tem a mais, comparativamente com igual período da época anterior, decorridas que estão apenas nove jornadas, foram conquistados diante de adversários que o Benfica, na época passada, também venceu – equipas que, embora mereçam todo o meu respeito, nos são, tal como os resultados consecutivos o comprovam, teoricamente mais acessíveis; daquelas que, para ser campeão, o Benfica costuma ultrapassar.

Até ao final desta 1.ª volta, o Benfica recebe o Sporting; e visita FC Porto e (o putativo europeu) V. Guimarães. Estes são, para breve, os pontos mais “quentes” de uma caminhada ainda no seu início. Somente neste patamar de maior exigência – o tal onde o Benfica, em igual período da época anterior, foi inepto, não pontuando, nem sequer marcando –, após cumprido este ciclo, será possível aferir mais correctamente da melhoria de performance, convertida em pontos (que, em confronto directo, valem a dobrar), e que se viu precocemente anunciada pelos diversos especialistas.

A maratona é longa. A meta está longe – os adeptos são fundamentais Fonte: SL Benfica
A maratona é longa. A meta está longe – os adeptos são fundamentais
Fonte: SL Benfica

Seria, isso sim, mais sensato afirmar que já próximo de cumprido o primeiro terço da prova, o Benfica demonstrou, a exemplo do seu passado recente, enorme competência, capacidade de trabalho e de sacrifício, o que permitiu à equipa contornar as dificuldades normais, acentuadas, para mais, pelas inúmeras ausências de jogadores fulcrais devido a lesão. Um percurso praticamente imaculado, dentro e fora de portas, feito com humildade e trabalho, e que valeu, até ao momento, apenas um valioso ponto extra no campeonato, contabilizando a vitória em Arouca e o empate caseiro com o V. Setúbal (mais um que em 2015/2016) – a maior fatia de mérito, essa, vai direitinha para Rui Vitória, líder de homens e atletas, capaz de elevar e manter os altos indicies de qualidade dentro de campo, pese a difícil gestão de recursos à sua disposição.

Porém, será já no próximo domingo, e apenas a partir daí, no Estádio do Dragão, frente ao FC Porto, que o Benfica terá a primeira oportunidade para confirmar a diferença para os outros; a oportunidade para justificar a sua liderança e confirmar, na prática, ser melhor que os rivais e o principal candidato ao título de campeão (o quarto consecutivo). Sem excessos de confiança; com recurso à indispensável e habitual dose de realismo e competência.

Foto de capa: SL Benfica 

Texto revisto por: Carlos Valente

João Amaral Santos

Redação Bola na Rede · ver artigos