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Chega de Vieira

João Marecos · 3 min

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Sou sócio do Sport Lisboa e Benfica há 25 anos e nunca tinha visto o meu clube ganhar tantos jogos e títulos como na ultima década.

Ainda assim, há anos que a felicidade de cada vitória combate em mim a vergonha que sinto com cada novo e-mail divulgado, com cada transferência mal explicada de jogadores, com cada golpe democrático para afastar a oposição, com cada intervenção de quem representa o clube em debates de televisão.

Uma das muitas patranhas mal contadas foi a da OPA para recompra de ações do clube. Inútil do ponto de vista estratégico, mal justificada, financeiramente desastrada, esta OPA Vieirista pretendia comprar por 5€ ações que não valiam nem metade. Contaram-se umas lérias sobre recompensar os sócios que ajudaram o clube, mas a verdade é que a operação continuava a ser tão inesperada quanto ridícula.

Este fim de semana, o Expresso noticia que o maior acionista do Benfica tem negócios de milhões com Vieira, alguns tendo a filha do presidente como testa de ferro; acionista esse que comprou as ações a um euro e que as tinha vendido agora a cinco, não fosse a imprensa dar com a boca no trombone e a CMVM estar a arrastar os pés.

De repente, está explicada a OPA: dar dinheiro do Benfica ao sócio do Vieira. Tirar do clube para dar ao amigo. Amizades à Sócrates. “Eu nem ia vender”, diz o amigo do Vieira, já com a colher na boca. Se precisamos de melhor exemplo de que a raposa está na capoeira, não vamos ter.

Mas a banda parece que vai seguir, com mais uns benfiquistas alerta, mas com a maioria ainda bem alegre. “Em equipa que ganha, não se mexe”. “Ah mas os outros também fazem”. “E o apito dourado”. Uma conversa cobarde, um relativismo moral que envergonha.

Ontem, o Marega foi vítima de cânticos racistas. Um estádio a imitar um macaco para afetar um jogador negro. Clássico. Nem percebo o que há de “alegado” aqui.

Diz o Benfica: é racismo. Diz o comentador do Benfica no Correio da Manhã: não é racismo. Sei bem que o Ventura não falou enquanto comentador do Benfica. Mas se ele usa o Benfica para fazer política e o clube não se importa, será descabido rever na sua política o Benfica?

André Ventura é comentador representante do SL Benfica e líder do partido “Chega”
Fonte: CHEGA

Há uns meses umas quantas celebridades pediram ao Benfica que se demarcasse de Ventura, assentes nesta mesma premissa. Nada. Numa era onde tweets com dez anos justificam (exageradas) demarcações claras e tomadas públicas de posição, o meu Benfica continua a ser representado na TV pelo líder da extrema-direita, mesmo quando ele defende o contrário do que o clube diz. Está tudo bem. Liberdade de expressão, sim; coerência, não.

Eu não peço ao Vieira que demarque o Benfica do Ventura, como não peço que se demarque dos e-mails, das dúvidas quanto a comissões e valores de transferências, dos padres, das OPAs para os amigos. Para mais aldrabice, o saco está cheio.

Eu peço é ao Benfica que se demarque de Vieira. Uma instituição com a relevância, a história, a importância no espaço da lusofonia, tem de colocar a sua ética e os seus valores à frente dos resultados. O símbolo vem primeiro. O clube vem primeiro. Os resultados serão o reflexo dessa identidade, do trabalhar bem, com profissionais.

Gosto muito do Benfica e cresci a vê-lo perder, com Machairidis, e Escalonas e Rojas, eliminatórias suadinhas com o Halmstads e o Molde, humilhação em Vigo. Não sou do Benfica por causa dos resultados. Quero ganhar sempre, mas se não ganhar sempre continuo a ser do Benfica. Não tenho medo nenhum de perder campeonatos. Tenho é medo de fazer parte de um clube cujos sócios elegem, continuamente, alguém que põe os negócios pessoais à frente do clube, consistentemente, descaradamente.

Por mim, chega.

Foto de Capa: SL Benfica

Artigo revisto por Joana Mendes

João Marecos

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