Trubin, Schjelderup e Pavlidis, os pastorinhos do milagre no Estádio da Luz | Benfica

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Entidade divina, mera obra do destino, coincidências ou o alinhamento de Vénus com Plutão. Cada um atribuirá a algo ou alguém diferente a responsabilidade pela operacionalização dos milagres e do que parece sobrenatural. Foi, precisamente, uma obra miraculosa o que se passou no Estádio da Luz e permitiu ao Benfica não só vergar o Real Madrid na Champions League, como também garantir, no roteiro mais inacreditável possível, a qualificação para os playoffs.

É comum, em conversas com amigos, a criação de cenários imaginários relacionados ao desporto mais bonito. “Puto, imagina que a tua equipa estava com zero pontos a meio do percurso na Champions League, de algum modo conseguia uma réstia de esperança no apuramento. Para isso, é preciso vencer o clube que mais troféus já levantou e esperar que os outros jogos ajudem. Aos 90 minutos, todos os outros jogos estão a acabar e reparas que falta um golo para seres feliz, mesmo estando a vencer por 3-2. O teu guarda-redes, que perdia tempo há uns segundos, sobe para a área e, no último lance do jogo, marca o golo do apuramento em casa, perante os próprios adeptos”. Pois, foi isso que aconteceu. Os deuses do futebol estiveram do lado de Benfica.

Anatoliy Trubin Benfica Jogadores
Fonte: Carlos Silva / Bola na Rede

O Estádio da Luz foi o palco do milagre da temporada futebolística. Muito, muito dificilmente haverá algo capaz de superar as emoções que, um pouco por todo o lado, vieram à tona com o golo de Anatoliy Trubin. Como qualquer milagre, há representantes vivos que o testemunharam. Mais que ninguém, Trubin, Schjelderup e Pavlidis foram os pastorinhos do Milagre da Luz.

O momento de Anatoliy Trubin é difícil de descrever em palavras. Há um cruzamento perfeito de Fredrik Aursnes, um momento engraçado na área, com o gigante ucraniano a usar Leandro Barreiro para voar mais alto, e uma decisão delicada do Real Madrid que proporcionou o contexto certo para a história acontecer. Os merengues já tinham dois expulsos e, pensando numa transição que possibilitaria o empate, deixaram Vinícius Júnior e Kylian Mbappé bem longe da área e Brahim Díaz numa barreira – essa sim – algo displicente. Estava feito um 5X9, com vantagem para o Benfica na área e o resto aconteceu.

Se muitos atribuíram à escorregadela do guerreiro grego Pavlidis em Turim a metáfora perfeita para a temporada atribulada do Benfica, o cabeceamento do “grandão” ucraniano Trubin representa tudo o que é a esperança futebolística. Antes do jogo, o Benfica apresentava o jogo com um novo desafio para o Robin Hood perante um dos parentes mais ricos e hegemónicos do futebol europeu. Tal aconteceu e foi Anatoliy Trubin o primeiro pastorinho que o tornou possível.

Anatoliy Trubin Benfica Real Madrid Jogadores
Fonte: Carlos Silva / Bola na Rede

O segundo terminou o jogo a ser eleito o melhor em campo. Nada da trajetória de Andreas Schjelderup no Benfica tem tanta beleza como os meses de janeiro. Em 2025, quando se falava na iminente transferência, o norueguês foi o obreiro da conquista da Taça da Liga. Um ano volvido, e com uma mudança para o Club Brugge a ser dada como iminente, o norueguês volta a ser decisivo com uma exibição tremenda perante o Real Madrid.

Os dois golos foram a coroação de um jogo com o que Andreas Schjelderup de melhor tem para oferecer. Está, nesta fase em que conseguiu maior regularidade na equipa, a conseguir conjugar o lado associativo e combinativo com um maior atrevimento e risco perto da baliza. Foi fundamental a explorar o lado mais fraco do Real Madrid (que tinha em Valverde um lateral direito que procurava juntar-se por dentro) e a criar situações de perigo. O lance do seu segundo golo apresenta um jogador com mais confiança. José Mourinho procurou o controlo no Benfica com cinco médios e com o norueguês também o tem. A diferença é que, além do controlo, ganha uma capacidade de rasgo ainda algo inibida em Schjelderup. Só tem 21 anos e foi o segundo pastorinho e, momentos históricos à parte, o principal.

Andreas Schjelderup Benfica
Fonte: Carlos Silva / Bola na Rede

Vangelis Pavlidis viveu um jogo algo incaracterístico. Tem sido, a grande distância, o principal destaque da temporada do Benfica. Além da eficácia com que tem convertido situações de golo, é também quem oleia toda a manobra ofensiva encarnada. Curiosamente, contra o Real Madrid, nem viveu a sua melhor exibição. Mesmo assim, foi chave nos principais momentos encarnados no jogo.

Não foi a exibição mais contundente do grego na área encarnada. Ainda assim, saiu de campo com um golo e duas assistências, a primeira das quais após uma bela jogada. No cômputo geral, o golo de penálti foi fundamental para o apuramento das águias. Carregar um fardo de uma eliminação por um golo com a escorregadela de Turim na mente era demasiado pesado para a brutalidade da temporada de Vangelis Pavlidis. Foi ele o terceiro pastorinho obreiro de uma noite mágica.

Vangelis Pavlidis Benfica 2
Fonte: Carlos Silva / Bola na Rede

Além dos três jogadores decisivos, foi uma exibição de muita responsabilidade e capacidade do Benfica. Conseguiu tirar conforto ao Real Madrid, subindo jogadores na pressão, com Sudakov a juntar-se a Pavlidis no condicionamento dos centrais e com o extremo do lado contrário da bola a fechar dentro a possibilidade do terceiro médio merengue ficar livre. Também aí se destacou Schjelderup e o companheiro Prestianni.

Mais atrás, foi um dos maiores desafios que a linha defensiva do Benfica tinha. Kylian Mbappé é um dos avançados mais difíceis de marcar e o Real Madrid cria condições para o francês se movimentar livremente pela frente de ataque, com constantes compensações e permutas posicionais. Marcou dois golos aparecendo livre em zonas chave (segundo poste e chegada à área), e trouxe problemas aos encarnados. Ainda assim, a exibição dos centrais encarnados, particularmente Tomás Araújo, permitiu conter a dois momentos isolados o impacto de Mbappé e de todo o ataque merengue.

Tomás Araújo Benfica Jude Bellingham Real Madrid
Fonte: Carlos Silva / Bola na Rede

Também foi uma exibição ao melhor nível de Samuel Dahl. Com Álvaro Carreras, o seu antecessor, do lado contrário, fez uma exibição ao nível do melhor que se viu o espanhol fazer pela Luz. Defensivamente, controlou Mastantuono e somou vários desarmes importantes. Tal como com Schjelderup, tinha também o corredor muitas vezes livre e conseguiu chegadas com perigo e envolvimentos interessantes. Exibição de peso do sueco – Dedic esteve um pouco mais apagado, mas também superior a Vinícius Júnior – a afastar alguns dos fantasmas. Também era pesado ficar com a recordação do erro contra o Bayer Leverkusen na memória.

O meio-campo voltou a funcionar. É curioso como, pensando em complementos, do ponto de vista teórico Enzo Barrenechea e Richard Ríos funcionam como a dupla que conjuga a capacidade no passe e a chegada à frente. Ainda assim, a atração do argentino pela variação de jogo e a versão algo anárquica do colombiano apresentam desafios para um clube que se procura dominador. Não são uma má dupla, mas o risco que acrescentam ao jogo do Benfica, muitas vezes não compensam o benefício das ações perante blocos mais baixos ou defesas mais fechadas. Neste contexto, a dupla de Aursnes e Barreiro vem atrelada num livro de regras.

Fredrik Aursnes Franco Mastantuono Benfica Real Madrid
Fonte: Carlos Silva / Bola na Rede

A versão de Aursnes como médio é a melhor que se viu do norueguês nos últimos tempos. Sem grandes alaridos ou highlights, joga simples, estabiliza a equipa e acrescenta segurança a uma equipa que passou a conseguir viver da posse. A bola não queima nos pés do norueguês. Leandro Barreiro é um jogador que não se define pela posição. Na verdade, o que faz a 8 fazia também quando jogava a 10. Volta a ser importante trazer o contexto acima. Numa equipa como o Benfica, a 8 tem maior amplitude no seu jogo, com chegadas de trás para a frente em contextos mais propícios a ter sucesso do que a 10, onde as chegadas estão encapsuladas em espaços mais curtos. Sem bola, garantem mais coberturas, maior altura na pressão e mais capacidade de voltar para trás.

Por fim, na lista de testemunhas na primeira fila do milagre no Estádio da Luz, há muito mérito no jogo de Gianluca Prestianni e de Georgiy Sudakov. Se o jogo terminasse imediatamente antes do primeiro golo do Real Madrid, o argentino era o melhor em campo. Encarou Álvaro Carreras, não se menorizou pelo palco e pela importância do jogo, e apareceu na sua versão diabólica. Começando da direita, soube também encontrar espaços por dentro para jogar – vai crescendo a olhos vistos neste papel de intérprete dos melhores terrenos para receber, virar-se e visar a baliza. Thibaut Courtois, uma brutalidade de guarda-redes, negou-lhe um golaço marcado… à esquerda.

Gianluca Prestianni Benfica
Fonte: Carlos Silva / Bola na Rede

Há ainda um jogo impactante de Sudakov. Num Benfica mais associativo, o ucraniano será sempre importante como elo de ligação e gestão de ataques. Soube procurar jogar fora do espaço de Tchouámeni, deu constantemente andamento ao jogo das águias e não se inibiu de ter influência. No meio, ganha mais possibilidades de associação e maior envolvimento no jogo encarnado. Sem bola, também fez uma exibição de sacrifício e de compreensão do papel tático. É o nome que mais pode marcar a diferença na segunda volta do Benfica.

A José Mourinho volta a estar associada uma grande noite europeia. O treinador do Benfica tem mérito na preparação estratégica de um jogo que, o próprio confessou, gostaria de ter planeado de forma diferente. O milagre no Estádio da Luz ditou que um plano B, tivesse nota A. Há noites históricas e há noites épicas. 28 de janeiro de 2026 foi um pouco das duas.

José Mourinho Benfica
Fonte: Carlos Silva / Bola na Rede

BnR na Conferência de Imprensa

Bola na Rede: Antes do jogo, tinha dito que queria que o Sudakov pressionasse um dos centrais adversários. Vimos isso acontecer e, inevitavelmente, para a manta chegar a um lado vai destapar outro lado com o Benfica a ficar numa hipotética situação de inferioridade numérica no meio-campo. Para evitar esta inferioridade, qual a importância do extremo do lado contrário à bola vir defender por dentro?

José Mourinho: Já respondeste. Já respondeste com a pergunta que fizeste. A pergunta é tão completa que já respondeste. Nós não temos referências ao homem, defendemos zonal. Quando salta um médio como o Sudakov a pressionar, os alas têm de fechar dentro. Quando a bola circula por um lado, o ala do lado contrário fecha o espaço interior. É assim que estamos a trabalhar, que os jogadores estão a interpretar. Foi o que viste, por isso a pergunta já tem praticamente a resposta.

Diogo Ribeiro
Diogo Ribeirohttp://www.bolanarede.pt
O Diogo tem formação em Ciências da Comunicação, Jornalismo e 4-4-2 losango. Acredita que nem tudo gira à volta do futebol, mas que o mundo fica muito mais bonito quando a bola começa a girar.

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