«Tu és o nosso Rei, Eusébio. Descansa eternamente»

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Os “Rapazes Sem Nome” saíram à rua para um último tributo em morte, depois de muitos em vida. Com eles saiu tal cântico. Das suas bocas. Projectado entre punhos desvairados, cachecóis encarnados em reboliço e bandeiras de face voltada a um vento que soprava com uma alegre tristeza. Saíram também os adeptos. Os sócios. Os doentes. Os loucos. Uns velhos. Outros novos. Uns ricos. Outros pobres. De encarnado. De verde. E de azul. Uns de sorriso amarelo nos lábios. Outros de lágrimas logo enxutas e ainda por derramar. Percebeu-se que era a sério quando alguns as derramaram.

Percebeu-se que não havia volta a dar quando a voz do Malheiro ficou ainda mais grave. Percebeu-se que era tarde demais quando o próprio Toni não o desmentiu. Percebeu-se que já não havia nada a perceber quando o próprio Benfica o anunciou, começando os preparativos e abrindo as portas para o seu povo – que ontem e hoje foi o povo português, e até o povo mundial.

Perder Eusébio foi como perder parte de Portugal Fonte: sapo.pt
Perder Eusébio foi como perder parte de Portugal
Fonte: SAPO

Ainda agora parece mentira, enquanto a chuva vai batendo lá fora. Tudo tão rápido, tudo a querer fugir-nos por entre as mãos, da mesma forma que a vida lhe fugiu por entre um sorriso malandro e de orelha a orelha – assim gosto de imaginar, para que não doa tanto. Mas terá doído? O que resta de sofrimento quando o Deus de que falamos viveu tudo o que havia para viver? Tendo-o feito, ainda para mais, como as crianças o fazem: da forma mais verdadeira, pura, simples e alegre que lhe(s) é possível. Assim foi. Assim está. Assim nos despedimos, ontem e hoje, da figura que marcou o desporto nacional. E os nossos corações.

Lembrar Eusébio é lembrar muito mais do que um jogador da bola. Percebo isso, finalmente. Eu, que amo celebrar o futebol, mas que odeio tudo o que se vive fora de campo. Hoje percebo. Percebo que levar pela mão este homem até à sua última morada é quase tão magnífico, único e necessário como levar o nosso filho ao seu primeiro jogo num estádio. É a celebração de uma vida. O celebrar da nossa vivência térrea. O “obrigado” a tudo o que é do coração e que o coração nos faz ver e viver com olhos turvos de tantas que são as lágrimas que os invadem. Parar uma cidade só para dizer adeus foi pouco. Dever-se-ia ter parado o mundo. País a país, cidade a cidade, casa a casa. Porquê? Porque morreu o último símbolo que era na realidade…um homem real.

Eusébio da Silva Ferreira representa o meu pai – ainda que este malandro que tanto amo seja lagarto. A minha mãe – com menos bigode, felizmente. O meu querido avô materno – que não procurou sucesso no futebol, mas na tipografia. E mesmo a minha  avó materna – ainda que esta não consiga chutar uma bola nem para salvar a própria vida. Porque Eusébio foi e é igual a eles. Um dos que se levantou todos os dias às sete da matina para passar o dia a treinar. Sem promessas de futuro. Sem poder descansar. Sem poder acreditar que a sua vida profissional poder-se-ia estender a algo mais do que Portugal. E depois de volta a casa. Dia após dia, após dia. Tudo isto com o acréscimo de ter deixado para trás o seu continente, o seu país e a sua família porque alguém lhe disse que ele haveria de vingar…em Portugal…e a jogar à bola. Não bastava portanto a este imigrante preto ter vindo para um país fascista que explorava colónias africanas – ou os pretos que lá viviam –, como teve ainda de acreditar irremediavelmente e com todo o seu coração que seria o antigamente-mal-pago-futebol o responsável por uma vida melhor. Por uma vida digna. Quantos de nós passamos ou passámos por isto? Acima de tudo: quantos de nós triunfaríamos nestas condições? Quantos abraçaríamos, com qualidade, honestidade e orgulho em todas as nossas acções, o selo de “Self-Made Man”?

Ele fê-lo. E fê-lo marcando uma geração. E a geração seguinte. E a depois dessa. E as que hão-de vir, acredito. O que o torna no Deus nacional e no Rei do Benfica foi acreditar. Somente acreditar. Acreditar como já há muitos anos não se acredita em coisa nenhuma ou em coisa qualquer neste País. Neste Mundo. E é acreditando que não se desiste. Eusébio foi o último de nós que, cheio de alegria, conquistou a sua e a de todos. Conquistou também uma Taça dos Campeões Europeus, onze Campeonatos Nacionais e cinco Taças de Portugal – tudo com a águia ao peito. Por ele, ela há-de voar novamente neste Domingo que se avizinha. Já ele, deu hoje a última volta ao estádio ao qual chamava “casa”. Nós? Nós despedimo-nos durante mais de 24 incessantes horas. Ao frio e à chuva. De noite, madrugada, manhã e tarde. Mas não custou. Não custou porque não foi propriamente uma despedida. É que os grandes nunca partem. E mesmo quando o fazem, fazem-no com uma jovialidade e elegância tais, que nós, meros mortais, pintamos durante o resto das nossas vidas os nossos sonhos com aquelas que foram as suas lutas e consequentes conquistas. Porque não há nada mais tocante e importante do que um ser humano que move multidões. Agora imaginem que esse ser humano “só” jogava à bola.

Agora vai lá descansar, Rei…se bem que eu acredito que sejas o único homem que até desse lado não vai desistir de viver. E de encantar, claro.

Em post-scriptum deixo um obrigado emocionado a todos os sportinguistas e portistas que souberam solene e dignamente honrar a memória de um benfiquista de clube, mas português de coração. Agradeço ainda e especialmente a Bruno de Carvalho, pela presença no momento fúnebre, e a Pinto da Costa, pela mensagem sincera que publicou no site oficial do FC Porto.

Tiago Martins
Tiago Martins
O Tiago tem uma doença incurável que o afeta desde o momento em que nasceu: a paixão pelo Benfica. Gosta de ver bom futebol, mas a sua maior alegria é comer um coirato à porta do Estádio da Luz.                                                                                                                                                 O Tiago não escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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