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João Amaral Santos · 2 min

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A definição da mesma palavra, o seu significado prático, independentemente do conteúdo descritivo previsto no dicionário, pode ser totalmente distinta tendo em conta o contexto social e cultural da sua aplicação – a prática fixa o significado real e, por vezes, uma reduzida distância geográfica é bastante para destrinçar grandes diferenças. As massas aceitam, de bom grado, essa definição, inconscientemente influenciadas, tanto pelo hábito de a ouvirem, da sua utilização corrente e generalizada, como pela visibilidade e notoriedade de quem a sistematicamente repete.

Para os benfiquistas, por exemplo, a definição futebolística da palavra “suplente” alterou-se radicalmente. Hoje em dia, ser “suplente” do Benfica – tal como “português” ou “jovem” ou “Éder” – é cabalmente diferente do que era há pouco mais de um ano: a sua abrangência aumentou; o seu conteúdo segregador e depreciativo perdeu-se. O jogador, possuindo as competências necessárias, demonstrando-as no campo, em treino e competição, pode sempre sonhar, nesta vida e não noutra, pode sempre tornar-se protagonista.

É algo facilmente verificável pela mão cheia de factos e feitos recentes, recordados, certamente sem esforço, pelas boas memórias (ou será antes pelas memórias de boa-fé?). Muitos daqueles que, anteriormente, sobreviviam no plantel, acossados por um estigma subtractivo, desvalorizados e passivos, já conquistaram o estatuto que as suas qualidades autorizaram; converteram-se mesmo indispensáveis na senda pelos objectivos colectivos.

Fonte: SL Benfica
Fonte: SL Benfica

Esta é a parte visível e prática do discurso de Rui Vitória, homem competente e inteligente (perto da relva e do microfone), capaz de abdicar, logo à partida e em definitivo, de (pre)conceitos antiquados e impróprios – deixou cair o perpetuamente injusto “eu” e introduziu o “nós”, tornando-o na base dum léxico colectivo. Quando alguém questiona a razão de se pagar 22 milhões por um “suplente”, esse alguém – que fala outra língua – falha o alvo; a pergunta, no preciso momento em que atravessa a estrada, perde por completo o seu sentido.

No Benfica, um “suplente” não é, necessariamente, somente um “suplente” – e para que se perceba melhor: porque pode, simplesmente, ser “titular”, amanhã ou depois. Porém, se realmente estiver, de momento, a “suplente”, convém que, ao entrar em campo, deixando de o ser na extensão primária do termo, acrescente algo, ao invés de subtrair, marcando, por exemplo, alguns golos decisivos, na Liga dos Campeões ou no campeonato – como, de resto, foi conseguido pelo avançado “suplente” Raul Jimenez, o que justifica, plena e conscientemente, o investimento agora em si efectuado. Para responder à tal pergunta, disponibilizando-me, com todo o prazer, para servir de intérprete, diria que neste Benfica um “suplente” pode ser comprado por 22 milhões porque, na verdade, um “suplente” neste Benfica pode valer aquilo que o seu trabalho definir (e, quem sabe, até ser vendido por 25).

Na génese deste texto, esteve o desafio de um colega do Bola na Rede para que opinasse sobre quem deveria ser titular no Benfica, neste início de época, nomeadamente, em algumas posições onde parecem existir ainda algumas incertezas. André Almeida ou Nelson Semedo? Grimaldo ou Eliseu? Sinceramente, por mim, tanto faz. No Benfica, vejo um plantel disponível, comprometido e competente, onde cada elemento é uma verdadeira opção – e não só virtual. Joga quem estiver melhor. O que importa, no final, é a vitória no jogo e na competição.

Foto de capa: SL Benfica

João Amaral Santos

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