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A falta de competitividade do Futebol Português – Verdade ou Grande ‘Treta’?

Tiago Ferreira · 6 min

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A falta de competitividade – Grande ‘treta’!

Sei que muitos dos que leram este título irão eventualmente criar em si mesmos a ideia de que esta questão nem se põe. Ainda assim espero que prossigam a leitura para que possam interiorizar que talvez o nosso futebol seja um pouco mais interessante e competitivo do que, à primeira vista, possa parecer. Afinal o nosso futebol deve ser defendido. Mas não “desalmadamente”.

Pois bem: o nosso futebol é competitivo? “NÃO!” – Responderá cerca de 95% dos leitores.

E eu contraponho: “SIM, é!” Mas vale-me de pouco, porque a ideia está pré-concebida nas mentes da grande fação de adeptos nacionais. Muito por culpa dos programas televisivos, em que todos tocam o mesmo harmónico, numa melodia harmoniosa para os ouvidos dos adeptos dos três grandes, mas completamente fora de tom para os restantes.

Então que campeonatos são competitivos? “O Espanhol, o Italiano, o Alemão, o Francês e claro, o Inglês.” – dirá a maioria.

Deixando de lado o Inglês, que aquilo é um mundo à parte, servido em fatias douradas de bolos de transmissões televisivas (só para começar pelo pequeno almoço), vejamos os melhores campeonatos da Europa, “e mais competitivos”. Ou talvez não…

Campeonato Espanhol – Aquilo é que é futebol competitivo. Ora ganha o Barcelona, ora o Real Madrid. Uma vez por outra ganha o Atlético de Madrid.

Últimas 10 épocas: Sete títulos para o Barcelona, dois para o Real e um para o Atlético. Mais: 1.º e 2.º lugar ocupados, na mesma época, pelos dois grandes rivais: somente sete (!) vezes em 10. Muito equilibrado, sem dúvida.

Diferença da última época do 1.º para o 4.º? 20 pontos. Do 4.º para o último? 53 pontos.

O Barcelona tem dominado o Futebol Espanhol na última década
Fonte: FC Barcelona

Campeonato Italiano – Grande equilíbrio: Juventus, Juventus, Juventus, Juventus, (digam-no sete vezes). Depois contem um título para o Milan (onde andas tu?) e depois cinco consecutivos do Inter de Milão.

Diferença da última época do 1.º para o 4.º? 23 pontos. Do 4.º para o último? 51.

Campeonato Alemão – Acho que não há mais competitivo que este. Chega-se à época da neve e já não era preciso o crónico campeão jogar mais enquanto o frio não passasse, que o titulo ia para Munique na mesma.

Últimas 10 épocas: Sete campeonatos para o Bayern de Munique, dois para o Borussia de Dortmund e um para Wolsburgo. Desde 98/99, se não me enganei a contar, são 20 épocas e 14 títulos para os bávaros!

Diferença da última época do 1.º para o 4.º? 29 pontos – isto porque o Bayern costuma tirar o pé do acelerador depois de estar cumprida metade da volta à pista, tanta é a distância que ganha logo no arranque. Do 4.º para o último? 33 pontos (aqui há um “maior” equilíbrio).

Nos últimos anos o campeonato alemão tem dado sono, no que à luta pelo título diz respeito
Fonte: Bayern FC

Campeonato Francês – Para quem quiser dedicar-se ao estudo dos primórdios do nosso futebol (sim, o início do século parece que foi há 200 anos), podemos verificar que existiram vários diferentes campeões: Nantes, Lyon, Bordéus, Marselha, Lille, Montpelier (alguém se lembrava?), PSG e Mónaco. Ainda assim, em 18 campeonatos, sete consecutivos para o Lyon e quatro para o PSG, mais um no ano passado para os Parisienses. Mas daqui a mais cinco anos poderíamos rever esta tabela e, provavelmente teríamos nove títulos nos últimos dez para os milionários de Paris e um para o “nosso” Mónaco (milagroso Jardim).

Diferença da última época do 1.º para o 4.º? 16 pontos. Do 4.º para o último? 51 pontos.

Poderíamos ainda viajar até à Holanda, onde ganham, por norma, PSV ou Ajax (de vez em quando o Feyenoord molha a sopa), para a Turquia onde são também três os dominadores dos últimos anos (Besiktas, Galatasaray e Fenerbahçe) ou até à Grécia onde temos 12 (!!!) títulos do Olympiacos, um do Pana e um do AEK (ano passado) nas últimas 14 épocas.

Na Grécia praticamente só tem existido um campeão
Fonte: Olympiacos FC

A estatística nacional – Diferença da última época do 1.º (Porto) para o 4.º classificado (Braga)? 13 pontos (só a Ligue 1 se aproxima). Do 4.º para o último? 45 (só a Alemanha tem menor diferença, de entre os casos apresentados).

Isto tudo para dizer o quê? Que não me parece que haja maior competitividade nos outros campeonatos europeus que no nosso tão (pouco) amado campeonato. E se tirarmos os três grandes e verificarmos a distância, ano após ano, do 1.º dos últimos para o lanterna vermelha, veremos que essa é normalmente inferior aos demais campeonatos.

Alguém acha que não é competitividade ao mais alto nível vermos uma equipa como o Vitória SC ir ao dragão e ganhar, dando 3-0 em 45 minutos? Alguém reparou nas variadas vezes em que os grandes são dominados nos jogos fora? O Belenenses Futebol Sad recuperou de 0-2 para 2-2 frente ao Porto. Terá sido sorte? O Moreirense FC dominou o Sporting durante boa parte do jogo. O CD Santa Clara, recém promovido, recuperou de 3-0 para 3-3 em 45 minutos ante um Braga que se quer campeão.

Algum adepto de um grande, que seja minimamente racional, pode dar a certeza que nas suas visitas à Madeira, Vila do Conde, Braga, Guimarães, ao Bessa, entre outros, a vitória desse seu amado clube é garantida?

Portanto, treta é estar sempre a desvalorizar o Campeonato Nacional que só não é competitivo nas polémicas e nas influências: aí os três grandes goleiam semanalmente.

Competitividade? Competitividade uma ova!

Uma seca de campeonato. Qual dos dois grandes, sim porque o outro ganha década em quando. (Será campeão?) A pergunta, época após época, é sempre a mesma.

Os outros? Esses que se limitem às migalhas. O pão vai todo para aqueles três clubes que fazem mover isto tudo, que têm orçamentos altíssimos e que fazem o que querem dos mais pequenos do nosso futebol que, “coitados”, têm orçamentos de cêntimos.

Seja dentro ou fora do campo, o domínio é avassalador. Emprestam jogadores como quem dá esmola, sendo muitas vezes essas as estrelas desses mesmos clubes. Criticam os árbitros que esporadicamente se enganam em favor dos clubes “mais pequenos”, criando um clima de suspeição e de pressão inadmissíveis no nosso futebol que deveria envergonhar aqueles que tão mais ricos são.

Uma decisão errada que prejudique um dos grandes e o caldo entorna-se ainda mais
Fonte: SC Portimonense

Competitividade? Onde? Nas TV’s nacionais em que se passam horas e horas a fio, diariamente, a debater os três grandes, com notícias repetidas de manhã, à tarde, à noite, hoje, amanhã e depois?

Competitividade? Onde? Nas páginas de jornais desportivos que dedicam uma grande parte das suas letras a tudo o que toca os grandes e meia folha, ou menos que isso, para cada um dos outros clubes?

Não há competitividade nenhuma. Os pequenos, coitados, de grandes só têm os autocarros que levam para a frente das defesas quando vão à Luz, ao Dragão ou a Alvalade. E se vão jogar de olhos nos olhos, o mais certo é levarem quatro ou cinco (basta ver, por exemplo, o GD Chaves este ano, ou o “europeu”‘ Rio Ave FC no Dragão e na Luz o ano passado).

O GD Chaves foi dizimado no dragão, logo no arranque do Campeonato
Fonte: FC Porto

Os grandes em casa quase não perdem. No ano passado, FC Porto e Sporting CP não perderam entre muros. O Porto aliás teve um empate (com o Benfica) e 16 (!) vitórias. Até o 4.º classificado (SC Braga) teve só um empate (1-1 Boavista FC) e duas derrotas (com dois dos grandes), em casa. Houve equipas que fora apenas ganharam uma vez e fizeram menos de 10 pontos.

Se formos aos dados de há dois anos, vemos que o Porto não perdeu em casa nos dois últimos campeonatos. Que o Benfica, tirando a derrota do ano passado com o Porto, teve, em casa, uma derrota em dois anos. Que o Sporting perdeu duas vezes. Tudo isto em 34 jogos.

A competitividade em Portugal é tanta que nem à fase de grupos os “para além dos grandes” conseguem chegar. Ou se lá chegam diz-se que fazem boas campanhas quando fazem quatro ou cinco pontos. Qualquer equipa russa, holandesa, austríaca, belga, ou cipriota, entre outras, é uma carga de trabalhos. Que medo que temos de longas viagens. Que falta de maturidade competitiva. Que falta de assumir a qualidade que, ainda assim e por vezes, se demonstra entre portas. Ridículo!

Pois só posso mesmo concluir uma coisa: Competitividade? Competitividade uma ova!!!

Foto de Capa: Vitória SC

Tiago Ferreira

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