Dar um passo atrás para… deitar tudo a perder

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Caminhamos a passo largo para o final da época desportiva 2017/2018 e a principal novidade para o quadro competitivo da próxima época é, sem dúvida, a criação da liga sub-23 que pretende vir a substituir as atuais equipas B que atuam na Segunda Liga.

Esta medida na minha opinião é um claro passo no sentido errado e sinto-me bastante surpreendido com a grande adesão que a mesma tem tido dentro do futebol português. Será que os dirigentes portugueses já se esqueceram de como tudo era antes da adição das equipas B à Segunda Liga? Não havia a esperança de ter uma grande renovação de talentos na nossa seleção nacional. A nossa equipa sub-21, o último patamar antes da equipa A, era muito fraca e falhava constantemente a qualificação para o Europeu Sub-21.

Desde a implementação das equipas B na Segunda Liga a nossa seleção nacional já foi campeã europeia e a nossa seleção nacional sub-21 qualificou-se para dois campeonatos da Europa, sendo que num deles foi finalista. Toda gente parecia reconhecer a importância que a implantação das equipas B teve nesta mudança positiva no paradigma do futebol português. Talentos como Bernardo Silva, Renato Sanches, João Mário, Gelson Martins, André Silva e Nélson Semedo nunca teriam aparecido ou ganho a competitividade que ganharam sem as equipas B. A verdade é esta, a Segunda Liga é uma excelente realidade competitiva para os jovens portugueses crescerem como jogadores e ao mesmo tempo adquirirem novas capacidades competitivas ao nível sénior profissional.

Bernardo Silva e André Gomes são dois dos grandes talentos oriundos das equipas B Fonte: SL Benfica

E é exatamente neste ponto que para mim está a grande mudança, que o novo campeonato de sub-23 não será capaz de implementar: a competitividade.

Se num plano etário as coisas se mantêm praticamente iguais, as equipas B, de um modo geral, só usam jogadores jovens, e com raras exceções, o plano competitivo será drasticamente diferente. Os nossos jovens jogadores deixaram de jogar numa liga taticamente dura e cheia de jogadores experientes para passarem a jogarem numa liga com apenas jogadores de idades similares e onde o espaço de crescimento será muito menor. Outro ponto preocupante que eu gostaria de apontar nesta discussão é o facto de estarmos a “copiar” um sistema que é usado em Itália e em Inglaterra. Sim, a Itália e a Inglaterra, que têm tido problemas com a renovação geracional da sua seleção principal, são modelos a seguir pela nossa Federação? Onde está o sentido disto? Vamos mudar para pior porquê? Apenas pelo aspeto financeiro?

O fosso competitivo entre a Segunda Liga e a nova Liga sub-23 é por demais evidente e por esta altura já deveria ter sido alvo de discussão por parte da FPF junto dos clubes, mas o mal já está feito. A FPF e a Liga deixaram esta competição crescer e hoje já temos vários clubes comprometidos. Quem sofre é o futebol português e a nossa seleção nacional.

Não tenho dúvidas que estamos a dar um passo atrás para não dar mais nenhum à frente e os efeitos desta decisão irão começar a fazer-se sentir dentro de alguns anos, quando já não tivermos a mesma capacidade de renovação geracional nos sub-21 e na equipa A. Resta-me desejar que pelo menos o Benfica continue com a sua equipa B, e que a FPF e a Liga permitam que o clube encarnado mantenha a sua equipa secundária na Segunda Liga, se assim o entender.

Seria para mim bem mais importante falar-se numa atualização dos moldes em que as equipas B operam na Segunda Liga do que propriamente passarmos de imediato para a sua extinção.

Há coisas inexplicáveis no futebol português, e esta para mim é uma delas. Nunca irei perceber sequer a necessidade de se ter feito uma discussão à volta das equipas B, quando esta era apontada por todos como uma grande medida. Uma pena.

Foto de capa: SC Braga

Rui Pedro Cipriano
Rui Pedro Ciprianohttp://www.bolanarede.pt
Nascido e criado no interior, na Covilhã, é estudante de Ciências da Comunicação, na Universidade da Beira Interior. É apaixonado pelo futebol, principalmente pelas ligas mais desconhecidas, onde ainda perdura a sua essência e paixão.                                                                                                                                                 O Rui escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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