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Homero Calderón Gazui cruzou, literalmente, um oceano para realizar o seu sonho de ser jogador de futebol. Nascido na Venezuela e com 24 anos, Homero já passou pelo futebol venezuelano, cipriota e português. Falámos de futebol e revimos a carreira de um dos talentos sul-americanos que o nosso futebol possui.
Bola na Rede [BNR:] Estreou-se no Atlético Venezuela e rapidamente deu o salto para a Europa. Porque é que rumou ao futebol do Chipre?
Homero Calderón [HC]: Foi uma oportunidade. Eu joguei na Venezuela com (Héctor) “el Turbo” González e ele jogou muitos anos no Chipre. Aquele que era o seu representante lá era também o presidente do clube que me comprou (Doxa Katokopias). Durante uma conversa entre ambos González disse que havia um jogador venezuelano com 20 anos que era um bom jogador. Ele viu os vídeos e contratou-me. Eu fui com quatro ou cinco outros companheiros.
BNR: E como é o futebol lá?
HC: O futebol lá é muito bom. Não se compara ao futebol português ou espanhol, mas é Europa. Há um bom nível, equipas como o APOEL, Omonia ou Apollon, que são equipas que jogam na Champions ou na Liga Europa, equipas competitivas que investem dinheiro suficiente em jogadores. Foi uma experiência muito boa.
BNR: Terminada a sua aventura no Chipre, voltou à Venezuela e chegou a trabalhar com Rafael Dudamel no Deportivo Lara. Depois do segundo lugar que ele conseguiu no Mundial sub-20, como avalia o trabalho que ele fez no futebol venezuelano?
HC: Nos primeiros seis meses eu estive com o Rafael (Dudamel). De lá, ele foi para a seleção sub-20 e depois foi para a seleção A. Eu acho que o Rafael é um treinador muito comprometido com os jovens, dando-lhes muitas oportunidades, e isso tem sido demonstrado nas equipas onde ele já trabalhou. Ele esteve no Deportivo Lara dois ou três anos, salvo erro, onde sempre trabalhou com um grupo de jogadores muito jovens que jogavam pouco nos outros clubes. Recuperava-os e conseguia tirar deles todo o seu potencial. Foi desta forma que ele se tornou no que hoje é. Como treinador ele é excelente, faz o jogador trabalhar até ao limite, traz o melhor do jogador para o campo, e acho que o segredo dele é saber como ganhar o grupo.
BNR: Atualmente Dudamel é seleccionador nacional. Como vê o futuro da seleção venezuelana?
HC: Ele conhece muitos jovens, uns jogam na Venezuela e outros no exterior, porque ou passaram pelas equipas menores nacionais com ele ou ele já trabalhou com eles nos clubes. Acho que é uma vantagem importante para a equipa conseguir enfrentar as próximas eliminatórias. É difícil, claro, porque vai competir contra equipas como Brasil, Argentina, Equador, Chile, mas ele já tem pelo menos três pontos ganhos. Ele conhece muito bem esta jovem geração de futebolistas.
BNR: Imagino que sonha jogar na seleção nacional, certo?
HC: Sim, sim, claro. É aquilo com que todo o jogador sonha: representar a equipa do seu país. Sempre com essa ilusão.

BNR: Depois foi contratado pelo Vizela FC, que jogava na Segunda Liga, e nessa temporada a equipa desce. Com que pretensões chegou ao Merelinense FC?
HC: Embora tivesse um contrato de dois anos, rescindi o contrato e fui para Bragança. Em Bragança tive alguns problemas pessoais, não me adaptei à cidade e vim aqui para o Merelinense. O Merelinense é um clube pequeno, mas com muitas aspirações. Eles queriam apostar na subida de divisão e foi por isso que vim para cá. Infelizmente não atingimos a subida, mas tínhamos uma equipa muito boa e lutámos até ao fim.
BNR: Conhece bem o Vizela. Jogou lá e nesta temporada competiu na sua Liga. Parece-lhe o Vizela favorito para ganhar o Campeonato de Portugal?
HC: O Vizela montou uma equipa ideal para lutar por este campeonato. Tem bons jogadores, fisicamente fortes e rápidos, que neste campeonato são muito necessários. Este ano joguei contra o Vizela e sei que é um grande candidato, mas agora são dois jogos, a série deles é contra o Vilafranquense, que é um rival forte. E em dois jogos muitas coisas podem acontecer.
BNR: A um nível puramente futebolístico, o que acha que o futebol português exige de um médio centro?
HC: Penso que, em Portugal, a maioria dos médios da primeira divisão é fisicamente muito forte, mas poucas equipas têm tecnicamente bons jogadores. Existem quatro ou cinco equipas, se calhar, que têm médios centro que, tecnicamente, são muito bons, mas a maioria opta por jogadores que sejam fisicamente mais fortes. Acredito que o futebol português é muito tático e muito físico ao mesmo tempo. Eu, por exemplo, comparo-o muitas vezes com o futebol espanhol e a diferença é muito grande. Qualquer clube de Espanha pode bater o Porto ou o Benfica.

BNR: Portugal é campeão europeu no futebol, a equipa é quarta no ranking da FIFA, as selecções mais jovens costumam destacar-se nos torneios europeus e mundiais. Qual acha que é a razão do fracasso dos clubes portugueses nas competições europeias?
HC: A diferença é muito grande quando se compara as equipas portuguesas com as equipas de fora. Por exemplo, o Porto pode ter (Iker) Casillas, que é um jogador bem conhecido no mundo, mas jogadores desse nível somente consegue ter um ou dois. E quando se joga contra o Liverpool… Eles têm nove ou dez jogadores que estão no topo do mundo. Então pensa-se: qual é a diferença? A diferença é sobretudo o poder económico dos clubes portugueses, que não têm a possibilidade de pagar os salários que os grandes clubes Europeus têm.
BNR: Que diferenças destaca entre o futebol sul-americano e o europeu?
HC: Eu acho que existem muitas. Os relvados, as estruturas, a primazia da tática. Na Europa o jogo é mais tático do que físico. O futebol sul-americano é mais físico. A palavra de ordem é ter garra. E essas são diferenças muito simples mas que influenciam muito o jogo.
BNR: A organização do campeonato neste ano obrigará alguns clubes a não competirem por períodos de tempo muito longos, até ao início da próxima temporada. Como é que o facto de ficar parado três ou quatro meses afecta o jogador?
HC: Eu acredito que cada jogador chega a um ponto em que é responsável. Pode ter dois ou três meses sem treino, mas tem a possibilidade e o dever de treinar sempre por conta própria.
BNR: Mas sem competir?
HC: Bom, eu acho que é muito tempo para se ficar sem atividade, mas, bem, se é assim que o campeonato está montado, não se pode fazer nada.
BNR: O Homero ocupa áreas centrais no terreno de jogo. Em que outras posições atua bem?
HC: Na Venezuela sempre joguei no meio. Eu joguei a 8 ou a 5, e no ano passado em Vizela joguei vários jogos como extremo. O treinador disse-me que eu era um extremo. Desde criança que era um jogador que marcava muitos golos e jogava como segundo avançado. Eu tenho mais características de ataque do que defesa, mas posso jogar em qualquer posição a partir do meio.

BNR: Estamos habituados a idealizar a figura do jogador de futebol e acreditamos que os futebolistas levam uma vida de luxo. Como é realmente o dia-a-dia de um jogador de futebol da 3.ª divisão portuguesa?
HC: A vida do jogador de futebol é, acima de tudo, uma ilusão. Acham que o jogador de futebol está sempre habituado a ganhar bom dinheiro, ter bons carros, bons relógios, bons telefones, mas tudo isso é mentira. Pessoalmente, a situação que se vive na Venezuela é muito difícil. A vida que levo aqui é uma vida normal, sem complicações.
BNR: É inevitável tocar no assunto da Venezuela. Como encara a sua família a realidade que existe no seu país?
HC: A situação na Venezuela é crítica. Eu posso dizer muitas coisas, mas não estou lá. Pelo que a minha família me conta, a realidade é muito má. Graças a Deus, a minha família está a deixar a Venezuela e a ir para os Estados Unidos da América. Mas a família da minha esposa permanece lá. A situação é realmente muito crítica. Muitas vezes não consigo encontrar palavras para explicar o que está a acontecer na Venezuela.
BNR: Eu li numa entrevista sua que tem uma admiração especial por Cristiano Ronaldo. Também é do Real Madrid?
HC: Desde pequeno que gosto do Real Madrid. Mas eu admiro o Cristiano, não por ele marcar 40 golos por ano mas por causa da maneira como ele trabalha. Eu revejo-me muito nele porque as coisas que ele conseguiu foram graças ao seu trabalho, à sua dedicação e ao seu desejo de atingir mais, e é por isso que o vejo como uma referência.
Foto de Capa: Arquivo pessoal de Homero Calderon
Artigo revisto por: Ana Ferreira











