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Formação nos três grandes: três políticas, a mesma visão

Tiago Serrano · 6 min

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Cabeçalho Futebol NacionalNoutros tempos não se podia dizer que um jogador formado no clube tinha qualidade suficiente para integrar o plantel principal. Cresci num tempo em que, apesar de algumas conquistas por parte das nossas selecções jovens, existiam muitos tabus e preconceitos para com os nossos jovens talentos.

A maioria dos clubes que actuavam na Primeira liga, preferiam contratar jogadores já feitos a outros clubes, que pudessem dar experiência de modo a ajudar a equipa a alcançar os seus objectivos.

Tendo os conta que, nesse tempo, os jovens jogadores eram vistos como jogadores de valor duvidoso, os clubes da Primeira Liga preferiam apostar em jogadores que dessem mais garantias em termos de mentalidade e de maturidade, isso fazia com que o futuro de muitos jovens se tornasse numa incógnita. Muitos certamente terão ficado pelo caminho. E outros terão optado por uma carreira profissional desligada do futebol.

No caso dos jovens formados nos três grandes, estes tiveram a equipa B como rampa de lançamento para o futebol sénior na viragem de século (SL Benfica e FC Porto a partir de 1999 e Sporting CP a partir de 2000), e, com estas, os jovens jogadores da cantera poderiam ter mais aspirações para concretizarem o seu sonho de se tornarem profissionais.

Fonte: Football Database
Fonte: Football Database

No entanto, construir uma equipa B era um projecto de risco e que custava muito dinheiro. Primeiro, porque era necessário investir de modo a que os jovens tivessem as condições necessárias para poderem progredir no clube, quer a nível de infraestruturas, quer a nível de formação; e depois, porque se estes não conseguissem dar o passo seguinte na carreira, sendo emprestados a um clube da Primeira Liga e/ou por uma certa quantia de dinheiro, estes acabavam por dar prejuízo ao clube.

Aliado a esse forte investimento a que a manutenção das equipas B é submetida, a mudança de regulamentos da Liga, que ordenava que se um clube da primeira divisão quisesse ter uma equipa B, esta jogaria na terceira divisão, os três grandes acabariam por extinguir as respectivas equipas B ao fim de alguns anos, visto que consideravam que a terceira divisão não tinha o nível de competitividade necessário para um jogador da cantera poder evoluir e ambicionar chegar ao plantel principal.

No entanto, a 27 de Abril de 2012, os regulamentos da Liga de Clubes voltariam a mudar: os seis primeiros classificados do decorrente campeonato teriam uma equipa B a competir na Segunda Liga a partir da época seguinte. Estas medidas acabaram por ser um upgrade às equipas B, pois, para além dos jovens formados nos três grandes voltarem a ter uma rampa de lançamento, estes começariam desde logo a jogar no futebol profissional, de modo a que tivessem o estímulo competitivo necessário para crescer.

O Sporting Clube de Portugal foi o primeiro clube nacional a dedicar-se seriamente na formação dos seus próprios jogadores. Muito antes da implementação das equipas B, o Sporting já era um clube prestigiado na Europa pelos jovens talentos que formou tais como Paulo Futre, Luís Figo, Emílio Peixe, Beto e Simão Sabrosa. Com um Departamento de recrutamento e formação actualmente liderado por Aurélio Pereira, há muito tempo que o Sporting investiu nas infraestruturas e nas filosofias necessárias para formar e lançar jovens na equipa principal.

Nos tempos da primeira equipa B, existente entre 2000 e 2004, houve vários jogadores oriundos da Academia de Alcochete a serem promovidos à equipa principal, tais como Ricardo Quaresma, Hugo Viana e Cristiano Ronaldo. Após a sua extinção, a solução encontrada pelo clube leonino foi o estabelecimento de parcerias com clubes da segunda divisão para ofereceram jogadores por empréstimo, de modo a que os seus jovens atletas pudessem fazer a sua transição até à equipa principal.

Actualmente, o Sporting é uma referência na Europa a nível da formação, sendo que o seu modelo foi seguido por muitos clubes. O clube continua a apostar forte na formação, embora, na equipa B, também doseie essa aposta com a contratação de alguns activos, tais como Ryan Gauld, Pedro Delgado, Gelson Dala e Leonardo Ruiz. A aposta na formação é algo que faz parte do ADN do Sporting Clube de Portugal.

O Futebol Clube do Porto teve uma equipa entre 1999 e 2006. No entanto, o sucesso que o clube obtinha na altura tornava muito difícil a transição de jovens da equipa B. O defesa-central Ricardo Costa foi nesse período o único jogador a agarrar um lugar na equipa principal. Como tal, a equipa B azul e branca servia apenas como suporte para a equipa principal no caso de lesões e castigos, o que raramente acontecia.

Anos mais tarde, o Departamento de scouting do FC Porto criou o projecto “Visão 611”, que consistiu na identificação e recrutamento de jovens jogadores com potencial para integrar a equipa principal. Este projecto acabou por fazer de base na construção de uma nova equipa B que servisse de transição para a equipa principal.

Com isso, a política do clube na formação passa por dosear a aposta em jovens jogadores nacionais de grande potencial com a contratação de jovens jogadores estrangeiros que dessem mais competitividade à equipa, tais como Kayembe, Victor Garcia, Chidozie, Omar Govea e Wanderson Galeno. Com esta política, o FC Porto sagrou-se bicampeão nacional de juniores (2014/2015 e 2015/2016), campeão da Segunda Liga em 2015/2016 e vencedor da Premier League U-23 International Cup em 2016/2017, o que mostra que a equipa azul e branca tem matéria-prima capaz de formar uma equipa forte e competitiva no futuro, apesar das dificuldades financeiras e do insucesso desportivo actual da equipa principal.

O Sport Lisboa e Benfica também criou uma equipa B em 1999, no pior período da história do clube. Com os graves problemas financeiros que o Benfica atravessava nesse tempo, o clube não tinha as condições necessárias para formar e desenvolver os seus jovens jogadores, nem tinha a confiança dos investidores ao ponto de que estes pudessem vir a apoiar um projecto do clube baseado na melhoria das condições das camadas jovens do clube.

Os juniores do Benfica já chegaram duas vezes à final da Youth League Fonte: Sport Lisboa e Benfica - Formação
Os juniores do Benfica já chegaram duas vezes à final da Youth League
Fonte: Sport Lisboa e Benfica – Formação

Com isso, a aposta na juventude nem fazia parte da política do clube e a equipa B servia apenas para auxiliar a equipa principal. Houve apenas dois casos de jogadores formados no clube que pegaram de estaca na equipa principal: o guarda-redes Moreira e o médio Manuel Fernandes, que apesar de não terem confirmado todo o seu potencial, chegaram a ser titulares e campeões nacionais no clube encarnado.

No entanto, após a criação do Caixa de Futebol Campus, e a construção de uma nova equipa B, o Benfica tornou-se nesta década num dos clubes europeus em maior ascensão a nível da formação. Nos dois primeiros anos, a equipa B também teve bastantes jogadores estrangeiros, vários deles resgatados de empréstimos. Mas época após época verifica-se um maior foco da equipa B em promover jogadores com idade de júnior para “queimar etapas”.

Em termos de política na formação, o Benfica é, dos três grandes, o clube que dá menor importância aos resultados colectivos, estabelecendo como prioridade a evolução e motivação dos seus jovens atletas. Com a promoção de jovens da formação à equipa principal, o Benfica já lucrou mais de 200 milhões de euros em vendas.

Há também uma coisa que devo esclarecer: para mim, as equipas B também são consideradas uma etapa de formação, pois serve para que os jovens da cantera tenham o seu primeiro contacto directo com o futebol profissional e tenham aquele estímulo competitivo que lhes permite crescer e evoluir enquanto jogadores. E depois, segundo os regulamentos da UEFA, um jogador formado num clube, tem de cumprir pelo menos três temporadas nesse mesmo clube entre os 15 e os 21 anos (daí haver um Campeonato da Europa de sub-21).

Cada um com a sua política e a sua mentalidade, os três grandes têm dado um contributo importante para que os jovens jogadores portugueses fossem abordados de outra forma. E o futebol português ficou a ganhar.

Foto de Capa: FC Porto

Artigo revisto por: Beatriz Silva

Tiago Serrano

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