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Francisco dos Santos, o primeiro jogador português a ir para o estrangeiro

Inês Figueiredo Mendanha · 3 min

Francisco dos Santos, o primeiro jogador português a ir para o estrangeiro
Foto: SL Benfica

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No longínquo ano de 1907, quis o destino que um jovem português, estudante de Belas-Artes em Roma, ao passear o seu fox terrier no parque dos Gamos, se cruzasse com a equipa de futebol da SS Lazio, que ali se encontrava a treinar. Diz-se que a bola fugiu dos italianos e foi parar aos pés do artista, que a dominou com uma mestria que surpreendeu os romanos. Ninguém diria ser um momento histórico para o futebol português, mas em boa verdade foi: o jovem foi imediatamente convidado para se juntar à equipa, tornando-se assim no primeiro futebolista português a actuar fora do país. Francisco dos Santos, o estudante português e jogador da Lazio por acidente, tem uma daquelas histórias de vida que dava um filme. Mas o filme começa ainda antes.

Nascido a 22 de Outubro de 1878 em Paiões, freguesia de Rio de Mouro, no concelho de Sintra, fica órfão ainda em tenra idade, o que o leva a entrar para a Casa Pia de Lisboa, onde descobre duas paixões: o futebol e a escultura. A instituição permite-lhe potenciar ambas: matriculou-se na Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa e fez parte da equipa que a 22 de Janeiro de 1898 venceu o Carcavelos Clube, à data, a equipa mais forte da capital. Em 1903, ganha uma bolsa de estudo para estagiar em Paris, no ano seguinte, está na origem do Grupo Sport Lisboa (que viria a dar origem ao SL Benfica), envergando a camisola vermelha e branca nesse ano.

Segue depois para Roma, para completar os seus estudos e junta-se à equipa da Lazio, na qual chega a capitão de equipa, graças à sua qualidade e à sua força: num jogo disputado em Pisa, Francisco dos Santos chocou com um adversário, fracturando duas costelas, mas mesmo assim recusou-se a abandonar o campo e terminou o jogo. Era o líder da equipa, o maestro; com ele, a Lazio ganha todos os torneios inter-regionais, que chegavam a ter três jogos por dia, valendo-lhe um elogio no Gazzetta dello Sport, que fez questão de o lembrar como “o mais irrequieto e mexido, um pequeno grande homem de 55 quilos”.

A admiração dos italianos não pára por aqui, já que no livro Storia della Lazio, Francisco é descrito como “o que salta mais alto que todos, é o primeiro a correr, o último a mostrar-se cansado e a render-se…. Um fenómeno…”. No seguimento do primeiro “Derby della Capitale” entre Lazio e Roma (vencido por 5-3 pela equipa do português), a Gazzetta dello Sport escreveu: “Em evidência estiveram o jovem Saraceni e o veterano Dos Santos, que com os seus 55 quilos foi impressionante, dos melhores em campo…”.

Escreveu uma bonita história em Roma, mas após o término da sua bolsa de estudos, volta a Portugal em 1909, para ingressar no Sporting CP e tornar-se escultor por conta própria. Além de ter dividido o campo com nomes maiores nos leões, como Stromp. Na sequência da Implantação da República em 1910, foi o autor do busto oficial da República (actualmente exposto na Câmara Municipal de Lisboa) e ainda ajudou a fundar a Associação de Futebol de Lisboa. Cinco anos mais tarde, juntamente com António Couto, ganha o concurso para esculpir a estátua do Marquês de Pombal; sim, essa estátua que estão a pensar, que repousa numa rotunda, na Praça do Marquês, de onde o Benfica festeja os títulos, tal como Sporting e a Selecção Nacional. Quem diria que uma das estátuas mais emblemáticas da cidade de Lisboa e do mundo do desporto foi um projecto de dois antigos jogadores dos eternos rivais da capital? Francisco veio a falecer inesperadamente em 1930, quatro anos antes da inauguração desta obra tão ligada ao futebol, quanto foi a sua vida.

Para mim, Francisco dos Santos tem uma história bonita. Este baixote de 1.60m, com um bigode farfalhudo bem à Asterix, que derrotou o clube mais forte de Lisboa, ajudou a fundar o SL Benfica, conquistou o futebol italiano, além de ter jogado no Sporting e, quando se julgava que já não tinha mais nada para dar ao futebol, eis que nos surpreendeu uma vez mais, oferecendo-nos o lugar onde muitos dos caminhos futebolísticos de Portugal vão dar: o Marquês de Pombal.

Artigo revisto por Inês Vieira Brandão

Inês Figueiredo Mendanha

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