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Histórias de um mal amado

Júnior Barroso · 5 min

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Cabeçalho Futebol NacionalA história do futebol português conta com um grande número de grandiosos jogadores, treinadores, conquistas e, ainda, histórias que parecem surgir dos contos de fadas. E, por falar em contos de fadas, a vida real é por vezes bem diferente. Nem toda a Cinderela encontra o sapato que perdeu, nem todo o sapo vira príncipe, e muito menos somos Peter Pans e temos todo o tempo do mundo para corrigirmos os nossos defeitos e provarmos o nosso valor. O futebol é a prova viva disso. Muitos treinadores começam da estaca 0 e chegam ao topo através dos resultados, como Jorge Jesus ou José Mourinho; a verdade é que também outros tantos, tanto por serem jogadores como por terem super agentes, começam as suas carreiras ao mais alto nível, como por exemplo Paulo Bento.

Seguindo este pensamento, o mundo do futebol sabe que muitas vezes as conquistas de certos treinadores não dignificam o seu trabalho e a sua qualidade, e que estes muitas vezes se tornam mal amados nos seus países, quer Fernando Santos no pós-Euro’2016, quer o próprio Jorge Jesus após a perda das três competições na fase final de 2013, e muitos outros. E a verdade é que nem todas as deceções têm uma segunda oportunidade; a diferença entre o sucesso e o insucesso está, muitas vezes, presa a meros detalhes.

A história de que irei falar neste artigo é a de um treinador que foi subindo na sua carreira, incutindo todo o seu estudo no seu futebol e todo o seu conhecimento tático nas equipas por onde passou, tornando-se mais tarde um dos melhores treinadores portugueses da sua geração. Enquanto vos conto a história deste mal amado, pretendo que percebam até que ponto mudam meros pormenores e se desvalorizam carreiras.

Como muitos outros grandes treinadores, este de que venho falar começou nas ligas mais baixas do futebol português, na 3.ª Divisão portuguesa. E, na sua estreia como treinador, iria demorar dois anos a conquistar a sua primeira competição, precisamente a 3.ª Divisão, deixando o clube de seguida para o União de Montemor, dois anos mais tarde para o Oriental, e, após três anos no histórico de Lisboa, chega ao Nacional da Madeira. Estranha mudança, certo? Como se muda de um clube de divisões inferiores para o Nacional da Madeira? Pois, bem, estávamos na época de 1999 e o Nacional da Madeira encontrava-se apenas na 2.ª Divisão B. O que é que este treinador conseguiu? Em apenas um ano conseguiu subir à Segunda Liga e, dois anos mais tarde, conseguia chegar à Primeira Liga, de onde, desde então, não viria a sair, tornando inclusive o clube num com algumas participações na Taça UEFA.

Com um futebol vistoso e moderno, semelhante ao que vemos nos dias de hoje, este treinador apresentou sempre equipas ofensivas e com movimentações ofensivas dos seus jogadores, algo que não viria a passar despercebido a Carlos Queirós, após assumir o comando técnico do Real Madrid, escolhendo-o para seu adjunto e fazendo parte da equipa dos galácticos, que, apesar de se encontrar isolada em primeiro lugar, em 2003/04 viria a perder sete dos seus últimos dez jogos, terminando mesmo o campeonato em 4.º lugar. Assim sendo, foi o suficiente para Florentino Pérez despedir a sua equipa técnica. Assim, o treinador de que vos falo hoje tornar-se-ia desempregado.

A boa reputação mantém-se e, no verão seguinte, o Sporting decide contratá-lo. A hegemonia portuguesa pertencia ao Futebol Clube do Porto, aliás, este era o atual campeão português e, mesmo assim, com uma equipa inferior, surpreende na Europa alcançando a final da Taça UEFA, apura-se para a final no Jamor e, juntando a isto, está numa luta até ao final com o Futebol Clube do Porto e o Sport Lisboa e Benfica de Trapattoni, que viria a ser o campeão. Pois, bem, numa semana este Sporting perde tudo, numa situação que se assemelha ao que se viu com Jorge Jesus há três anos atrás. Nesta semana, este treinador passou de bestial a besta; passou de herói a odiado. O futebol era de grande calibre; fica para a história a vitória por 4-1 frente ao Newcastle. A verdade é que este insucesso ficou eternamente marcado na história leonina como uma época negra, mesmo sendo uma das épocas em que o Sporting chegou mais longe em três frentes, em toda a sua história.

Apesar de uma carreira bastante positiva até então, este treinador, cuja identidade muitos já devem ter adivinhado, sofre um duro revés, em que se segue uma época nas Arábias, o Al-Hilal, o Panathinaikos em plena crise desportiva, o Rapid Bucareste (uma aventura que não passou dos quatro meses) e ainda uma uma passagem pela seleção da Arábia Saudita, que apenas conseguiu chegar aos playoff de apuramento para o Mundial’10.

Após seis anos menos bons, dá-se o seu regresso a Portugal, mais precisamente a um Braga que, embora consolidasse cada vez mais o seu estatuto de 4.º grande, fracassava ao nível de títulos, não conseguindo disputar os títulos de igual para igual com os três grandes, algo que viria a mudar em 2012/13 com a conquista da Taça da Liga, vencendo o Benfica e o Porto na meia-final e final respetivamente. Para além disso, conseguiu qualificar-se para a Liga dos Campeões, vencendo a Udinese e terminando no 4.º lugar do campeonato. Apesar de ter feito uma época até certo ponto satisfatória, com um futebol bastante positivo, dada a sua má fama, foi despedido e deixando poucas saudades nos adeptos braguistas, justificadas com a fraca prestação na Fase de Grupos da Liga dos Campeões e pelo facto de ter terminado na 4.ª posição, atrás do Paços de Ferreira de Paulo Fonseca.

Seguem-se duas aventuras, uma nos Emirados e outra no Egipto, mais uma vez sem grande sucesso, algo que se pode justificar com a falta de qualidade de futebol para um treinador com este prestígio, para um treinador da Nova Geração do futebol português, esta que tem como expoente máximo José Mourinho.

Quem vê futebol há algum tempo sabe do seu talento, embora a sua última prestação no Futebol Clube do Porto não tenha sido muito positiva, tendo às suas ordens um clube com escassez ao nível de opções, preso a um sistema que claramente não tinha tido resultado e ficando aquém de uma luta pelo título a dois, entre o Sporting e o Benfica. A sua curta passagem de seis meses não deu para milagres, apesar de ter chegado à final da Taça de Portugal, perdendo o título nos penáltis para o seu anterior clube, o Braga.

Como já devem ter percebido, falo de José Peseiro. Trata-se de um treinador cheio de talento que, por meros pormenores, não tem uma carreira de sucesso; é um treinador que, muitas vezes, não é respeitado face ao futebol que apresenta e mostra o quão importante significa ganhar as finais. A verdade é que as críticas são injustas e, sendo um treinador que começou por baixo, merece os cargos que teve e merecia outro tipo de consideração. Não tenho dúvidas de que esta época no Braga fará uma época bastante satisfatória face às condições apresentadas.

Júnior Barroso

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