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Para analisar de forma coerente este fenómeno, convém percebermos bem sobre o que falamos realmente, os empréstimos. Este tipo de transferência consiste, como o nome indica, num empréstimo de um jogador, normalmente sem custos ou de custo reduzido, por um período mínimo de contrato entre duas janelas de transferências. Mas o que é importante reter é mesmo a função dos empréstimos: quando um clube empresta um jogador, normalmente ele é o elemento prioritário da transferência, pois ela acontece para que este não perca ritmo e evolução quando não tem espaço na equipa, procurando essa progressão e espaço noutro clube temporário.

Fonte: Facebook Oficial de Adelson Monte Alto
Obviamente que os clubes são parte interessada e pretendem sempre sair deste processo com outras mais valias, mas, talvez na maioria dos casos, a prioridade é o jogador. O problema está aqui. Neste momento a prioridade não é o jogador nem o retorno desportivo das equipas, mas sim, quase exclusivamente, o retorno e lucro financeiro dos clubes, criando-se, de certa forma, uma espécie de poder invisível dominado pelos “grandes”.
Atualmente, a política de contratações de Benfica, FC Porto e Sporting – uns mais que outros – passa muito por esta estratégia: comprar autênticos carregamentos de jogadores a clubes mais pequenos da nossa ou de outras ligas, para depois redistribuí-los de novo por equipas quer do nosso campeonato quer de ligas estrangeiras. Se isto lhe parece completamente normal, então acrescentemos outro facto – os jogadores comprados pelos grandes com o objetivo de rodarem num verdadeiro carrossel são, na sua maioria, de qualidade inferior e de preço baixo.

Fonte: Domínio de Bola
Para ilustrar esta afirmação, peguemos em alguns exemplos recentes desta estratégia, nomeadamente por parte do Benfica: durante esta semana, foram noticiadas em órgãos de comunicação social desportivos as contratações de Patrick Vieira, do Marítimo, e de Willyan, do Nacional da Madeira. Enquanto que para o primeiro se adivinha uma transferência a custo zero – devido a final de contrato – para Willyan desconhecem-se os contornos do processo, dado que o brasileiro ainda tinha contrato com o Nacional até 2020.
São duas contratações por parte do Benfica que se podem considerar, no mínimo, improváveis e desnecessárias. Sem querer desvalorizar os dois jogadores, parece-me que, à vista desarmada, estes não mostraram qualidade suficiente para jogar no clube da Luz. E estou certo, porque provavelmente não jogarão: Willyan foi imediatamente emprestado ao Vitória de Setúbal, enquanto que, nas palavras da comunicação social, Patrick deverá ser também “emprestado a outro emblema”. Ou seja, o Benfica serviu quase exclusivamente como um intermediário para a transferência, tendo como único interesse o domínio dos direitos económicos dos jogadores, os quais passa a deter.
Mais estranho ainda – ou não – é a forma como se dão a conhecer estes negócios. Após uma breve pesquisa pelo site oficial e página de Facebook do Benfica, percebe-se que nenhuma destas duas transferências foi comunicada ou anunciada pelos encarnados. Nos dois casos, as transferências foram partilhadas pelos agentes com a comunicação social ou nas redes sociais, num espírito de secretismo preocupante.
Este é, desde já, um dos pontos contraditórios quanto a esta situação. Enquanto que os clubes executantes destas estratégias proclamam que nada de errado existe nestes processos, tudo aquilo que fazem está envolto em nevoeiro, sem transparência e sem qualquer informação dada. Eu próprio, para escrever este artigo, achei enormes dificuldades para encontrar informação clara e oficial, tendo de me reunir com os vários redatores da secção para que pudéssemos, juntos, encontrar dados mais fiáveis.

Fonte: Vitória Futebol Clube
Todo este clima de secretismo é já habitual em alguns aspetos do nosso campeonato, algo lamentável e que não se verifica noutras ligas. Durante a longa pesquisa que efetuei, encontrei algo que seria inédito por cá: o site oficial do Chelsea possui uma página exclusiva com a lista de jogadores emprestados atualizada, juntamente com um pequeno perfil de cada um. A isto, eu chamo profissionalismo e transparência, coisa que pelo nosso campeonato não parece ser muito apreciada.
Se lhe perguntar quem são alguns dos jogadores emprestados pelo seu clube, talvez não conheça grande parte. Sabe quem é Mauro Caballero? E Leonardo Natel? Se perguntar igualmente quantos jogadores estão emprestados pelo seu clube, provavelmente não me sabe responder. Os dados encontrados online são pouco fiáveis e inconsistentes: no Benfica fala-se de 41 jogadores num lado, noutro fala-se de 26; no FC Porto encontramos 32 jogadores emprestados que rapidamente passam a ser 38; no Sporting não se sabe se são 28 ou se 24 jogadores. O que se sabe é que ninguém sabe nada.
No fundo, com pena minha, tudo isto é legal. São estratégias pouco recomendáveis eticamente, mas são legais. O que acontece é que um clube poderoso adquire um jogador mediano a baixo custo ou mesmo a custo zero, muitas vezes para liquidar dívidas antigas. Por este ser mediano, empresta-o. E a partir daqui o clube detentor do passe está no céu: muitas vezes, o recetor paga o ordenado do jogador ou parte dele; se o recetor for estrangeiro, para além de pagar o ordenado, pode por vezes pagar também alguma taxa. Posteriormente, há dois caminhos: o jogador emprestado valoriza e regressa a “casa” ou é vendido, gerando mais-valias; ou o jogador não valoriza, sendo emprestado continuamente até final do contrato, vivendo a sua carreira profissional num autêntico carrossel: transforma-se num mero peão de uma teia de interesses económicos.

Fonte: Twitter Oficial Hadi Sacko
É um jogo sujo, mas é o futebol-negócio. O problema é que mais do que serem métodos reprováveis, são métodos antidesportivos, que podem pôr em causa várias questões. Os grandes clubes passam a exercer uma espécie de poder invisível na nossa Liga, pois são eles que detêm uma fatia dos jogadores que dela fazem parte. E isto tem influência: os jogadores emprestados não podem jogar contra o clube detentor do seu passe, por exemplo. Não custa nada aos nossos “grandes” comprar alguns dos melhores jogadores de equipas mais fracas por uma pechincha, para depois os emprestar e impedir que joguem contra si; se quisermos ir até mais longe, estes negócios, que no fundo se assemelham até a parcerias entre clubes, poderão ter influência no que diz respeito a eleições e votações em Assembleias dos grandes órgãos, nos quais normalmente existem tomadas de posição conjuntas. Não quero, contudo, acreditar neste cenário.
O certo é que tudo isto é real. Faz-me lembrar as negociatas que fazia em miúdo na Liga Master do velhinho PES 2011 da PlayStation 2. Mas, apesar de tudo, acho que os meus negócios eram ainda mais transparentes do que estes que se veem na vida real. E isso, mais do que ser preocupante, é assustador. Tão assustador que, provavelmente, no tempo em que leu este texto mais um jogador assinou por um grande, juntando-se a mais umas dezenas no carrossel dos emprestados.
Foto de Capa: lvaro Isidoro / Global Imagens









