O sumo que a laranja trará

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Nos últimos dias, tem-se ouvido um tumulto tremendo sobre a chegada de Marcel Keizer ao Sporting CP e ao futebol português. Esse tumulto vem acompanhado, na esmagadora maioria das vezes, por argumentos negativos à volta do técnico holandês. Comentadores/analistas desportivos e os próprios “sportinguistas” estão um pouco incrédulos com a escolha do treinador, devido ao facto de ter “pouco currículo e poucos títulos” e de ter sido afastado precocemente do seu único grande feito como treinador principal, que foi orientar o gigante europeu AFC Ajax (que em termos internacionais é um clube muito superior ao Sporting CP, basta recordar que já foram quatro vezes campeões Europeus na sua história).

Este artigo tem como objetivo perceber de que forma os princípios, a “escola” e até a maneira de estar e encarar o futebol de Keizer podem fazer beneficiar o futebol português.

As análises têm sido superficiais e injustas. Quase todos comentam sem conhecimento de causa. Muitos dão uma opinião negativa sobre Keizer, mas, antes de a darem, até dizem que não o conhecem. Só por aqui, não se pode dar muita credibilidade a estas pessoas que se limitam a olhar para o CV e a consultar os números nas bases de dados. Quem acompanha o futebol holandês sabe a mais valia que Keizer pode dar, não só ao Sporting CP, como ao futebol português.

É um treinador que gosta de ter a bola, atacar muito e defender com o bloco muito alto. Não é aquele treinador que prefere vencer por 1-0, prefere ganhar por 5-4, salvo o exagero. A verdade é que, curiosamente, não tenho visto muitas referências a estes números nas análises que têm sido feitas.

A equipa do AFC Ajax de Keizer era avassaladora. Conseguiu ganhar grande parte dos jogos com goleadas, onde destaco uma vitória de 1-4 em casa do rival Feyenoord, ou a vitória mais “gorda” que conseguiu, em casa do NAC Breda, por meros 0-8. Aliás, nos 24 jogos em que Keizer liderou o AFC Ajax, a equipa marcou “só” 66 golos, mas também sofreu 26. Os golos sofridos podiam constituir um problema, mas numa equipa que apresenta a média de golos que apresenta, torna-se um “não-tema”. O afastamento de Keizer deu-se por razões extra-futebol.

O “seu” AFC Ajax deixou um rasto de vítimas tremendo ao longo da sua passagem
Fonte: AFC Ajax

A verdade é que estamos na presença de um treinador que, se conseguir impor os seus ideais e a sua visão para este Sporting CP, os leoninos tornar-se-ão uma das melhores equipas – senão a melhor – a nível de produção e entretenimento. Keizer incute um futebol de risco, vistoso, rápido, com uma mescla de transições rápidas e futebol apoiado, muito bem afinada.

Para além disso, não tem problema nenhum em apostar em talentos acabados de sair da formação e fazê-los evoluir. Gosta de apostar em jogadores que tratam bem a bola, inteligentes, destemidos e que não têm medo de errar. Valoriza os ativos que tem ao seu dispor.

Para além das competências técnico-táticas, Keizer será uma lufada de ar fresco a nível de postura e comunicação no nosso futebol. A sua mentalidade é parecida à da esmagadora maioria dos técnicos holandeses. Ou seja, assume sempre a responsabilidade, não “sacode água do capote”, ao contrário o seu antecessor que usou frases como “alinhei com os suplentes dos suplentes hoje”, ou “não se pode pedir mais a Castaignos, porque não é Montero”. O mesmo é dizer que não usará “bodes expiatórios”, nem desculpas esfarrapadas, como se ouvem em muitas salas de imprensa após os jogos no nosso futebol.

Vamos deixar de ouvir falar em árbitros, vamos deixar de ouvir desculpas como “são demasiados jogos em poucos dias”, etc. Ou seja, até nisso será um “mimo”. Aliás, mesmo na conferência de imprensa de apresentação, Keizer disse que o que tinha visto com o GD Chaves o tinha deixado satisfeito, o que é impossível. É impossível, porque o conceito que tem do futebol é diferente. É ganhar a jogar bem. Ganhar com qualidade, vencer por vencer não chega, futebol é espetáculo.

Justin Kluivert, agora na AS Roma, foi uma das jovens apostas sob o comando de Keizer
Fonte: AFC Ajax

Posto tudo isto, não direi que é melhor ou pior do que os outros, mas sim que é diferente. Ao bom estilo “tuga”, em vez de criticarmos tudo e todos, vendo o que há de negativo para apontar, talvez devêssemos olhar para o que é positivo e o verdadeiro porquê de chegar Keizer e não outro qualquer.

Na verdade, se Keizer tiver êxito poderá, como em todos os casos de sucesso, ser imitado. Pode ser imitado, tanto na forma como encara o jogo, com muita posse, futebol apoiado, várias combinações e bloco sempre muito alto, ao estilo de Guardiola ou do seu mentor Cruijff, como em termos de postura no futebol, com um discurso de líder, onde assume sempre a responsabilidade e não se perde com coisas secundárias, como Peseiro ou Rui Vitória, por exemplo.

O futebol é muito imprevisível e ninguém pode antever o que irá acontecer, mas a contratação de Keizer, com base no valor e ideias que representa, parece-me acertada e que pode acrescentar valor ao futebol português.

 

Foto de Capa: Sporting CP

Artigo revisto por: Rita Asseiceiro

Ruben Brêa Marques
Ruben Brêa Marqueshttp://www.bolanarede.pt
O Rúben é um verdadeiro apaixonado pelo futebol, sem preferência clubística. Adepto do futebol, admira qualquer estratégia ou modelo de jogo. Seja o tiki taka ou o catenaccio, importante é desfrutar e descodificar os momentos do jogo e as ideias dos técnicos. Para ele, futebol é paixão, trabalho, competência, luta, talento, eficácia, etc. Tudo é possível, não existem justos vencedores ou injustos perdedores, e é isto que torna o futebol um desporto tão bonito.                                                                                                                                                 O Rúben escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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