Os Cinco e o campeonato pouco competitivo

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A última vez que o campeonato de Portugal viu um clube fora dos chamados “três grandes” ser campeão foi em 2001, o ano em que eu nasci. Nessa época, o Boavista FC fez uma campanha sensacional, somando 23 vitórias, oito empates e apenas três derrotas, resultando num inédito título de Campeão Nacional para os axadrezados.

É preciso recuar 55 anos para encontrar mais um dito clube “pequeno” a conquistar o campeonato: o CF “Os Belenenses”, em 1946. Quer isto dizer que, ao longo da história do futebol português, houve apenas cinco equipas campeãs nacionais – SL Benfica, FC Porto, Sporting CP, Boavista e Belenenses. Mais do que uma raridade europeia, isto constitui um motivo de preocupação para a qualidade do futebol nacional.

Comecemos por comparar este dado com outras ligas europeias. Em terras de Sua Majestade, já 24 equipas inglesas venceram o campeonato, desde as mais conhecidas, como o Manchester United FC, até às que, atualmente, militam na terceira divisão do país, como o Ipswich Town FC. Aqui ao lado, em Espanha, já nove clubes apresentam nos seus museus taças de campeões, desde Real Madrid CF ao RC Deportivo. Na Alemanha, já 29 (!) equipas arrecadaram o título de campeão, desde o FC Bayern de Munique ao SK Rapid Wien (não esqueçamos que num período negro da História Contemporânea, a Alemanha Nazi anexou a Áustria) . Não é coincidência que estas sejam algumas das ligas que mais clubes emprestam às competições europeias.

Em Portugal, os cinco clubes com títulos de campeão nacional no seu palmarés são a imagem de um campeonato pouco competitivo. O Benfica, com 37 campeonatos, o Porto, com 28 e o Sporting, com 18, têm o hábito de disputar o título entre si, cavando um fosso para outras equipas, que, nos anos mais recentes, se tem esforçado por se aproximar dos três grandes, como SC Braga, Vitória SC ou Rio Ave FC.

Esta hegemonia parece ser encorajada pela Federação Portuguesa de Futebol, como se viu ainda esta semana, numa reunião que decidia o futuro do campeonato em tempos de pandemia, e na qual os presidentes dos clubes grandes foram os únicos ouvidos. A voz dos pequenos não parece importar para uma questão que decide o futuro de todos.

O organismo que tutela o futebol profissional é incapaz de entender que esse centralismo não faz mais do que empobrecer o futebol nacional, como se nota nas paupérrimas prestações europeias dos nossos clubes. É o que acontece quando, num campeonato de 18 equipas, só três lutam pêlo título e cerca de dez têm como único objectivo estabelecido a manutenção na Primeira Liga, encorajando também o domínio dos do costume.

Perde-se muito com a falta de ambição das nossas equipas ditas pequenas. As mesmas equipas de sempre, com jogadores banais e orçamentos relativamente curtos (por comparação com equipas semelhantes de países diferentes), distanciam-se anos-luz das restantes, apresentando um futebol comum que é o suficiente para apenas ganhar. Isto faz com que fiquemos para trás na corrida europeia, algo que nos impede de sonhar com os grandes palcos europeus para além das fases-de-grupo.

Em 2015/2016, o Leicester City FC conquistou a Premier League com estrondo, depois de na época anterior mal ter garantido a manutenção. Por isso é que a Premier League é considerada a melhor liga do mundo e das mais apelativas para os jogadores. Quão bom seria termos uma Liga em que o FC Famalicão podia ser campeão, após esta época extraordinária?

As equipas portuguesas têm feito campanhas terríveis nas competições europeias
Fonte: Carlos Silva/Bola na Rede

Felizmente, nos últimos anos, várias equipas têm-se esforçado por incomodar os que estão sentados no trono. Braga, Vitória, Rio Ave e Moreirense FC vão-se aproximando dos três grandes e pregando-lhe sustos. É um bom começo, mas o ideal é ter uma liga saudável, em que tanto o Benfica, como o Gil Vicente FC ou o CD Santa Clara podem ser campeões. Ficar à sombra da bananeira é que não pode ser.

Artigo revisto. 

Inês Figueiredo Mendanha
Inês Figueiredo Mendanhahttp://www.bolanarede.pt
A Maria é uma orgulhosa barqueirense (e por inerência barcelense ) que aprendeu a gostar de futebol antes de saber andar. Embora seja apologista das peladinhas entre amigos, sai-se melhor deixando o que pensa gravado em papel. Benfiquista de coração e Gilista por devoção é sobretudo apaixonada pelo futebol que faz o país parar quando a bola começa a rolar.                                                                                                                                                 A Maria escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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