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O Espírito da Coisa

André Eusébio · 3 min

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Tudo aquilo que é observado tem tendência para agir de forma diferente. Aprendi esta bela frase numa aula de sociologia, há uns anos. É bem provável que seja das poucas coisas de que ainda me lembro, mas, por algum motivo, ficou. Sempre achei que fazia sentido, que era uma verdade simples e passível de ser comprovada de milhentas formas diferentes.
Mas isto não é o Sociologia na Rede, nem eu teria estaleca para escrever num site dessa envergadura. Assim sendo, vou directo ao assunto.

Futebol feminino vs. Futebol masculino. Ora bem, é certo e sabido que há bastantes diferenças entre um e o outro; e não, não estou só a falar do sexo dos respectivos praticantes. No futebol feminino não há arrancadas à Ronaldo, nem fintas à Messi. O ritmo de jogo é consideravelmente mais lento, o posicionamento táctico deixa bastante a desejar, e a capacidade técnica de algumas jogadoras parece, em certos casos, estar desaparecida em combate. Noutras palavras – o nível de jogo é inferior.

Com esta descrição, parece não haver razões para acompanhar ou sequer assistir a Futebol Feminino, certo? Errado, errado, errado.

http://www.tvi24.iol.pt/multimedia/oratvi/multimedia/imagem/id/13853505/877x658
http://www.tvi24.iol.pt/

Se é certo que, em termos de qualidade de jogo, as raparigas se encontram a anos-luz dos melhores profissionais masculinos, há outros pontos em que as raparigas nos dão uma descomunal e verdadeira coça. Quais? Simples. O espírito da coisa. Parece descabido, mas garanto que não o é. Passo a explicar:

No futebol feminino é raro haver fífias ou fingimentos. Não há milhões envolvidos em transferências galácticas, não há especulações descabidas e inúteis por parte dos media. Não há escândalos de arbitragem ou de resultados combinados, não há escrutínio da vida pessoal de jogadora x ou y. Não há guerras entre claques, birras de jogadoras que querem contratos melhorados ou controvérsias ridículas que enchem páginas nos jornais desportivos. No futebol feminino, pelo menos por cá, aquilo que interessa é o jogo em si mesmo, e pouco mais.

Com isto não quero dizer que esta modalidade seja um oásis isento de corrupção, mediatização e má conduta desportiva. Mas verdade seja dita: já vi jogos da Primeira Liga Portuguesa masculina em que havia mais “meninas” em campo do que em jogos de futebol feminino. Trata-se de desporto no seu sentido mais puro, mais natural, mais … desportivo. Estou ciente da redundância, mas não há melhor adjectivo para o descrever. O grande negócio em que o futebol profissional se transformou faz-nos por vezes esquecer o motivo pelo qual todos nós, homens ou mulheres, começámos a jogar ou a acompanhar futebol. O amor pelo jogo, a paixão pela competição. Aquele sentimento de felicidade instantânea quando a redondinha nos passa pelos pés, o prazer de ver a bola entrar nas redes adversárias, a verdadeira “festa do futebol”.

É com grande pesar que vejo esta “mística amadora”, que acaba por ser a essência de qualquer desporto, a desvanecer-se no futebol profissional masculino. O futebol moderno é mais rápido, mais técnico, mais táctico, mais tecnológico, mais observado e mais discutido. Como tal, manda a regra sociológica que se transforme, que comece a agir de forma diferente da original. No futebol feminino ainda não se deu este salto para a modernidade, o que o torna uma verdadeira lufada de ar fresco para todos aqueles que apreciam o futebol no seu estado mais puro.

Futebol feminino não é melhor nem é pior. É diferente. E, sinceramente, ainda bem.

André Eusébio

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