A estrelinha de Farioli continua a brilhar| FC Porto 1-0 Benfica

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O Estádio do Dragão foi palco de mais um clássico intenso e emocional, daqueles que ficam muito para lá do resultado. FC Porto e Benfica defrontaram-se nos quartos-de-final da Taça de Portugal, com os dragões a vencerem por 1-0 e a garantirem o apuramento para as meias-finais da competição, ficando assim mais perto da tão desejada final no Jamor. 

Podemos dizer que foi um triunfo justo pelo que foi a primeira parte, mas igualmente marcado pela dose habitual de sofrimento que parece acompanhar esta equipa, sempre protegida por uma estrelinha de campeão que insiste em brilhar nos momentos decisivos.

Francesco Farioli FC Porto
Fonte: Diogo Cardoso / Bola na Rede

A grande surpresa da noite começou logo na ficha de jogo da equipa encarnada. José Mourinho apostou em Sidny Cabral no onze inicial, colocado no lado esquerdo do ataque encarnado. Uma escolha inesperada, que causou estranheza nas bancadas e que acabou por não produzir os efeitos desejados. O internacional cabo-verdiano revelou-se presa fácil para a organização defensiva portista, incapaz de causar verdadeiro impacto ofensivo, num Benfica que, sobretudo na primeira parte, nunca conseguiu encontrar-se.

O FC Porto entrou dominante, pressionante, agressivo na recuperação da bola e a empurrar o rival para zonas baixas do terreno. Depois de uma paragem prolongada de mais de 5 minutos depois de um choque aparatoso entre Sidny Cabral e Martim Fernandes (que é a personificação do espírito combativo desta equipa de Francesco Farioli, tendo jogado praticamente ensanguentado durante mais de 70 minutos), o Benfica até pareceu ser a equipa que melhor lidou com essa paragem forçada de jogo. O aviso inicial surgiu aos 10 minutos, num remate de Prestianni por cima, mas a partir daí o jogo tornou-se quase monotemático. 

Muitas imprecisões na saída de bola da equipa encarnada, e o ponta-de-lança Samu Omorodion a começar uma noite inspirada no qual foi dono e senhor de quase todos os duelos e lances divididos com a defesa encarnada, tendo sido uma das grandes figuras do encontro, ligando muitíssimo bem com os seus colegas de equipa, sendo que muitas vezes era Samuiniciava as rápidas transições ofensivas da equipa azul e branca.

Os dragões acumularam três cantos sucessivos, e a sensação que se vivia nas bancadas, era a de que o golo portista seria apenas uma questão de tempo. Aos 16’, na sequência de um canto magistralmente cobrado por Gabri Veiga, Jan Bednarek impôs a sua elevada estatura e deu o melhor seguimento a esse lance, inaugurando o marcador, com um cabeceamento irrepreensível, batendo o desamparado Trubin, que nada pôde fazer para travar a fulgurante cabeçada do internacional polaco. Um golo que premiava a superioridade portista.

Logo depois, Trubin transformou-se na principal razão para o resultado não ganhou outra expressão. Primeiro a negar o golo a Gabri Veiga, depois a Victor Froholdt, numa dupla intervenção que manteve o Benfica vivo numa altura em que a equipa de Mourinho estava claramente abalada emocionalmente. Intranquila, errática e sem capacidade de ligar jogo, a formação encarnada parecia anestesiada pelo impacto do golo sofrido.

Mas se Bednarek foi decisivo no momento ofensivo, a grande figura da noite começou a desenhar-se logo ali, no coração da defesa: Thiago Silva. Aos 41 anos, o central brasileiro parece estar a viver uma segunda juventude, tendo-se estreado da melhor forma com a camisola do FC Porto. Sereno, inteligente, com um sublime sentido posicional, assumiu desde cedo a liderança da linha defensiva, transmitindo uma tranquilidade contagiante aos seus colegas. Não parecia um jogador em estreia, mas sim alguém que sempre ali esteve. Absolutamente imperial.

A juventude de Thiago Silva não está no corpo, está na cabeça, na leitura de jogo, na elegância com que sai a jogar, na forma como antecipa os movimentos adversários. Foi um regresso simbólico à ideia de que a idade é apenas e só um número. Classe não envelhece, apenas se refina.

Até ao intervalo, o FC Porto poderia ter resolvido a eliminatória a seu favor. Borja Sainz obrigou Trubin a mais uma grande defesa aos 36’, Gabri Veiga desperdiçou uma oportunidade clara pouco depois e apenas em cima do apito final o Benfica conseguiu criar verdadeiro perigo, com Leandro Barreiro a obrigar Diogo Costa a uma defesa monumental de recurso com os pés.

Ao intervalo, o 1-0 pecava por escasso. Muito escasso. O Benfica apenas conseguiu ter uma clara oportunidade de golo no último minuto de descontos da primeira parte, com Diogo Costa a fazer uma defesa de elevado grau de dificuldade, respondendo da melhor forma a um remate venenoso de Leandro Barreiro.

Na segunda parte, tudo mudou. O Benfica cresceu, tomou iniciativa, arriscou mais e começou finalmente a acreditar. O FC Porto, pelo contrário, recuou linhas, perdeu agressividade, deixou de pressionar alto e passou a gerir em vez de dominar. Curiosamente, esse retraimento intensificou-se após as entradas de Rodrigo Mora e William Gomes, dois dos jogadores mais criativos do plantel. Em vez de trazerem controlo e critério ao jogo, acabaram por entrar numa equipa que já tinha abdicado de atacar.

Samu continuou a ser um elo fundamental, segurando bolas, ligando jogo e permitindo à equipa respirar, mas foi insuficiente para evitar que o Benfica tomasse conta do encontro.

Samu Aghehowa FC Porto
Fonte: Paulo Ladeira / Bola na Rede

As oportunidades começaram a surgir. Sidny Cabral obrigou Diogo Costa a uma grande defesa, Tomás Araújo esteve perto do empate, e Pavlidis, apesar de nunca ter negado esforços, revelou muitas dificuldades em libertar-se da teia defensiva montada por Thiago Silva e companhia.

E quando o jogo parecia destinado a terminar com o sofrimento habitual mas controlado, surgiu o momento que sintetiza esta já mencionada  “estrelinha” do FC Porto. Já nos descontos, Pavlidis falhou de forma quase inacreditável, com Diogo Costa batido e a baliza à sua mercê, após um excelente cruzamento do extremo norueguês Schjelderup, que entrou bastante bem no encontro que pode ter sido o seu derradeiro ao serviço dos encarnados, uma vez que se fala insistentemente no interesse dos italianos do Parma na sua contratação. Um lance que tinha tudo para levar o jogo ao prolongamento, provavelmente com inteira justiça pelo que o Benfica fizera na segunda parte. 

Um falhanço pouco habitual de um dos jogadores mais importantes deste decrépito Benfica, que tem muita intenção sim, que luta arduamente, mas que não dispõe de um plantel competitivo e quantitativamente suficiente que lhe permita causar estragos evidentes ou fazer mossa às defesas mais competentes e organizadas, como as do FC Porto.

Essa bola de Pavlidis poderia ter mudado o decurso do jogo, mas miraculosamente não foi parar ao fundo da baliza de Diogo Costa. Não entra quando é o FC Porto que está do outro lado. E essa tem sido uma das grandes (senão a maior) virtudes da equipa comandada por Francesco Farioli: a sua solidez defensiva.

Nem o último desespero encarnado, com Trubin a subir à área portista num canto final, conseguiu mudar o destino do jogo.

O apito final confirmou aquilo que, tantas vezes, define as equipas campeãs: nem sempre jogam melhor, mas acabam por encontrar uma maneira de se superiorizar aos seus adversários. 

Vangelis Pavlidis Benfica
Fonte: Paulo Ladeira / Bola na Rede

Com este resultado, o FC Porto garante o apuramento para as meias-finais da Taça de Portugal, onde já se encontram os surpreendentes mas meritórios Fafe (que voltou a assumir o papel de tomba gigantes e eliminou o Braga da competição) e Torreense, estando cada vez mais perto do sonho do Jamor. O FC Porto de Farioli não entusiasma, não tem nota artística, mas está edificado e sustentado uma defesa de betão, que agora juntou a essa causa um “jovem” de 41 anos chamado Thiago Silva.

Numa noite em que o futebol foi feito de contrastes, ficou a sensação de que o clássico foi ganho pela serenidade de um veterano e pela sorte persistente de quem parece destinado a continuar a vencer, mesmo quando decide parar de jogar. Até quando continuará a brilhar a estrelinha de Farioli?

Tiago Campos
Tiago Campos
O Tiago Campos tem um mestrado em Comunicação Estratégica mas sempre foi um grande apaixonado pelo jornalismo desportivo, estando a perseguir agora esse sonho. Fã acérrimo do "Joga Bonito".

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