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Amor outra vez

Pedro Machado · 3 min

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Por entre os muitos obstáculos que nos surgem ao caminho durante a vida, um dos que mais custa superar é o término de uma relação de amor. Passar a encarar que deixaremos de ter aquela base de suporte emocional que tantas vezes nos aconchegou em dias de tormenta (quando o trabalho/estudo não corria como queríamos, quando surgia um dilema ético ou uma discussão mais acesa com família ou amigos próximos) é desesperante, ao ponto de muita gente reconsiderar a postura que tem perante a vida.

Muitos arrependem-se de terem estado tão dependentes de uma só pessoa, e escusam-se a fazê-lo no futuro. Não se entregarão tanto, para não ficarem com cicatrizes emocionais que doem a curar e só saram com o tempo, madrasto, sempre lento a anestesiar-nos.

Podem dizer-nos que merecíamos melhor, que há uma imensidão de “peixes no oceano”, mas nada vale na altura em que vemos fugir quem nos é mais querido. Sabemos que, por mais que procuremos, não há ninguém como aquela pessoa. Única, com as virtudes que nos agarraram o coração e os defeitos que até achávamos adoráveis.

Eventualmente seguimos em frente, encontramos alguém (às vezes, nós mesmos) ou algo que nos satisfaz as necessidades emocionais, antes asseguradas por outra pessoa. E aí apercebemo-nos de que, afinal, o cemitério estava mesmo cheio de insubstituíveis e que só viria a fazer falta quem lá não esteve.

O futebol, como perfeito imitador da vida, vai-nos dando exemplos disso mesmo e ajuda-nos, ele próprio, a encarar uma situação de perda de uma namorada com a certeza de que alguém ou alguma coisa a virá substituir.

Aboubakar
Aposta ganha de Lopetegui em Aboubakar
Fonte: Facebook do FC Porto

A última perfeita ilustração disso mesmo aconteceu há dias, na zona das Antas, no Porto. Um Estádio do Dragão repleto de pessoas e expectativa aguardava ansiosamente pelo primeiro pontapé de saída da época. Mas, por entre a ansiedade e a vontade em ver a bola a rolar, era notória alguma tristeza por se ter visto partir uma figura central da equipa, alguém que julgavam insubstituível. O homem dos golos e da classe passeada em campo. Cha Cha Cha Jackson Martínez fora embora, deixando os adeptos portistas orfãos de um matador que pudessem idolatrar. É certo que já tinham passado por aquilo antes. Lisandro López saira e entrou Falcao, que fez ainda melhor, e depois entrou Jackson, que não ficou nada atrás dos feitos alcançados pelo seu compatriota. Esta linha de ouro do ataque portista, mesmo com a contratação de Pablo Osvaldo, parecia ter chegado ao fim. Não tinha chegado ninguém para além do italo-argentino (que só chegara hà pouco tempo e com a fama de indisciplinado) e a equipa teve um registo muito preocupante na pré-época, com três jogos sem marcar qualquer golo…

… mas os corações portistas logo sossegaram quando viram o primeiro golo contra o Vitória entrar, fruto da influência de Vincent Aboubakar, o novo número 9 portista, que não se amedrontou com a responsabilidade de satisfazer as exigentes necessidades emocionais (leia-se golos) de milhões de adeptos e marcou o golo inaugural logo aos seis minutos, ampliando a vantagem na segunda parte, num lance em que ficou evidenciada toda a sua capacidade física (coisa que o seu antecessor não tinha, pelo menos ao nível da do camaronês).

Depois do segundo golo, correu a abraçar Lopetegui, agradecendo-lhe a oportunidade e dando um vivo sinal de que a equipa pode estar, ao contrário do último ano, com o treinador.

Aboubakar não é Jackson… ainda, mas já aquece os corações azuis-e-brancos, que agora estão muito mais sossegados com o reencontro com o amor (alguém que possam idolatrar pelos golos que marca), seja ele fugaz ou não.

Foto de Capa: Facebook do FC Porto

Pedro Machado

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