Dar o corpo às balas

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dragaoaopeito

Há muito que o futebol português vive num clima absurdo de facciosismo, fruto de termos uma população onde todos somos treinadores de bancada formados pela grande universidade que é o Football Manager. Não é preciso ser um doutorado em Desporto para saber comentar futebol mas daria jeito se as pessoas conseguissem fazê-lo sem utilizar os filtros dos seus respectivos clubes.

Há facciosos em todos os clubes, não é por eu ser do Porto que alguma vez diria que só os há nos clubes de Lisboa, porque estaria eu mesmo a ser absurdamente faccioso. Tenho amigos benfiquistas, portistas e sportinguistas que sabem ver e comentar futebol, como tenho amigos benfiquistas, portistas e sportinguistas que de futebol sabem zero, e a sua opinião futebolística remete-se àquilo que são as conversas de café ou os discursos dos seus adorados e idolatrados presidentes.

Falar de Quaresma é falar de um caso ideal na abordagem deste tema. Muitos querem-no na selecção – benfiquistas, portistas e sportinguistas sabem ver que de momento a lista de bons extremos portugueses convocados habitualmente começa e acaba em Cristiano Ronaldo (sendo que Nani é uma incógnita). Outros recorrem a factos passados e actuais para negar a sua chamada, afirmando que, independentemente de quem seja chamado para a sua posição, Quaresma jamais/nunca/só-por-cima-do-meu-cadáver deverá ir ao Brasil.

Longe de mim chamar faccioso a quem não quer a chamada de Ricardo Quaresma para o Brasil. Muitos terão razões fortes o suficiente que sustentem a argumentação de uma não chamada do segundo melhor extremo português da actualidade (e não, não é por ser portista que o digo) e eu terei pelo menos que as ouvir. Agora, o primeiro caso em que Quaresma age mal, a primeira controvérsia desde o seu regresso ao Porto, o primeiro “ataque” de temperamento que o Mustang tem serve de argumento para não ir ao Mundial? O que ele fez foi errado pois, ainda que o tenham insultado ou picado o jogo todo, ele não pode e não deve reagir assim, claro que não… Mas é mesmo isso que que pesará numa balança de prós e contras relativamente à sua chamada? Ou serão as excelentes exibições que tem vindo a fazer no Porto nestes últimos três meses?

A atitude de Quaresma não foi a melhor, mas jamais deverá ser motivo para este não ir ao Brasil  Fonte: Mais Futebol
A atitude de Quaresma, não sendo a melhor, jamais deverá ser motivo para o afastar do Brasil
Fonte: Mais Futebol

 

O número 7 portista nunca tomou as melhores decisões na sua carreira, excepto as suas vindas vindas para o Porto, e o próprio já o admitiu. Mas até quando deverá ser punido por isso? Se no dia que voltou estava gordo e lento, agora está o quê, demasiado magro e rápido? Porque, se abordarmos apenas questões de temperamento, teríamos de ir mais longe e falar de quando Pepe andou a pontapear jogadores em Espanha, por exemplo, e aí não me parece que tenha havido grande pressão para o jogador nunca mais voltar a ser convocado para a selecção (sim, não esquecer que Quaresma não foi expulso porque efectivamente nada fez, só nosso país há todo um burburinho numa situação destas).

Custa-me que para muitos o real problema de Quaresma não seja o seu talento, o seu temperamento, a sua perda de bolas, ou o seu individualismo. Quaresma tem o problema de ser do Porto, como tantos outros que só foram aceites a nível nacional depois da sua saída para fora. Quando num país a maior discussão sobre extremos convocáveis engloba Ivan Cavaleiro e Carlos Mané, parece-me claramente que se trata de uma questão de facciosismo. Oxalá Quaresma vá ao Mundial e marque um golo decisivo; oxalá, porque, quando o fizer, quero que não se levantem das cadeiras a festejar, engulam em seco, peguem no telemóvel e façam scroll no Facebook até o jogo recomeçar.

Nota: No último artigo disse que esta semana falaria sobre a época à Di Matteo que se poderia dar no Porto este ano, mas pela vontade de escrever sobre tudo o que se tem falado sobre Ricardo Quaresma, decidi adiá-lo por uma semana.

Redação BnR
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