FC Porto 0-2 Benfica: A capa nem sempre faz um bom livro

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O título pode parecer-lhe estranho à partida mas depois de ver o clássico desta noite, no Dragão, apetece-me dizer que as previsões que se faziam para o jogo saíram todas furadas. Também por isso, depois do jogo de hoje, é cada vez mais nítido que, apesar de todos esses indícios que parecem tão claros antes de tudo acontecer, podem ser meras mentiras quando o jogo começa e finalmente as equipas mostram de que fibra são. Estas primeiras linhas, como já deve ter percebido, vão inteirinhas para FC Porto e Benfica, cujo potencial parecia tão distante, mesmo que a classificação dissesse o contrário. Por isso, aquilo que ouvimos ao longo da semana fazia parecer que hoje no Dragão seriam favas contadas porque, afinal de contas, o que pareceu é que os portistas já entravam a ganhar para o clássico com os encarnados.

Bem feitas as contas, nesta guerra pela liderança, o Benfica foi melhor porque foi mais experiente, mais inteligente, mais audaz e sobretudo mais eficaz. Não teve “nota artística” e nem sequer obrigou Fabiano a uma defesa de registo, mas no fim da noite levou os três pontos para casa, numa exibição vestida de “fato de macaco” como nunca se pensou ver. Para o clássico desta noite, Lopetegui e Jesus optaram por uma alteração em relação aos onzes iniciais que foram previstos durante toda a semana: do lado portista, Marcano atuou no lugar de Maicon, enquanto na equipa encarnada Lima foi o homem mais avançado, deixando Talisca nas suas costas e relegando o brasileiro Jonas para o banco de suplentes.

Brahimi voltou a demonstrar uma inquietante desinspiração  Fonte: fcporto.pt
Brahimi voltou a demonstrar uma inquietante desinspiração
Fonte: fcporto.pt

Depois de uma coreografia carregada de azul e branco, num Estádio do Dragão vestido de gala para a ocasião, cedo se percebeu com que linhas se iria coser o clássico. Do lado portista, Casemiro, Herrera e Óliver tiveram lugar de destaque nos primeiros minutos: o primeiro por ter destruído grande parte do jogo ofensivo que o Benfica quis construir; o mexicano e o espanhol pela dinâmica e intensidade que deram ao FC Porto nos instantes iniciais. Recuado e remetido a um bloco médio-baixo, o Benfica foi sendo consecutivamente surpreendido nos primeiros minutos, através das bolas nas costas que os médios portistas iam lançando para os espaços na defensiva encarnada.

Durante 20 a 25 minutos, praticamente só se via azul e branco no relvado do Dragão e por isso a vantagem seria algo normal para um domínio tão intenso e que teve nas oportunidades de Herrera e Jackson (brilhante defesa de Júlio César) os seus dois momentos altos. Aquilo que se esperaria era que, com tanto domínio, fosse o FC Porto a chegar ao golo. No entanto, essa imagem que parecia tão clara para os quase 50.000 no estádio não passou de uma miragem quando, na sequência de um lançamento de linha lateral, Maxi Pereira deu de bandeira um golo a Lima, que até ali tinha estado completamente desligado do jogo mas que voltava assim a fazer estragos no Dragão.

Sem que nada o fizesse prever, o Benfica, que ainda não tinha rematado à baliza de Fabiano, ia para o intervalo a vencer o jogo. Por entre a falta de eficácia de uns e a eficácia perfeita de outros, aquela imagem de domínio portista era apenas “para inglês ver”, pois afinal de contas o Benfica ia para a pausa com os louros de ter sido mais inteligente e pragmático.

No segundo tempo, o Benfica entrou com outra cara: ao contrário do que tinha acontecido no primeiro tempo, a equipa de Jorge Jesus conseguiu diminuir o ritmo da partida, adormecer o adversário e, por consequência, levar o jogo para onde mais queria. Do lado portista, não se viu mais do que uns meros livres e ameaços que pouco perigo criavam para Júlio César. O jogo estava, portanto, “em banho maria”, tal e qual como o Benfica desejava, mas sempre com o olho posto em novo erro portista para assim fazer xeque-mate no clássico. E assim aconteceu: à passagem do minuto 56, numa jogada entre Gaitán e Talisca, o jovem brasileiro rematou para Fabiano, que, sem nada que o fizesse prever, largou a bola direitinha para o pé direito de Lima, que, sem dificuldade, bisou na partida e sentenciou o clássico. No segundo remate à baliza, o Benfica fazia o segundo golo.

A eficácia era total mas desengane-se quem acha que o resultado era meramente fruto da felicidade encarnada. Nada disso: com inteligência e pragmatismo, o Benfica mostrava no Dragão que também sabe jogar sem “nota artística” e que sabe ferir os adversários mesmo não espetando muitas facas. O FC Porto, perdido por entre ataques inconsequentes e um jogo ofensivo sofrível, parecia completamente atordoado com o que lhe estava a acontecer, pois, depois de uma primeira meia hora tão dominadora, perceber que estava a perder 0-2 aos 60 minutos parecia um pesadelo.

Hoje, a barra travou duas vezes o melhor marcador do campeonato  Fonte: Facebook do FC Porto
Hoje, a barra travou duas vezes o melhor marcador do campeonato
Fonte: Página de Facebook do FC Porto

Até ao final do encontro, ainda houve dois remates à trave da baliza de Júlio César, um golo bem anulado a Jackson, uns quantos bons pormenores de Quaresma e uma inacreditável desinspiração de Brahimi e companhia. Sem derrubar a barreira encarnada, mesmo com tantas oportunidades, o FC Porto não conseguiu entrar no jogo e acabou o clássico engolido por um realismo encarnado como há muito não se via. Quem olhava para a antevisão do clássico, apostava numa vitória portista: pelo fator casa, por ter melhores jogadores ou simplesmente por estar num melhor momento. Concordei na altura com todas essas premissas, mas, no meio dessas profecias, parece que o reino do Dragão se esqueceu de que não é só com brilho e magia que se ganha – há jogos em que o fato de macaco fica melhor do que um uniforme de gala. Depois do jogo de hoje, já são 6 os pontos de vantagem para o Benfica. E que melhor maneira de o conseguir senão com uma exibição feliz mas personalizada como a de hoje. O Benfica deu um passo muito importante para o título, mesmo quando as apostas estavam todas contra si. Talvez depois de hoje alguém no FC Porto comece a perceber que nem sempre boas capas fazem bons livros.

 

A Figura

Marcano – É certo que foi algo lento no lance do segundo golo encarnado, mas a exibição do espanhol acabou por surpreender pela positiva.

O Fora-de-Jogo

Brahimi – O extremo argelino tem mostrado nos últimos jogos uma baixa de forma anormal e que teve prolongamento no clássico de hoje. Sempre muito individualista, raramente conseguiu ultrapassar a defensiva encarnada.

Foto de capa: fcporto.pt

Redação BnR
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