O Erro de Nuno Espírito Santo

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Por princípio, não me agrada a associação ao futebol de termos como “mística”. Da mesma forma, tenho alguma renitência a abordagens ao futebol que se baseiem significativamente na análise de aspetos de índole psicológica. Assim, apesar de ser certo que os atores da modalidade são seres humanos, dos quais é indissociável a psique, é também certo que os jogos se disputam no relvado, sendo que para vencer é essencial a existência de um equilíbrio positivo entre duas vertentes major: dinâmica coletiva e qualidade individual.

Recentemente, Nuno Espírito Santo procurou explicar o que é “jogar à Porto”. Para tal, utilizou diversos termos que poderiam ter sido retirados de um qualquer manual de autoajuda, como “compromisso”, “cooperação”, “comunicação”, “união”, “determinação”, ou “atitude”. No fundo, aquilo que Nuno Espírito Santo identificou foram os atributos necessários para o bom funcionamento de um qualquer grupo de trabalho, seja no contexto futebolístico ou fora dele. Porém, “jogar à Porto” é muito mais do que isso. É, por exemplo, e como o treinador do FC Porto também referiu, reduzir o campo “a 65 metros”.

Os adeptos olham hoje o plantel do FC Porto e comentam com frequência que existem poucos jogadores “à Porto”, ou até que falta ao clube a mística de outrora. Nuno Espírito Santo parece, igualmente, embarcar nesta forma de olhar o futebol muito centrada em aspetos marcadamente abstratos. Numa perspetiva totalmente oposta, acredito que o  principal atributo do jogador “à Porto” e do “jogar à Porto” é a qualidade. Uma equipa de futebol pode ser composta por jogadores extremamente comprometidos e determinados, mas esta nunca alcançará o sucesso se não tiver qualidade, tanto a nível individual como ao nível dos processos coletivos.

Olhando para o passado recente do FC Porto e analisando, por exemplo, o plantel que venceu a Liga dos Campeões na época futebolística 2003/04, apraz questionar, a título de exemplo: qual era a mística de Maniche? Qual era a mística de Carlos Alberto? Qual era a mística de Alenichev? Qual era a mística de Costinha? Que relação tinham eles com o FC Porto antes da sua chegada ao clube? Adicionalmente, olhando para a Liga NOS 2015/16 e para aquele que foi um dos melhores jogadores (senão mesmo o melhor) da mesma – Jonas –, apraz questionar: qual é a mística de Jonas relativamente ao SL Benfica? Muitos mais exemplos poderiam ser encontrados, tanto no futebol nacional como internacional, e todos eles serviriam apenas para chegar a uma conclusão: o que deve distinguir um futebolista que atue num clube com a dimensão do FC Porto é a qualidade! Todos os outros aspetos referidos por Nuno Espírito Santo são essenciais em qualquer área profissional e em qualquer equipa de futebol, quer ela atue na Liga NOS ou nas competições distritais, mas não são suficientes para caraterizar o jogador “à Porto” ou o “jogar à Porto”.

Maniche foi campeão europeu pelo FC Porto Fonte: FC Porto
Maniche foi campeão europeu pelo FC Porto
Fonte: FC Porto

Infelizmente, o que Nuno Espírito Santo disse de mais relevante acerca do que considera “jogar à Porto” foi aquilo que a imprensa menos procurou explorar: a importância de reduzir o campo “a 65 metros”. Mas afinal, quais são as ideias de jogo associadas à intenção de reduzir o campo a 65 metros? Pode então concluir-se que os treinos do FC Porto incidem, sobretudo, nos momentos de organização ofensiva e transição defensiva? E essa ideia de jogo é aplicável qualquer que seja o adversário ou a abordagem perante equipas de maior valia futebolística será diferente? Estas foram algumas das questões que ficaram por colocar e, consequentemente, são também aquelas que permanecem sem resposta.

Tendo em conta o que ontem se viu no encontro frente ao Vitória FC, a ideia que fica é que existe um FC Porto para jogos em casa e outros para jogos fora ou, pelo menos, que existe um FC Porto para jogos considerados teoricamente mais fáceis e outro para partidas hipoteticamente mais exigentes. Assim, sob o ponto de vista do posicionamento e da tomada de decisão, o FC Porto que se viu em Setúbal esteve, durante um largo período, mais próximo daquele que empatou em Tondela do que daquele que na passada semana venceu categoricamente o FC Arouca. A equipa dispôs-se num bloco mais baixo, os laterais não se projetaram tanto no ataque e, quando em organização ofensiva, apenas um dos médios tendia a adiantar-se no terreno de jogo na procura de combinações com os dois avançados, ficando os outros dois mais próximos de Danilo, Felipe e Marcano.

 

Alex Telles chegou ao Dragão nesta época Fonte: FC Porto
Alex Telles chegou ao Dragão nesta época
Fonte: FC Porto

Daqui em diante certo é que, como sempre acontece no futebol, as dimensões técnico-táticas e psicológicas funcionarão numa lógica de círculo vicioso cujo ponto de partida é, quase invariavelmente, a componente tática. Quanto melhor for relação entre a dinâmica coletiva e a qualidade individual dos executantes, melhores serão os resultados. Quanto melhores forem os resultados, melhor será o compromisso, cooperação, determinação, união e atitude dos futebolistas. Por sua vez, este élan psicológico dará maior confiança aos jogadores para que consigam transpor para o terreno de jogo as ideias do seu treinador e cometer menos erros individuais. Porém, para que tudo isto resulte em sucesso é necessário que exista um modelo de jogo consistente e bem definido. Atendendo às últimas exibições do FC Porto, é possível considerar que este já se encontra perfeitamente maturado?

Foto de capa: FC Porto

Francisco Sampaio
Francisco Sampaiohttp://www.bolanarede.pt
Apaixonado por futebol desde a segunda infância, Francisco Sampaio tem no FC Porto, desde esse período, o seu clube do coração. Apesar de, durante os 90 minutos, torcer fervorosamente pelo seu clube, procura manter algum distanciamento na apreciação ao seu desempenho. Autodidata em matérias futebolísticas, tem vindo recentemente a desenvolver um interesse particular pela análise tática do jogo. Na idade adulta descobriu a sua segunda paixão, o ténis, modalidade que pratica de forma amadora desde 2014.                                                                                                                                                 O Francisco escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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