O FC Porto venceu o Santa Clara por 0-1, nos Açores, num daqueles jogos que não se explicam pelo brilho, mas pelo peso que carregam na construção de um campeonato.
O Santa Clara–FC Porto, resolvido com um triunfo portista por 0-1 na 17.ª jornada, foi precisamente isso, isto é, um jogo pobre em espetáculo, rico em significado e absolutamente revelador do momento que a equipa de Francesco Farioli atravessa.
Num campo difícil, frente a um adversário organizado e num contexto emocional exigente, o FC Porto saiu vencedor, fechou a melhor primeira volta da história num campeonato a 18 equipas e com a vitória a valer três pontos, e deu mais um passo firme numa caminhada que já não se esconde atrás de promessas.
Ora, a importância deste encontro começava muito antes do apito inicial. Era o fecho de uma primeira volta absolutamente superlativa, num campo tradicionalmente difícil, frente a uma equipa que, nos últimos tempos, tem sido uma das mais competentes do campeonato no plano defensivo. Havia ainda o contexto externo, com o deslize do Sporting em Barcelos, a possibilidade concreta de cavar um fosso de sete pontos, a euforia latente à volta de um FC Porto que, de repente, voltou a sentir os adeptos colados à equipa, desde os treinos abertos até à partida para os Açores, transformada quase num momento de comunhão.


Mesmo nesse ambiente de entusiasmo, havia curiosidade (e, até, alguma estranheza) em relação ao onze inicial de Francesco Farioli. O regresso de Gabri Veiga fazia sentido num jogo físico e num relvado pesado, mas a ausência de Borja Sainz, pelo momento que atravessa (apesar de ter estado de fora do último jogo, frente ao AVS SAD, pela série de amarelos que concluiu) e pela sua capacidade de choque, levantava sobrancelhas. Ainda assim, o italiano manteve o desenho base, fiel a uma ideia que não abdica de princípios, mesmo quando o contexto parece pedir outra coisa.
Do outro lado, Vasco Matos confirmou aquilo que era expectável. O Santa Clara apresentou-se num 5-4-1 claro em organização defensiva, compacto, agressivo, com linhas muito juntas, a fechar o corredor central e a oferecer tempo e espaço aos centrais portistas para construírem. Era uma armadilha clássica para o modelo de Farioli, ou seja, deixar sair por trás, retirar ligações interiores, matar o jogo associativo e obrigar o adversário a viver de rasgos individuais ou erros próprios.
A primeira meia hora foi um espelho quase perfeito de muitos jogos do FC Porto esta época frente a blocos baixos. Muita posse, pouca profundidade, circulação lenta, poucas ideias no último terço. Sem Rodrigo Mora, a criatividade ressentiu-se ainda mais. Froholdt, tão influente quando tem espaço para correr, ficou amarrado. Samu lutava contra um mar de camisolas vermelhas. Gabri Veiga e Pepê passaram longos períodos fora do jogo. O relvado pesado também não ajudava quem queria pensar e circular rápido.
O Santa Clara, confortável no seu plano, ia controlando o jogo sem grande sofrimento. Defendia bem, saía quando podia, apostava na velocidade de Vinícius Lopes e Gabriel Silva, mas sem criar verdadeiro perigo. O jogo tornou-se demasiado amarrado, quezilento, cheio de faltas, paragens constantes, sem ritmo. Desinteressante é, talvez, o adjetivo mais honesto para descrever aquela primeira parte.
Ainda assim, mesmo nesse cenário pobre, ficou claro onde o FC Porto podia encontrar soluções. Sempre que alguém foi capaz de desequilibrar sem depender do coletivo, algo aconteceu.


William Gomes foi, de longe, o elemento mais inconformado. Tentou de longe, tentou em condução, tentou em transição. A melhor oportunidade antes do intervalo nasce precisamente de uma dessas cavalgadas, numa jogada que resume bem o problema e a solução. Isto porque quando o adversário fecha tudo por dentro, é preciso alguém que rasgue por fora do guião.
O intervalo chegou com um nulo justo e com a sensação clara de que, para ganhar, o FC Porto teria de fazer muito mais. O cenário era difícil, com o Santa Clara sólido, o corredor central fechado, médios interiores anulados e um relvado traiçoeiro. Faltavam mecanismos, faltavam combinações curtas, faltava surpresa. Mas o futebol, tantas vezes, resolve-se por linhas tortas.
A segunda parte mal tinha começado quando o jogo levou uma guinada absurda. Um lance sem pressão, uma reposição aparentemente simples, uma bola que escapa da mão de Gabriel Batista e sobra, como um presente embrulhado, para Samu. O avançado espanhol fez o que se exige a um ponta-de-lança: estava lá, acreditou e não falhou. Foi um golo caído do céu, uma autêntica prenda, um daqueles momentos que alimentam a narrativa da “estrelinha”.


Mas reduzir esta vitória à sorte seria profundamente injusto. Porque, a partir daí, o FC Porto fez aquilo que melhor sabe fazer neste momento. Controlou. Organizou-se. Defendeu com uma maturidade impressionante. Cresceu em confiança, fechou espaços, ganhou duelos, matou o jogo sem bola.
Farioli percebeu rapidamente o que o jogo pedia e mexeu com pragmatismo. Retirou criatividade, reforçou segurança. A entrada de Alan Varela para o lugar de Gabri Veiga, a reorganização do meio-campo com Rosário e Froholdt mais protegidos, a gestão das alas com Borja Sainz e Deniz Gul foram sinais claros de uma prioridade, a de não permitir que o Santa Clara acreditasse.
E a verdade é que, mesmo tendo mais bola nos últimos minutos, a equipa açoriana nunca encontrou caminhos claros para a baliza de Diogo Costa. Remates de longe, segundas bolas, alguma pressão emocional, mas raríssimas situações de verdadeiro perigo. A organização defensiva do FC Porto foi exemplar. A reação à perda, a transição defensiva, a disciplina posicional, tudo funcionou como um relógio.
Aqui entra um dos grandes segredos desta equipa, isto é, a defesa. Jan Bednarek e Jakub Kiwior formam um eixo de enorme fiabilidade, limpam a área, ganham duelos, saem a jogar com critério. Não há histeria, não há pânico. O FC Porto raramente se parte. Raramente concede contra-ataques. Para desmontar esta estrutura, é preciso muito mais do que vontade, é preciso qualidade em ataque posicional, algo que poucas equipas da Liga portuguesa têm.


Este jogo também serviu para expor, uma vez mais, sem filtros, as virtudes e limitações do modelo de Farioli. É uma equipa disciplinada, organizada, coerente, mas pouco flexível. Quando lhe retiram os espaços e lhe bloqueiam os pontos fortes, sente dificuldades claras para criar. Não é um futebol exuberante, nem sempre é bonito, mas é eficaz. E a eficácia, neste momento, é esmagadora.
No fim, ficaram os números: 16 vitórias, um empate, quatro golos sofridos, 49 pontos. A melhor primeira volta da história, desde que a vitória vale três pontos. Sete pontos de vantagem para o segundo classificado, dez para o terceiro. Mas ficaram também os sinais de alerta. Esta foi, talvez, a vitória mais complicada da época. Tirando o erro do guarda-redes, contam-se pelos dedos as oportunidades claras.
É aqui que a opinião se impõe, dado que estas vitórias são ouro, mas exigem vigilância. O campeonato está longe de estar decidido. Há equipas com argumentos, há jogos mais exigentes pela frente, há uma segunda volta onde será pedido mais ao FC Porto, dentro e fora do mercado de janeiro. A humildade tem de ser a mesma, o foco também.
Ainda assim, é impossível ignorar o que este FC Porto transmite. Há coesão, há crença, há uma ligação clara entre equipa técnica, jogadores e adeptos. Mesmo sem troféus conquistados, Farioli já ganhou algo fundamental, ou seja, um grupo que acredita no processo e uma massa adepta que voltou a sentir o clube.
Nos Açores, o FC Porto não jogou bem. Mas venceu. E há campeonatos que se ganham exatamente assim. Nos dias em que nada sai fluido, mas tudo sai sólido. O golo caiu do céu, sim. Mas a equipa, essa, não caiu nunca.

