O livro da Liga: o destino não premeia quem tanto vacila

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Prólogo

Após a vitória por 3-1 frente ao CD Aves, em Aveiro, em jogo a contar para a entrega do primeiro título da temporada, o entusiasmo era palavra de ordem no vocabulário dos adeptos do FC Porto. E porque razão não haveria de ser? Grande parte dos titulares indiscutíveis haviam permanecido no plantel, o treinador, o mesmo que havia devolvido o clube às conquistas, continuara no comando, o clima entre equipa e massa associativa era invejável e um dos rivais na corrida pelo campeonato nacional tinha sido completamente “engolido” em problemas internos. As estrelas pareciam alinhadas para que a hegemonia do futebol português rumasse a norte, novamente. O FC Porto não nos dececionaria, certamente.

Capítulo 1 – Tropeçou, mas não tardou a levantar

Em agosto, quando os termómetros pareciam já não aguentar uma nova subida da temperatura, eis que a liga começa. E, para os portistas, o começo parecia ser bastante positivo: duas vitórias nos dois primeiros encontros e a certeza de que, na jornada seguinte, pelo menos um dos rivais da capital perderia pontos, visto que era semana de dérbi. E, se o facto de um dos adversários diretos perder pontos era bom, a confirmação do empate a uma bola na Luz parecia servir de embalo para uma expectável vitória do FC Porto sobre o Vitória SC, no Estádio do Dragão. Porém, essa vitória expectável não surgiu: numa reviravolta verdadeiramente incrível, o clube da cidade berço conseguiu reverter um 2-0 ao intervalo para um 2-3. Era um autêntico balde de água fria em Sérgio Conceição e na sua equipa. Contudo, esse balde voltaria a encher e, desta vez, com água mais gelada ainda: derrota no Estádio da Luz, por 1-0, naquele que era o primeiro clássico da temporada. O otimismo do verão transformara-se, pela primeira vez, em dúvida.

Porém, esse gelo acabaria também por rumar a sul. Isto porque, frente a Belenenses SAD e Moreirense FC, o Benfica sofreria duas derrotas consecutivas que pareciam escancarar uma crise encarnada. Crise essa que, efetivamente, havia de ser confirmada em Portimão, aquando de nova derrota do SL Benfica no campeonato. E, ao incêndio que se vivia na Luz, o FC Porto decidiu  despejar um galão de gasolina sobre as águias: 18 vitórias consecutivas, a contar para todas as competições, haviam colocado o FC Porto a “milhas de distância” dos encarnados (sete pontos). Contudo, no futebol, nada está ganho em janeiro.

O FC Porto perdeu os dois clássicos com o SL Benfica
Fonte: FC Porto
Capítulo 2 – Um gélido inverno que os escorregões acabaram por aquecer

A sequência de 18 vitórias do FC Porto via agora um novo obstáculo. Um obstáculo que não era ultrapassado há mais de uma década: o estádio José Alvalade. Oito pontos separavam os dois rivais à entrada para a 17ª jornada da liga contudo, tal diferença não seria confirmada dentro das quatro linhas: 0-0 no final dos 90 minutos e a certeza de que as vitórias não tenderiam sempre para o lado azul e branco. Os efeitos do inverno já se faziam sentir, até que fevereiro chegou e com que ele trouxe uma dose enorme de gelo para as aspirações azuis e brancas. Visitas consecutivas a Guimarães, resultados semelhantes. Primeiramente, o empate a zeros frente a Vitória SC (0-0) e, de seguida, nova igualdade em Moreira de Cónegos (1-1). Aqueles sete pontos eram, àquela altura, apenas meras lembranças. Pouco depois, no que muitos chamavam de “jogo do título”, o FC Porto não foi capaz de se superiorizar perante o SL Benfica e acabou por estender uma enorme passadeira vermelha aos comandados de Bruno Lage até ao titulo. O SL Benfica, agora, liderava a tabela classificativa com mais dois pontos que o FC Porto e com a vantagem pelo confronto direto do seu lado. Um campeonato morno tinha sido incendiado pelos sucessivos escorregões da equipa de Sérgio Conceição.

Capítulo 3 – Olhos na bola, mão na calculadora

Com a aproximação do término do campeonato, as naturais contas, tipicamente portuguesas, começavam a ser feitas. Não seria necessário esperar mais do que uma semana, todavia, para que todos esses cálculos ganhassem novos contornos: o Belenenses SAD fazia novamente o papel de vilão frente ao SL Benfica, forçando as águias a derramar pontos. Era este o incentivo que os portistas precisavam para voltar a acreditar na revalidação do título. E o “acreditar” continuava a crescer juntamente com o acumular de vitórias que o FC Porto alcançou. Contudo, o SL Benfica também insistia em não vacilar. Até que chegámos à 31ª jornada. Era uma das jornadas onde os adeptos portistas apostavam todas as fichas, visto que os seus principais rivais visitavam o sempre difícil terreno do SC Braga, à época, quarto classificado. Contudo, em primeiro lugar, era necessário passar em Vila do Conde. E o FC Porto não passou. Outro gigante balde de água fria derramado sob as aspirações dos dragões e um combustível extra para o SL Benfica, que acabaria por não vacilar em Braga. E esse combustível acabaria por ser suficiente para que o SL Benfica erguesse o 37º título de campeão nacional na sua história. Quanto ao FC Porto, teria que se contentar com o nada satisfatório segundo lugar e com a presença nas eliminatórias de acesso a Liga dos Campeões, em 2019/20.

“Reflexões do poeta”

Por entre “macacos” revoltados, birras, divisões entre adeptos e uma pitada de filhos à mistura, facto é que a revalidação do título, o principal objetivo do clube aquando do lançamento desta época, não foi conseguida. Algo que exige, necessariamente, reflexão, quer dos adeptos, quer da direção, quer do próprio Sérgio Conceição. Uma hipotética vitória no Jamor salva a época? Nem de perto, nem de longe, a meu ver. Não no FC Porto. Se o ano passado “engoli” o campeonato sem a companhia da Taça, sou incapaz de aceitar com um sorriso na cara uma época onde o FC Porto é “apenas” capaz de levantar uma Supertaça e uma Taça de Portugal. E quem o aceita sem contestação, demonstra que estes quatro anos fizeram danos severos no tribunal do Dragão. Apontar o dedo única e exclusivamente às arbitragens e aos “favorecimentos” seria o maior erro possível no rescaldo deste campeonato. Há que refletir imenso sobre os pontos perdidos, sobre a maneira como estes foram perdidos, sobretudo.

Foto de Capa: FC Porto

Artigo revisto por: Jorge Neves

José Mário Fernandes
José Mário Fernandeshttp://www.bolanarede.pt
Um jovem com o sonho de jogar futebol profissionalmente. Porém, como até não tinha jeito para a coisa, limita-se a gritar para uma televisão quando o FC Porto joga.                                                                                                                                                 O José escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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João Prates está na Tribuna VIP do Bola na Rede. É treinador de futebol, licenciado em Psicologia do Desporto e está no seu espaço de opinião no nosso site. O técnico de 52 anos já orientou o Dziugas da Lituânia, o Vaulen da Noruega e o Naft Maysan, do Iraque, e esteve na formação do Al Batin e Hajer Club da Arábia Saudita.