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Qualidade e quantidade

Pedro Nuno Silva · 3 min

Qualidade e quantidade

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tinta azul em fundo brando pedro nuno silva

Como marcar golo? Começo este texto com a pergunta mais importante do futebol provavelmente. O que é preciso os jogadores fazerem, que estratégia a adoptar, que táctica implementar? Das diversas aprendizagens, influências e até personalidades (quem não se lembra do Boavista durinho como o Jaime Pacheco?), surge a resposta a esta pergunta (ou pelo menos pensa-se que surge já que o futebol não é uma ciência).

Cada treinador segue uma filosofia e implementa-a na sua equipa. Alguns querem a equipa a jogar conforme eles aprenderam; outros adaptam a forma de jogar às características dos jogadores que orientam – tudo na busca da táctica mais eficiente, da estratégia perfeita.

Olhamos para o Porto desta época e vemos uma equipa mais organizada e com uma filosofia de jogo diferente do ano passado: temos um treinador novo, uma equipa renovada e a forma de jogar mudou, assim como o plantel tambem mudou. Lopetegui tem uma filosofia de jogo assente na posse de bola, tal como as selecções espanholas têm, e tenta implementá-la no Porto. Porém, parece que falta algo nos nossos jogadores, parece que há ali uma barreira invisivel que impede os jogadores de brilharem, de fazerem a triângulação perfeita, de trocarem de bola de tal forma que deixe os adversários confusos.

PORTO - SAINT ETIENNE        ( 2014/2015 )
Oliver tem as características que Lopetegui procura num jogador
Fonte: abola.pt

Ora, o primeiro passo a fazer quando se olha para o Porto deste ano é tratar da nossa própria gestão de expectativas. Não de resultados – porque aí não exijo nada menos do que a vitória – mas exibicionais. Quem se lembra da posse de bola de toque curto, triângulações rápidas, desmarcações à entrada da área lembra-se do célebre Barcelona de Guardiola; se quisermos pensar a nível nacional encontramos como um excelente exemplo o Porto de Mourinho, que jogava em ataque continuado abafando o adversário. Mas tendo Lopetegui a escola espanhola e olhando para a forma como os sub-21 de Espanha jogavam, parece mais correcto fazer a comparação com os culés. Não adianta pensar que vamos ter um Porto à Barcelona, não vamos, faltam 2 pontos importantes: a formação dos jogadores e a sua qualidade.

O Porto actua em 4-3-3 nas camadas jovens, é uma forma de promover o potencial dos jogadores e de formar jovens com especial aptidão para determinadas posições. Não temos tiki-taka, os nossos jogadores não estão formatados para jogar dessa forma desde crianças e, além do mais, no nosso plantel quase não há espaço para jovens da formação. O outro ponto já referido é a qualidade dos jogadores: temos talento no plantel mas não temos um Messi, Xavi, Iniesta, Piqué, etc. Quem tem Iniesta, por exemplo, tem um jogador que garante duas coisas essenciais para quem joga no estilo tiki-taka: excelente recepção de bola e passe. A visão de jogo surreal e a técnica são mais dois dos factores que o transformam num craque. É preciso entender então as características dos nossos atletas. Temos um duo jogadores que são dotados de talento acima da média e que têm características propícias para o futebol de posse de bola – Ruben Neves e Oliver Torres – e depois temos jogadores que com maior ou menor talento não se encaixam totalmente no padrão exigido para jogar desta forma. É normal, portanto, que o Porto, por mais treinos e palestras que faça, não atinja aquele futebol espectacular com o qual sonhamos no inicio de cada época, que tenha dificuldades em passar o meio-campo com a bola controlada e que o poder de decisão no ultimo passe não seja o melhor. Se não atingimos a excelência, exijo então que atinjamos a quase excelência, aquele patamar antes da excelência que está reservado só para alguns plantéis; exijo também o título de campeão (será preciso referir isto?!) mas isso está no nosso ADN.

É preciso perceber a matéria-prima com que se trabalha, adapatar o futebol aos jogadores que o jogam e gerir as expectativas das exibições. Não que agora tenha que se perdoar as más exibições, nada disso. Apenas é preciso dar tempo à equipa e ao treinador para que se consigam adaptar um ao outro e perceber que, por enquanto, não vamos chegar ao ponto que muitas grandes equipas da história atingiram. Lopetegui tem lido bem os jogos, tem actuado de forma firme nas substituições e nas convocatórias e tem uma filosofia de jogo – o Porto vai adaptar-se e melhorar com o tempo. A quantidade de posse de bola (de quantidade não nos podemos queixar) vai-se transformar em qualidade mas iremos estar sempre reféns das características da matéria-prima – os jogadores.

Pedro Nuno Silva

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