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Desde o Verão passado, assistimos ao ressurgir de uma rivalidade muito antiga. Porquê? Jorge Jesus, que se havia sagrado poucas semanas antes bicampeão nacional pelo Benfica, passou de um lado para o outro da 2.ª circular. Estava aberta uma guerra entre Sporting e Benfica. Contudo, já lá vai o tempo em que essa mesma rivalidade era saudável. Hoje, ultrapassaram-se os limites de qualquer decência. Quando acontecer uma tragédia, e estou certo de que não estamos longe de tal acontecer, não haverá inocentes: dirigentes, treinadores, comentadores, adeptos e até os jornalistas, serão todos culpados.

Permitam-me que puxe o filme um pouco atrás. Em Maio de 2015 o Benfica tinha conquistado um bicampeonato que lhe fugia há mais de 30 anos. Por sua vez, o Sporting acabava de conquistar a Taça de Portugal e estava de volta aos títulos. Levando em conta o passado recente de ambos os clubes, a pergunta que se tem de fazer é simples: porque é que Sporting e Benfica trocaram de treinador? A resposta seria complexa e, provavelmente, pouco unânime. Mas não é isso que quero discutir.

Luís Filipe Vieira prefere delega tarefas noutros elementos do Benfica Fonte: SL Benfica
Luís Filipe Vieira prefere delega tarefas noutros elementos do Benfica
Fonte: SL Benfica

Após a euforia dos títulos conquistados, começam as habituais movimentações de bastidores. Bruno de Carvalho, após rescindir contrato com Marco Silva, consegue trazer Jesus para Alvalade. O mesmo Jorge Jesus que, e segundo o próprio tem deixado nas entrelinhas, sentiu que não era desejado no Benfica. Mas também não são estes pormenores que me interessam.

Em qualquer país do mundo que se considere desenvolvido isto seria encarado como normal. É certo que Jorge Jesus estava a passar diretamente de um rival para o outro, mas, vejamos, é futebol. Na última vez que tive oportunidade de verificar, vivemos numa sociedade livre em que cada pessoa tem a liberdade de escolher o seu destino. O mesmo se aplica a Marco Silva.

Todavia, talvez Portugal, por falta de formação ou algo que o valha, gosta de ser diferente. Os meios de comunicação fizeram emissões de horas e horas quando pouco mais havia a dizer. Os dirigentes, de ambas as partes, teceram declarações incendiárias. No meio de tudo isto, convém ressalvar o papel que as redes sociais tiveram no desenrolar dos acontecimentos. É hoje mais do que incontestável que Sporting e Benfica pagam a, digamos, colaboradores, para criarem blogues incendiários onde se propaguem as mensagens definidas pelas chefias. Este tipo de ferramentas, que no passado não existiam, são autênticos catalisadores de rivalidades pouco saudáveis e que vão para além do razoável.

Para além destas guerras nos novos media, temos duas estratégias de comunicação bem diferentes, mas com objetivos semelhantes. No Sporting, o presidente Bruno de Carvalho, principalmente através da sua página oficial de Facebook, vai lançando mais “achas para a fogueira”. A juntar a isto temos Otávio Machado, que ficou parado no século XX. O Benfica, por sua vez, faz-se ouvir principalmente pela voz do diretor de comunicação: João Gabriel. Depois, temos ainda uma série de comentadores “encarnados” com o discurso quase sempre alinhado. Na hierarquia está, para quem não se quiser fazer de parvo ou pouco inteligente, Pedro Guerra.

O Presidente do Sporting é bastante ativo na sua página oficial de Facebook Fonte: Sporting Clube de Portugal
O Presidente do Sporting é bastante ativo na sua página oficial de Facebook
Fonte: Sporting Clube de Portugal

Os meios de comunicação têm, sem margem para dúvidas, uma grande quota-parte de culpa. Exceção feita talvez à RTP e à SIC, parece valer tudo na luta por audiências. Qual a máquina de comunicação mais eficaz? Não sei e pouco me interessa. A verdade é que ambas estão a contaminar o futebol português.

Uma pequena nota para o Futebol Clube do Porto. Começou por perder a hegemonia para o Benfica. Desde que Bruno de Carvalho tomou as rédeas do clube de Alvalade, Pinto da Costa não conquistou qualquer título de campeão nacional. Será que, no que diz respeito a títulos conquistados, o melhor dirigente da história do futebol português está acabado?

Termino exatamente da mesma forma como comecei. Hoje, ultrapassam-se os limites de qualquer decência. Hoje, os pais têm medo de levar os filhos ao futebol porque é perigoso. Hoje, perdeu-se a noção daquilo que é razoável. A assistir a tudo isto de cadeirão, está a Liga Portuguesa de Futebol Profissional e a Federação Portuguesa de Futebol.

No final, serão todos culpados.

Foto de capa: Sporting Clube de Portugal

Duarte Pereira da Silva
Duarte Pereira da Silva
Do ciclismo ao futebol, passando pelo futsal ou o andebol, quase todos os desportos apaixonam o Duarte. Mas a sua especialidade é o ténis, modalidade que praticou durante 9 anos.                                                                                                                                                 O Duarte escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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