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A melhor escolha possível

Mário Cagica Oliveira · 3 min

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Mudam-se as mentalidades, mudam-se os resultados. A ressurreição do Sporting Clube de Portugal com Bruno de Carvalho ao leme da equipa caracteriza-se essencialmente por um grande ceticismo na hora de redefinir os objetivos da equipa. Chegou, arrumou, limpou e organizou. Saíram os excedentários, ficaram os competentes e foi escolhido quem os soubesse orientar.

Se Luís Filipe Vieira acertou com a continuidade de Jesus no final da temporada passada, Bruno de Carvalho também foi feliz com a sua aposta em Leonardo Jardim, em detrimento de Jesualdo Ferreira. Nem o mais otimista dos adeptos era capaz de adivinhar que o Sporting conseguiria fazer uma temporada tão segura como aquela que acabou por fazer. O técnico madeirense deixa sempre uma boa imagem por onde passa, e a confirmação da sua saída, durante o dia de ontem, foi um rude golpe nos planos de Bruno de Carvalho.

Leonardo Jardim fez o que aparentava ser mais difícil: reerguer e reestruturar o Sporting, com pouquíssimos recursos à sua disposição. E tinha agora todas as condições para dar o próximo passo: lutar por títulos. Não aceitou, e o Sporting acabou por se virar para a opção mais válida do mercado: Marco Silva.

O antigo técnico do Estoril é um dos mais interessantes treinadores da atualidade. Pegou nos Canarinhos nas últimas posições da Segunda Liga, foi campeão, e nos dois anos seguintes conseguiu prestações absolutamente notáveis na Primeira Liga Portuguesa, com apuramentos para a Liga Europa (5º classificado em 2013 e 4º em 2014). Isto tudo sem esquecer que esteve sempre em gestão de recursos e a perder algumas das peças nucleares do plantel.

Marco Silva é um treinador fantástico, e desenganem-se os adeptos que pensam tratar-se de um novo Paulo Fonseca. Será até uma ofensa para o jovem técnico poder ser comparado às capacidades de um treinador que em nada se assemelha aos seus princípios teóricos e táticos básicos. Marco Silva, antes de mais, destaca-se pela sua capacidade discursiva. Não esperem os adeptos do Sporting ter um treinador que fale de arbitragens ou que se venha queixar de A ou B em campo. Desde que se iniciou na sua carreira como treinador, Marco Silva nunca optou por essa via em final de jogo algum (e foram muitos aqueles dos quais teve razões de queixa), e também não me parece que seja agora que o vá começar a fazer.

Marco Silva é um dos melhores treinadores portugueses da atualidade Fonte: ASF
Marco Silva é um dos melhores treinadores portugueses da atualidade
Fonte: ASF

Sempre foi um senhor dentro e fora de campo e apenas se preocupa com aquilo que realmente interessa dentro de um estádio de futebol: o jogo. O novo treinador do Sporting CP é a prova viva de que, se formos realmente bons, o tempo eventualmente acabará por nos compensar. Poder-se-á dizer até que Marco Silva está relativamente deslocado do futebol português, dado o nível do seu discurso e a forma como vive o jogo. Não se refugia em acontecimentos alheios para justificar fracassos e procura sempre reagir às adversidades que lhe são colocadas no caminho. E quem treina uma equipa de pequena dimensão, como é o Estoril, está muito mais exposto às dificuldades.

Falou-se de Porto, falou-se de Benfica, mas parece-me que a opção pelo Sporting é a mais segura para Marco Silva. No Porto, a pressão deste ano vai ser imensa e os adeptos ainda recuperam do trauma “Paulo Fonseca”, que ditou o fracasso na aposta num treinador jovem e com pouca experiência de futebol profissional (tal como é Marco Silva, logicamente).

No Benfica, a conversa é completamente diferente. Existiam demasiados entraves à entrada de Marco Silva, desde logo porque Jorge Jesus deve continuar no comando técnico. No entanto, e caso abandonasse o cargo, levaria consigo os louros de uma época soberba e deixaria uma pressão imensa para o seu sucessor. Ao mínimo deslize, seria óbvio que a massa adepta do Benfica iria cair em cima do seu “novo” treinador. E, entenda-se, Marco Silva é um treinador completamente diferente de Jorge Jesus. Para além dos aspetos óbvios a nível de discurso e de postura, é um treinador muito mais cauteloso e com menos propensão para colocar a sua equipa a jogar em ataque continuado e pressionante. Os adeptos do Benfica iriam sentir muito essa mudança, e as vozes de desconfiança em relação ao jovem técnico iriam ser muitas.

Por isso mesmo, em Portugal, sobrava o Sporting. Um clube que retomou a estabilidade e que dará todas as condições para que Marco Silva possa trabalhar tranquilamente. Bruno de Carvalho pode dormir descansado. Perdeu um grande treinador, mas arranjou outro igualmente bom.

Mário Cagica Oliveira

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