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As rescisões não foram o primeiro passo

Diogo Janeiro Oliveira · 8 min

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O Sporting foi abalado esta segunda feira por mais rescisões unilaterais de contrato por parte de alguns dos rapazes que vestiam as suas cores. Desta vez, foram William Carvalho, Gelson Martins, Bruno Fernandes e Bas Dost a apresentarem esses desejos, juntando-se a Rui Patrício e Daniel Podence que já o tinham manifestado.

Ora bem, em primeiro lugar, é bom lembrar que estes jogadores rescindiram com o Sporting Clube de Portugal e não com Bruno de Carvalho, ao contrário do que disse Frederico Varandas também nesta segunda feira. Isto é o ponto basilar, o mais importante, da discussão. Posto isto, existem vários pontos a refletir sobre todo este cenário das rescisões destes jogadores com o clube. Se for dada justa causa a estes pedidos de rescisão, estará a abrir-se um precedente gravíssimo. Isto porque qualquer clube poderá tentar agredir um jogador de um rival com o intuito de ele rescindir e contratá-lo mais à frente.

Se não for provada a ligação de elementos do Conselho Diretivo ao caso das agressões, como é que será dada justa causa a isto? Tendo em conta que muitos dos acontecimentos invocados nas cartas de rescisão são anteriores à invasão da Academia de Alcochete, não terá isto tudo sido orquestrado por quem tem interesse nas rescisões?

É bom analisar que os jogadores que até agora rescindiram, à exceção de Daniel Podence, eram titularíssimos da equipa principal e os portugueses estão todos no Mundial. É estranho que aqueles que menos jogam não se sintam irremediavelmente afetados pelos acontecimentos como este que estão a rescindir. Talvez este seja um ponto que seja relevante para a análise das pessoas e dos sócios do Sporting, em particular. É porque esses jogadores que não rescindiram até ao momento (têm até ao dia quinze para o fazerem) não tiveram a oportunidade de jogar de forma muito regular, nomeadamente nos vergonhosos últimos dois jogos disputados pelo clube no último campeonato. Talvez tivessem outro desempenho, mas já lá irei a esse ponto.

Menção honrosa para que merece ter a camisola do Sporting Clube de Portugal vestida
Fonte: Sporting Clube de Portugal

Depois, também é relevante para esta história toda o papel dos empresários. Esses intervenientes que continuam a mandar no futebol estão por trás destas rescisões unilaterais de contrato, como fica provado pelo facto das primeiras duas rescisões terem sido dos únicos jogadores agenciados por Jorge Mendes, de quem Luís Filipe Vieira disse um dia ser “parceiro do Benfica”. A história das propostas que apareceram, ou supostamente apareceram, pelos jogadores terá muita influência nesta situação. Hoje em dia, a maioria dos jogadores não sabe gerir a sua carreira e deixam-nas nas mãos dos empresários. Como em tudo na vida, existem profissionais com e sem valores. Assim sendo, não há novidade nenhuma em relação ao papel dos empresários.

O presidente não fez tudo bem, isso é claro como água. Cometeu muitíssimos erros de comunicação e de gestão de recursos humanos durante os cinco anos em que está ao comando do Sporting. Isso é inegável, até para o seu mais fiel apoiante. E mesmo as futuras alterações de estatutos que quer implementar são muito duvidosas, precisamos de ter cuidado com isso. É um ponto onde Bruno de Carvalho deveria recuar, pois não está a enveredar por um caminho correto. Os SMS’s que enviou aos jogadores não deviam ter acontecido e a sua capacidade comunicacional sempre deixou algo a desejar.

Agora, e voltando ao início, os jogadores estão a rescindir com a SAD do Sporting. Depois de casos de evidente falta de respeito como os de Simão Sabrosa ou João Moutinho, existem agora casos ainda mais chocantes como os de Rui Patrício, William Carvalho ou Gelson Martins, que estão a rescindir após vários anos com a camisola verde e branca vestida. Os casos dos jogadores formados na Academia de Alcochete são ainda mais graves que os de Bruno Fernandes ou Bas Dost, que foi um dos mais agredidos pelo crime ocorrido na Academia.

Mas como refere o título deste artigo, não considero que as rescisões tenham sido o primeiro passo. Penso que os jogos com o Marítimo e o Benfica podem ter sido um passo muito importante e que passou despercebido a muita gente. O Sporting vinha de seis vitórias consecutivas (Paços de Ferreira, Atlético de Madrid, Belenenses, FC Porto, Boavista e Portimonense) e, mediante os resultados do SL Benfica (principal rival na luta pelo acesso à Liga dos Campeões), os jogadores do Sporting apenas precisariam de vencer o Benfica para conseguir um objetivo muito importante para o clube: a possibilidade de discutir o apuramento para a Liga dos Campeões 2018/19. O Benfica vinha de uma derrota com o Tondela e o Sporting jogava em casa, perante um estádio cheio e moralizados pela possibilidade de uma vitória assegurar o objetivo. O Sporting não tinha baixas, ao contrário do Benfica, que teve de deixar o seu melhor jogador, Jonas, no banco de suplentes. No Sporting, depois de seis jogos a ganhar com Battaglia – Bryan Ruiz – Bruno Fernandes no meio campo, JJ decidiu colocar William Carvalho em campo após um mês sem jogar. E o que aconteceu nesse jogo?

Será que alguma vez o pensamento foi “Cu bo ti fim de mundo Sporting?”
Fonte: Sporting Clube de Portugal

O Benfica jogou melhor, teve mais oportunidades e merecia vencer perante um Sporting que foi estranhamente amorfo. Existiram erros de arbitragem graves que prejudicaram o Sporting, mas a exibição dos jogadores foi estranhamente (quiçá, misteriosamente) fraca. Os verde e brancos fizeram apenas um remate enquadrado com a baliza, não tiveram uma única oportunidade flagrante e a maioria dos especialistas considerou que o jogo do Sporting foi fraco, que a sua exibição não merecia um resultado positivo. Do mal o menos, salvou-se o empate. Não me esqueço da estupenda exibição de Rui Patrício nesta partida com as águias, aqui critico a falta de ganas de quem jogou à sua frente e de quem pensou no banco de suplentes.

Na semana seguinte, a mesma história. O Sporting apenas necessitava da vitória nos Barreiros, perante o Marítimo, para carimbar essa presença na terceira pré-eliminatória da Liga dos Campeões. E o que aconteceu nesse jogo? Mais um jogo com apenas dois remates enquadrados com a baliza e em que o Sporting nunca foi superior ao Marítimo. Resultado destes dois jogos miseráveis: o Sporting caiu para o terceiro lugar e apenas por inépcia do Sporting de Braga não caiu para o quarto. Outra nota relevante: Estes jogos ocorreram antes dos incidentes da Academia, portanto esse acontecimento criminoso não serve de desculpa para estes jogos.

Portanto, parece normal que o Sporting, em dois jogos cruciais para os destinos do clube, consiga apenas fazer três remates enquadrados com a baliza, ainda por cima em jogos que não foram disputados contra um Barcelona ou Real Madrid desta vida. É normal isto? Fica a pergunta. É bom fazer um exercício de lógica e perceber duas coisas em relação a isto: em primeiro lugar, é lógico que o Sporting tivesse mais abertura para negociar eventuais saídas do jogadores por não poder contar com o dinheiro da Champions; em segundo lugar, é lógico que Bruno de Carvalho dificilmente iria negociar saídas de jogadores se tivesse pré-eliminatórias europeias para disputar. A negociar jogadores, seria sempre depois de disputar essas partidas. E, mesmo assim, se o Sporting se apurasse para a Liga dos Campeões, é certo que Bruno de Carvalho negaria a saída de vários destes jogadores. Agora sugiro rever esses dois jogos e pensar bem nestes cenários.

Bruno de Carvalho propôs esta segunda feira que, se os jogadores se comprometerem a ficar no clube na próxima época, a direção demite-se e serão convocadas novas eleições. Não concordo com esta “abertura negocial” do presidente do Sporting. Se estes rapazes já foram capazes de rescindir, não concordo que lhes seja dada segunda oportunidade. Mas os jogadores têm agora a faca e o queijo na mão para tentar demonstrar o amor ao clube que sempre disseram ter. A mim não me voltam a convencer. Até podiam querer pagar para jogar no Sporting… Já viraram as costas ao clube, nada apagará isso. Contudo, têm um senão neste dilema. Não é totalmente impensável que, em cenário de novas eleições, Bruno de Carvalho vença novamente. A oposição gosta tanto de croquete que Bruno de Carvalho terá esse ponto a seu favor. Como seria se eles voltassem atrás com as rescisões e Bruno de Carvalho ganhasse novamente as eleições?

Agora, sobre os jogadores em específico. Em primeiro lugar, um conselho aos clubes que os acolham: vejam o que eles estão a fazer com o Sporting e redijam bem os contratos que lhes vão propor, até porque o Sporting poderá ganhar os casos em tribunal e receber indemnizações que terão de ser os jogadores e o primeiro clube que os acolher a pagar. Em segundo lugar, um lembrete aos jogadores: mais uma vez, é bom recordar que estão a rescindir com o Sporting Clube de Portugal, que tem cerca de 170 mil sócios e cerca de três milhões de adeptos. Não estão a rescindir apenas com o Bruno de Carvalho.

Quando o dinheiro sorri mais do outro lado, que interessam os adeptos, não é?
Fonte: Sporting Clube de Portugal

Podem ir jogar para um qualquer Mónaco, Wolverhampton ou Valência desta vida, ou até mesmo para o Benfica. Ainda nesta segunda feira, na assembleia geral dos nossos rivais, o presidente prometeu “vingar-se” do verão quente de 1993, em que Paulo Sousa e Pacheco abandonaram o Benfica para virem para o Sporting. Será esquisito ver Bruno Fernandes ou Gelson Martins de águia ao peito? Será, sim. Mas o mais importante, que é o respeito, já se perdeu. Podem ir jogar para o clube que quiserem.

Neste caso, há que elogiar a atitude anunciada pelo FC Porto de não se aproveitar desta situação para receber os jogadores do Sporting a custo zero. E ressalvar que qualquer presidente que esteja no Sporting no tempo futuro tem de levar esta situação das rescisões até às últimas instâncias. Se os jogadores são capazes de rescindir, também têm de ser capazes de aguentar com isto até às últimas consequências. Prefiro na próxima época apoiar jogadores da formação e ficar em sétimo ou oitavo lugar, do que ser campeão mas tendo de acolher estes jogadores de volta. E que as modalidades repitam o desempenho que tiveram neste temporada…

Espero que as vossas carreiras vos deem tanto e sejam tão boas para vocês, como vocês foram para com o Sporting ao tomar esta atitude. Que o vosso futuro seja um espelho desta decisão que tomaram. No fundo, que, retirando os jogos da seleção portuguesa, vocês joguem sempre como fizeram no dia cinco de maio de 2018 contra o Benfica e no dia treze de maio de 2018 frente ao Marítimo.

Foto de Capa: Sporting Clube de Portugal

Diogo Janeiro Oliveira

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