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Desde que o Sporting Clube de Portugal realizou a sua Assembleia Geral (AG) na semana passada que muita tinta tem corrido pelos jornais desportivos e não desportivos, que muitos opinion makers se têm pronunciado euforicamente sobre essa AG e que muitos canais televisivos se têm perdido em noticiar, dias a fio, aquilo que o Presidente Bruno de Carvalho (BdC) disse e não disse.
A “celeuma” que se instalou no clube tomou proporções muito maiores quando, no final da Assembleia Geral do dia 17, BdC disse o seguinte: “Estou na disposição de fazer alterações, mas para fazer essas alterações, os sportinguistas vão ter de se mobilizar na militância. São três pontos que proponho para que isso aconteça: 1. A partir de hoje não compramos nem mais um jornal desportivo. Inclui aqui o Correio da Manhã; 2. Não vejam nenhum canal português de televisão, a não ser o do Sporting; 3. Que todos os comentadores afetos ao Sporting abandonem de imediato os programas”. (parte do discurso de Bruno de Carvalho no final da Assembleia).
Para que conste, sou apoiante de Bruno de Carvalho desde o início. Mas isso não faz de mim alguém acrítico de algumas das suas medidas, propostas e do estilo de comunicação que exerce no clube. Considero-me, portanto, um apoiante “não seguidista”. E é nessa qualidade que apresento, de seguida, as consequências e implicações das palavras do Presidente na última AG para os sportinguistas. Faço-o, ainda que correndo o risco de ser simplista, a partir de duas palavras que, a meu ver, sintetizam um pouco o que está em causa:
– A Liberdade – o discurso insuflado de Bruno de Carvalho deve servir de sobremaneira para nós, sportinguistas, refletirmos seriamente acerca da Liberdade que queremos e desejamos para o nosso clube. Para os Outros (comentadores, pseudocomentadores, jornalistas e jornaleiros) que falam mal ou erradamente do que se passa no nosso clube, devemos ter a prudência de aceitar que assim seja com a tranquilidade de quem tem (terá?) a consciência tranquila. E se alguma vez sentirmos que somos atingidos no âmago daquilo que somos e da nossa identidade, existem os meios legais próprios para agir em conformidade com a nossa sensação de injustiça.
Mas exigir um boicote à leitura de jornais desportivos que não o Jornal Sporting e a canais televisivos que não a Sporting TV, é já algo que devemos olhar de soslaio, cautela e, acima de tudo, demarcação. A liberdade é algo que deve residir sempre no cerne de qualquer associação desportiva, cultural ou cívica sempre em estreita articulação e em conformidade com as leis e regras da República Portuguesa. Tudo o que se afasta dessas leis e regras, afasta-se daquilo que as sociedades democráticas consagraram para si próprias há já algumas décadas: a liberdade de opinião, de participação e de organização em qualquer lado, respeitando sempre, integralmente, as opiniões dos outros e nunca subjugando nenhuma pessoa ou grupo social.

Fonte: Sporting Clube de Portugal
– A Dignidade – a AG do passado dia 17 com o reforço da liderança de BdC trará, estou certo, conquistas e glórias para o Sporting Clube de Portugal. O equilíbrio e a sustentabilidade das contas do clube, a recuperação e expansão das modalidades, a existência de um pavilhão tão grande como os maiores da Europa resgatou o Sporting do poço sem fundo desportivo e financeiro em que se encontrava antes de Bruno de Carvalho e da sua Direção. Deu-nos a dignidade que durante muitos anos fugiu para os nossos rivais. Hoje somos um clube eclético, com conquistas nacionais e europeias nas modalidades e, no que ao Futebol Sénior diz respeito, a discutir, taco-a-taco, com os nossos rivais diretos, os títulos em disputa. São factos e contra estes não há argumentos.
Mas o que BdC tem que perceber é que essa dignidade desportiva recuperada não pode nunca limitar a liberdade de expressão dos sportinguistas, e estes deverão optar sempre pela liberdade pois não há dignidade de ninguém nem de nenhuma associação desportiva, cultural ou de outro tipo que subsista se não tiver como base o princípio da liberdade dos seus elementos constituintes. E o Sporting não é uma “associaçãozinha” desportiva qualquer, nem um clube de esquina. Quanto a mim, sempre que tiver de falar falarei onde me apetecer, sempre que sentir necessidade de escrever, escreverei onde me der na real gana, quando quiser e sobre o que quiser e não será Bruno de Carvalho ou outro presidente do Sporting que me calará ou me impedirá de opinar sobre os assuntos do Sporting. O sportinguista Carlos Anjos disse ao Record algo que subscrevo na íntegra a este respeito: “Nem o meu pai me diz o que posso ler, ver ou ouvir, quanto mais o presidente” (Jornal Record , dia 19 de fevereiro de 2018).
Foto de Capa: Sporting Clube de Portugal









