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Devolvam o futebol ao povo!

João V. Sousa · 3 min

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O Sexto Violino

Desde os seus primórdios, em meados do séc. XIX, o futebol tem sido uma actividade de lazer e entretenimento que une gerações e quebra barreiras sociais. Ainda que nunca tenha sido exclusivo dos mais desfavorecidos, nos bairros pobres este desporto constituía muitas vezes o único foco de alegria de quem, depois de uma semana de trabalho árduo nas fábricas ou nas oficinas, podia finalmente descomprimir a jogar ou a assistir a um jogo.

De então para cá, a enorme popularidade do futebol levou ao surgimento de uma indústria gigantesca: hoje em dia as bolas e as botas já não são de camurça, mas sim de materiais sintéticos e aerodinâmicos; os clubes foram sendo transformados em empresas e tratam os adeptos como clientes; comercializa-se um sem-número de artigos desportivos, confeccionados por marcas que se tornaram gigantes multinacionais; os jogadores já não jogam por amor à camisola, e são agora profissionais em busca de contratos milionários. A este respeito, Manuel Sérgio, filósofo e ex-professor de José Mourinho, escreveu recentemente que “o espectáculo desportivo pouco mais é do que uma empresa capitalista, onde a mercantilização do desporto se processa em vários níveis: (…) até os campeões, os heróis de que o sistema capitalista diz orgulhar-se, são mercadoria que se compra e se vende”. Esta mercantilização, ou seja, esta forma de olhar para tudo o que envolve o futebol sob a perspectiva do lucro, também afecta, como não podia deixar de ser, aqueles sem os quais não havia nem futebol nem a tal indústria adjacente: os adeptos. Estes, seja através dos preços dos bilhetes seja através da transmissão dos campeonatos em sinal fechado, vêem-se hoje muitas vezes privados da possibilidade de ver jogos de futebol – algo a que sempre tiveram direito desde que este desporto existe.

É normal que os pequenos clubes aproveitem as oportunidades que têm para fazer um pouco mais de dinheiro do que o normal, mas não podem ser os adeptos a pagar essa factura. Quem vai ao futebol são os mesmos que estão actualmente a sofrer sérios cortes nos seus vencimentos, que vêem os seus impostos aumentar, que têm empréstimos para pagar e todos os meses deitam contas à vida. Como se justifica, por exemplo, que um bilhete para o Estoril-Sporting ou para o Arouca-Sporting custe 25€? Chegámos ao ridículo de, na 15ª jornada, ter havido ingressos para o Benfica-Porto mais baratos do que para o jogo da Amoreira. Não podem ser os adeptos a financiar a ambição dos clubes mais pequenos, ou a pagar as dívidas que estes contraíram.

Falo dos clubes pequenos devido ao aproveitamento que eles fazem do bom momento das equipas grandes (e cujos prejudicados são os adeptos), mas podia também falar do Sporting. Aqui não há clubismos, há sim uma realidade que tem de mudar quanto antes. Que sentido faz haver jogos a mais de 30€ num campeonato como o nosso, como acontece semanalmente em Alvalade? Será que devia ser permitido os preços poderem atingir os 75€, como acontecerá no Benfica-Sporting do próximo mês? E se uma pessoa não quiser ou não puder fazer-se sócia? Vão privá-la de ver um jogo de futebol?

Enquanto não se procede a uma mudança mais global que acabe com os valores astronómicos do futebol, podem ir-se alterando pequenas coisas que fazem a diferença. No campeonato espanhol, por exemplo, os clubes mais modestos mantêm um braço-de-ferro com Real Madrid e Barcelona relativamente aos direitos televisivos. Os dois colossos recebem 120 milhões/época cada um, enquanto que qualquer uma das outras equipas recebe menos de metade disso. Em 2011/2012, o Granada, 17º classificado, recebeu 12M. Isto levou a que Francisco Roca, responsável da La Liga, tenha feito um comentário curioso em Abril de 2013: “somos a única Liga europeia, juntamente com a portuguesa, que ainda vende os direitos televisivos de forma individual (…). Há duas grandes equipas que obtêm mais de 50% das receitas e temos de combater isso”. Espanha poderá adoptar o modelo inglês, país onde o City, campeão em 2012, recebeu 60,6M e o último classificado Wolverhampton arrecadou 39,1M. Era bom que o futebol português optasse pelo mesmo caminho, no sentido de reduzir o fosso entre os clubes. Esta seria apenas uma de muitas possíveis medidas, que não me cabe a mim enunciar. O que não pode continuar a acontecer é os clubes alhearem-se da realidade que os rodeia e cobrarem preços altíssimos, como hoje acontece em Portugal. Os adeptos representam mais do que à primeira vista possa parecer. Sem eles, a médio prazo não haverá futebol. A curto prazo até pode haver, mas os estádios terão sempre o aspecto desolador de um Arouca-Rio Ave.

João V. Sousa

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