Dos dias que preferimos esquecer

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diva de alvalade catarina

Há uns meses atrás, dizia-me a minha mãe: “Filha, tenho uma nova estratégia: agora, quando não tenho paciência nem quero gastar energia com idiotas, finjo-me de morta”. Como bom aluno que aprende com o seu experiente mestre, meditei na altura uns segundos sobre a eficiência da coisa, e comecei também a pô-la em prática. Dá um jeitaço dos diabos, às vezes…

Quem me conhece de petiz, sabe que sempre tive o infeliz dom de envergonhar quem comigo vê os jogos do Sporting. Eu própria, se me acompanhasse em tais circunstâncias, só quereria um buraco para desaparecer, tamanho o chorrilho de coisas e palavras inoportunas e pouco agradáveis – os eufemismos soam sempre melhor! –, que daqui saem durante os jogos do Sporting. É relativamente vulgar, até, aproveitar tais momentos para relembrar os meus largos anos de karaté.

Com o passar dos anos, com o avançar da idade, comecei a achar que não tinha piadinha nenhuma ver uma Senhora a espernear e a gritar uma alarvidade de impropérios irreproduzíveis em cada conjunto ordenado de palavras que profere. Aos poucos, como tudo na vida, serenamos e aprendemos a dominar os nossos impulsos. Tinha chegado a hora de eu aprender a ver futebol, sem com isso comprometer o que quer que fosse. Acho que consegui. Ou quase… A minha avó acha que não: da última vez que viu um Sporting-Benfica, em Alvalade, comigo e com o meu avô, passou a primeira parte toda com os dedos a tapar os ouvidos. Na segunda, ficou-se pelas poltronas do Hall interior dos Camarotes, a ver o jogo pela TV. Mas ela é suspeita – e benfiquista. Não tem voto na matéria, portanto.

O Sporting tem o dom de fazer renascer as piores facetas que existem em nós. Deve ser isto aquilo a que as pessoas chamam amor, só pode ser isso, essa coisa de que tanto fugimos, mas que tão pouco controlamos: nele, no que de melhor nos caracteriza, o pior de nós também se revela. Eu, que tanto e tão conscientemente me auto-eduquei ao longo dos últimos anos, tenho voltado a revelar-me nas últimas semanas. Infelizmente, e para mal dos meus pecados.

Temos sido mansos, dignos até do diminutivo “mansinhos”, aquele com o qual tratamos as coisas fofinhas, às quais fazemos festinhas, mas que não tememos, de todo. E se há coisa que eu não suporto é a ideia de um Leão adormecido, sem juba e que não se faz respeitar. Isto não somos nós. Isto não é o Sporting. Isto não pode ser o Sporting. Isto é, ao invés, tudo aquilo que o Sporting não é e nunca poderá ser.

Por isso, e também porque me recuso a tecer comentários sobre a total ausência de brio que vimos no Restelo, e ainda sobre o quão irrisório foi termos lançado o Capel a jogo assim que nos vimos na frente do marcador, diante do Benfica, vou fingir que morri nestes dois últimos fins-de-semana, despedindo-me com um óbvio, muito óbvio, mas tão óbvio que me dá pena do horrivelmente óbvio que chega a ser: “Rapazes de verde e branco, joguem à bola, que a Camisola é para suar”!

Foto de capa: sporting.pt

Catarina Santinha
Catarina Santinhahttp://www.bolanarede.pt
Mulher do Norte por natureza, está emigrada no Algarve e deixou o coração em Lisboa, cuidadosamente depositado no seu Cativo em Alvalade. Leoa de coração, jurista por paixão, fanática do fitness por opção, a Catarina sabe que o sangue que corre nas suas veias é verde, e recusa-se a conceber que possa ser doutra cor.                                                                                                                                                 A Catarina não escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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