Entre as teorias da conspiração, os poderes ocultos e o futebol

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a norte de alvalade

Teorias da conspiração

A maior companhia de gás do mundo, que por sinal é russa, e Schalke 04 (tido como tendo das maiores massas adeptas do país), um dos maiores clubes da Alemanha, que por sinal é a maior economia europeia e a quarta maior do mundo: foi o que o Sporting Clube de Portugal teve de defrontar na terça-feira. Isso é o que todos nós conseguimos saber, e são esses dados objectivos sobre os quais devem ser feitas as comparações das forças em confronto. Se a presença de uma equipa de arbitragem também russa e que, nos mais de 90 minutos, teve o azar (?) de se “enganar” apenas e sempre contra o Sporting é mais do que uma mera coincidência fica para a interpretação de cada um. Eu tenho a minha que, mais do que fundada em certezas, é produto de uma amálgama de sentimentos, que vão de uma profunda revolta até à estupefacção.

O que me parece importante reter no escândalo de que fomos vítima em Gelsenkirchen é que quem governa o futebol (e se governa) está pouco preocupado com as normas mais básicas da transparência. A nomeação descuidada – versão benévola – de uma equipa de arbitragem da mesma nacionalidade do patrocinador do clube da casa pode ser entendida como um erro (?) circunstancial, no contexto de uma atitude reiterada de negação perante a evidência da necessidade de introdução de meios que permitam repor a verdade e eliminar os efeitos do erro humano.

Adeptos como eu, mesmo querendo ser optimistas, esbarram sempre na dúvida sobre se esta negação é a evidência da vontade de não deixar que os resultados dos jogos sejam aquilo que deveriam ser sempre: o somatório das forças em confronto, associadas à imponderabilidade que torna o futebol tão atractivo para os adeptos. Juntando a isto o facto de o patrocinador do Schalke ser também patrocinador da competição, temos campo aberto para dar livre curso à imaginação. O pior é que dinheiro e poder muitas vezes conseguem superar, nas suas acções, as imaginações mais produtivas e fantasiosas.

Só mais uma pequena nota neste tema da arbitragem. São arbitragens como as de ontem que, por cá, engrossam o saco de desculpas, já de si bem pesado, para nada mudar o que há de substancial a mudar na arbitragem. Quando houver razões para protestar contra os erros que parecem ser um pouco mais do que isso, lá nos virão outra vez lembrar de que “lá fora ainda é pior”. O que não é verdade. Às vezes, como na terça, até foi, mas normalmente cá é pior.

E o futebol, onde fica?

São este tipo de jogos que me levam a interrogar acerca do tempo e dinheiro que perco à volta de um jogo que é também uma das minhas maiores paixões. É nestes momentos que sou forçado a interrogar-me sobre se estive a ver um jogo ou um filme com um guião com fim pré-determinado. É que filmes e peças de teatro prefiro-os nas salas respectivas, porque mesmo os mais perturbadores raras vezes vêem os seus efeitos prolongarem-se muito para lá de o pano ter descido ou de o fim surgir no ecrã. Como para a grande maioria dos adeptos, o que sucede ao Sporting adquire sempre um carácter pessoal, sendo, consoante o evento, fomento de alegria ou tristeza.

Para o bem ou para o mal a ligação ao Sporting acaba sempre por superar os dissabores, as desilusões e as amarguras. Hoje especialmente porque o que a equipa fez merece que não se fechem as portas à esperança. Tal constituiria uma espécie de traição ao esforço e abnegação perante as contrariedades de todos os que intervieram, directa ou indirectamente, no jogo. Mas a esperança não se esgota apenas no esforço, na garra e no inconformismo revelados, mas por estar de mãos dadas com a qualidade do futebol praticado. Duas condições que ditaram o controlo de um adversário várias vezes mais abastado e nutrido de grandes jogadores, como Draxler ou Huntelar, seguidos de perto por Boateng. Duas condições que, a manterem-se, serão ingredientes para produzir os bons resultados que todos desejamos.

Ter esperança não invalida abdicar do mais elementar realismo. Continuamos a cometer demasiados erros para sermos totalmente bem sucedidos. Até à expulsão do Maurício foi dos jogos onde me pareceu que a equipa denotou maior evolução no aspecto defensivo. A expulsão e até mesmo a primeira falta que originaram o cartão amarelo inicial parecem-me demasiado rigorosos, o que, na comparação do que foi permitido aos alemães, tem ainda pior aspecto. Ignorar a tendência do homem do apito é uma falta de sensibilidade e inteligência que se paga caro, como se viria no salto tão imprevidente como desnecessário – que necessidade tem um defesa central de ir a correr atrás do avançado quase até aos balneários – que ditaria a expulsão do defesa brasileiro. Continua a ser aqui o nosso ponto mais débil e fonte de tantos dissabores no presente ano, e, sem a sua resolução breve, arriscamo-nos a jogar bem mas, aqui e ali, não conseguir muito mais do que essa triste consolação.

José Duarte
José Duarte
Adepto do Sporting Clube de Portugal e de desporto em geral, especialmente de futebol.                                                                                                                                                 O José não escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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