Se o futebol é, muitas vezes, uma questão de ocupação de espaços, o Sporting deu, nesta 24.ª jornada contra o Estoril Praia, uma verdadeira aula de como redesenhar a variabilidade ofensiva dentro do jogo. Num triunfo claro por 3-0, os leões não só somaram os pontos, como enviaram uma mensagem clara: o ataque à profundidade e as combinações quando bem trabalhadas, são armas letais que este plantel possui. E o rosto dessa inteligência tem nome: Luis Suárez.
Esqueçam o ponta-de-lança estático. Luis Suárez provou que o seu valor está na capacidade de recuar, de baixar no terreno e de arrastar consigo a marcação, criando o caos nas costas dos defesas adversários. Foi assim que o Sporting desmontou o Estoril. Com Francisco Trincão a assumir um papel mais interior e a combinar com o colombiano muito na frente junto dele, a equipa libertou-se da dependência exclusiva dos corredores laterais.
O primeiro golo, vindo de um cruzamento teleguiado de Francisco Trincão, e o segundo, fruto de uma bola picada nas costas da defesa pelo renascido Morten Hjulmand, são o espelho de um Sporting que preferiu neste encontro a inteligência do corredor central à imprevisibilidade das alas. Geny Catamo e Luís Guilherme são talentos inegáveis, mas, nesta noite, o Sporting foi mais letal ao privilegiar combinações interiores.


Esta fluidez ofensiva não seria possível sem a engrenagem do meio-campo. Quando Hidemasa Morita está no seu auge físico, é, sem margem para dúvidas, um dos jogadores mais inteligentes e influentes da Primeira Liga. Ao seu lado, Morten Hjulmand voltou a exibir a consistência que o caracteriza e voltando à boa forma será peça fundamental para o que falta da época, sendo o jogador que equilibra a equipa.
Por trás, a confiança é absoluta. Ousmane Diomande e Gonçalo Inácio estão a construir uma das duplas de centrais mais entrosadas e sólidas não só de Portugal, mas internacionalmente. Gonçalo Inácio, subiu drasticamente o seu nível nos duelos individuais, mostrando uma segurança que permite ao Sporting subir a linha defensiva sem medo do contra-ataque. Ousmane Diomande tem feito o que nos habituou, fisicamente incrível, muito rápido e não dá hipóteses em duelos.


Se o jogo foi um manifesto tático, o terceiro golo foi o coração desta equipa. Ver Daniel Bragança marcar, com uma assistência de Nuno Santos, é mais do que um dado estatístico; é a recompensa de quem superou lesões graves e a prova viva da resiliência deste plantel. Num jogo em que o Sporting provou ter variado o seu centro de gravidade, terminar com dois jogadores que lutaram tanto para voltar ao relvado foi o fecho perfeito para uma exibição de quem sabe, precisamente, onde quer chegar.
A vitória autoritária sobre o Estoril é o reflexo cristalino de um Sporting maduro e senhor do seu destino. A equipa não só domina os seus processos táticos, como reafirma, jornada após jornada, a sua candidatura firme ao título nacional. Com o Bodo Glimt no horizonte da Champions League, o conjunto de Alvalade mantém-se insaciável: vivo em todas as frentes e com a consistência de quem está preparado para disputar todas os jogos de igual para igual até ao apito final da época.


Já em relação ao Estoril Praia, Ian Cathro optou por tentar surpreender ao abdicar do losango que funcionou frente ao Gil Vicente, retirando Antef Tsoungui do onze inicial para apostar numa estrutura mais criativa, com Rafik Guitane e João Carvalho no apoio à dupla Marqués-Begraoui para procurar maior densidade criativa no último terço. A transição para um 4-2-2-2, prescindindo de Antef Tsoungui, revelou-se um risco tático elevado: a ausência do duplo pivot físico no corredor central retirou o balanço necessário à primeira fase de construção e expôs a equipa a transições rápidas. Sem a âncora de Tsoungui, o Estoril Praia perdeu a capacidade de ganhar as segundas bolas e sofreu com o desequilíbrio entre as linhas de pressão, permitindo ao Sporting explorar zonas de rotura e zonas de finalização com demasiada facilidade durante a primeira parte.
A reintrodução de Tsoungui no pós-intervalo foi o ajuste posicional que devolveu a estabilidade ao sistema defensivo. Ao estabilizar o duplo pivot ao lado de Jordan Holsgrove, Ian Cathro libertou Rafik Guitane para atuar num papel de “livre” nas entrelinhas, onde o franco-argelino demonstrou ser um dínamo criativo, criando instabilidade na transição defensiva do Sporting logo no início da segunda parte. Embora o resultado tenha sido adverso, este Estoril Praia mostra uma clara maturação nos seus processos táticos; com a recuperação de ativos clínicos e a consolidação da ideia de jogo do escocês, a equipa evidencia sinais de crescimento e capacidade competitiva para os desafios que se avizinham.

