FC Porto 3-0 Sporting: Quando se deixa a ideia de jogo, deixa-se tudo

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O Sporting de Marco Silva ainda não tinha perdido qualquer clássico. Empatou por duas vezes com o Benfica, sendo que numa merecia claramente a vitória, também empatou em Alvalade com o Porto e ganhou no Dragão, a contar para a Taça de Portugal. Hoje perdeu e muitíssimo bem. Por um lado, porque o Porto é hoje melhor equipa do que era quando defrontou os leões nas duas vezes anteriores, mas sobretudo porque o Sporting se descaracterizou em relação àquilo que havia sido até aqui. Uma comparação feita com o encontro a contar para a Taça é perfeitamente elucidativa.

Nesse jogo, a equipa leonina apresentou-se pressionante como foi sempre, principalmente na primeira volta. Hoje, esperou pelo erro, que nos primeiros 10/15 minutos até apareceu algumas vezes. Foi, aliás, a única altura em que o Sporting pareceu melhor do que o seu rival. Mas sempre mais por demérito da equipa da casa do que por mérito do visitante. Ao não pressionar alto, o Sporting deixa de explorar a maior fragilidade do Porto: a (in)capacidade de sair desde trás, devido à falta de qualidade para tal dos seus centrais e do seu trinco (Casemiro). Lopetegui terá agradecido. Seria curioso entender se Marco Silva assim optou devido ao maior desgaste do jogo de quinta-feira ou se por entender realmente que este seria o melhor caminho.

A partir do ponto em que o Sporting abdica da pressão sujeita-se automaticamente a passar a maior parte do tempo sem bola porque o Porto é um conjunto que privilegia a posse e, se não for forçado a isso, não divide o controlo do jogo com o seu adversário. Aí, ao ter pouca bola, a equipa de Marco Silva joga o único jogo que faz com que a defesa do Porto pareça muito boa. A linha defensiva de Lopetegui não cometeu erros porque não defendeu muito. Mais uma vez, o Sporting optou mal na abordagem ao jogo. E esta opção é ainda mais grave porque vai contra o que a equipa tem sido ao longo do ano. Montero, por exemplo, é menos um num jogo em que a equipa tem pouca bola. O colombiano é um belíssimo jogador mas só num contexto de ataque continuado em que a sua participação seja solicitada o mais possível. Assim, zero.

Pelo contrário, o Porto teve o mérito de saber pressionar, reagir bem à perda e manter a sua ideia de jogo durante os 90′, seja qual fosse a situação do jogo. Aqui, o maior problema ofensivo da equipa: estancando William com uma marcação mais próxima, Adrien é perfeitamente incapaz de se mostrar como uma opção para a saída desde trás. O médio luso-francês faz, aliás, uma das piores exibições individuais de que há memória nesta época. Na primeira parte, faz uma acção individual com sucesso. Em todas as outras esteve mal. To-das. E se no primeiro tempo Tobias Figueiredo foi mostrando personalidade de central de equipa grande, ao sair a jogar várias vezes com qualidade quando pressionado, no segundo, com o nervosismo de alguns erros, essa saída tornou-se inviável e mais nenhuma apareceu. Não deixa de ser revelador que um central de 20 anos seja o principal responsável pela primeira saída de jogo de uma equipa como o Sporting no Estádio do Dragão. A propósito, sobre esta insistência do jovem central a sair a jogar sem procurar o despejo da bola longa sem critério, um vídeo de Thierry Henry e Carragher a discutir este mesmo assunto, mas com outro interveniente. Para mim, Tobias tem o primeiro requisito para ser central de equipa grande. Pensa como tal.

De resto, o Porto fez o Sporting sofrer naquele que continua a ser o seu ponto mais fraco – o controlo da profundidade. Já há uns tempos escrevi sobre isso. O que mudou entre Novembro e o dia de hoje foi que a equipa deixou de defender tão alto e passou a haver menos profundidade para cobrir. Mas quando há continua a cobrir-se muito mal. Lopetegui, talvez consciente disso mesmo, fez Jackson recuar mais do que o normal e atraiu assim a defesa leonina para terrenos mais altos, que depois proporcionassem à velocidade e verticalidade de Tello o espaço necessário para marcar. Se era essa a ideia, e parece-me que sim, resultou em cheio.

O treinador espanhol mantém-se assim na luta pelo título e ao Sporting restará apenas segurar o 3º lugar e procurar vencer a Taça de Portugal.

A Figura

Jackson Martínez – Bem sei que Tello faz três golos, mas Jackson é quem desbloqueia todo o encontro. Fantástico como consegue ser um ponta-de-lança fixo e um avançado móvel assim necessite o contexto. A primeira assistência é magistral e a segunda não deixa de ser muito boa. Hoje, o melhor jogador a actuar em Portugal.

O Fora de Jogo 

Estratégia de Marco Silva – O Sporting, em Guimarães, já tinha passado um dia muito mau. Acontece a todas as equipas. Mas hoje, pela primeira vez, esqueceu aquilo que tem sido o seu fio condutor e o modelo por que se tem regido. E quando assim é… não sobra nada.

Foto de Capa: FPF

João Almeida Rosa
João Almeida Rosa
Adepto das palavras e apreciador de bom Futebol, o João deixou os relvados, sintéticos e pelados do país com uma certeza: o futebol joga-se com os pés mas ganham os mais inteligentes.                                                                                                                                                 O João não escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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