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Havia 0,013% de hipóteses de isto acontecer…

João V. Sousa · 5 min

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O Sexto Violino

… e, no entanto, aconteceu mesmo. Depois de, no ano passado, o Sporting ter ido à Luz nos dezasseis-avos-de-final da Taça de Portugal, este ano o sorteio – pelo menos é este o nome que lhe dão oficialmente – ditou uma viagem até ao Estádio do Dragão na 3ª eliminatória (estão 64 equipas em prova). Dado que este acontecimento, ainda para mais em anos seguidos, tem menos hipóteses de ocorrer do que cada um de nós tem de contrair hemorróidas (≅4%) ou de um homem saudável de 45 anos sofrer uma doença fulminante (ataque, AVC ou outros, ≅1,4%), em princípio só poderíamos concluir que o clube sorteado tem mesmo muito azar.

Mas isso seria num país transparente, com um desporto – e, em particular, um futebol – sem casos dúbios e/ou de corrupção comprovada. Não é o caso de Portugal. E não se trata aqui de estar a lançar suspeitas; elas lançam-se a si próprias. Depois de vários anos de debates mais ou menos conspirativos sobre os sorteios no futebol – tanto a nível nacional como internacional – e de se falar de bolas quentes, bolas frias, sequências virtuais viciadas, etc., no ano passado tivemos por cá um exemplo concreto de como esse debate poderá ter alguma razão de ser. Falo, claro está, do sorteio de uma eliminatória da mesma Taça de Portugal, cujo vídeo se encontra abaixo. Não digo que tenha havido um erro deliberado. Mas que há margem para desconfianças e que elas ficaram ainda mais vivas desde esse acontecimento, isso ninguém pode negar.

Enquanto adepto, a sensação que tive no Benfica-Sporting da última edição da Taça (na altura o sorteio não suscitou desconfianças, porque não é inédito dois rivais encontrarem-se numa fase intermédia desta competição) foi que o clube de Alvalade não podia ganhar, desse por onde desse. A infelicidade de Rui Patrício (num lance em que podia ter sido assinalado penálti de Rojo, tal como a equipa do Benfica pretendia até ver a bola entrar na baliza) não apaga os dois penáltis nítidos de que os leões deviam ter beneficiado mas que Duarte Gomes não quis ver. O Sporting estava a renascer e os rivais começavam a perceber que Bruno de Carvalho não era outro Vale e Azevedo. Mesmo que não chegasse para ganhar o campeonato, vencer uma Taça no “ano zero” daria um enorme aumento de confiança aos verde-e-brancos. Pelo sim pelo não, jogou-se pelo seguro e não se deixou o Sporting discutir até ao fim o resultado na Luz. Foi esta a sensação clara que tive na altura.

No entanto, a minha opinião não vale mais do que a de qualquer outra pessoa. Além do mais, como a História é escrita pelos vencedores e por aqueles que têm mais poder de facto, esse jogo ficou para a posteridade como um épico entre dois rivais, ganho por aquele que mais suou a camisola e que mais qualidade tinha nas suas fileiras. O “frango” de Patrício também serviu de argumento para escamotear os lances na área encarnada. Seja. Voltando ao sorteio de hoje, faz-me confusão como é que a mesma equipa volta, passado um ano, a jogar contra um rival, fora, numa fase tão prematura da Taça. São os tais 0,013% de hipóteses, que parecem aumentar exponencialmente quando se trata do Sporting. Não será também irrelevante lembrar que os leões são a voz mais crítica dos três grandes, tocando em assuntos sensíveis que vão desde a questão dos fundos ao sorteio dos árbitros, passando pelas escutas que envolvem o Porto e o seu presidente.

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Seria ingénuo – ou, pelo menos, redutor – pensar que este sorteio, a confirmarem-se as suspeitas que é natural recaírem sobre ele, tivesse como objectivo “ajudar o Porto”. A leitura que faço é que, antes de tudo isso, haveria um claro e único prejudicado: o Sporting, que jogaria novamente contra um rival e, uma vez mais, fora de portas. Se tudo corresse dentro do expectável – e, sejamos realistas, o Sporting apenas ganhou uma vez nas Antas/Dragão nos últimos 16 anos – o clube de Alvalade seria de novo arredado da Taça. E todos sabemos quem seriam as equipas que beneficiariam com isso.

Mais uma vez, se Portugal tivesse um futebol acima de todas as suspeitas, o texto que agora escrevo não teria grande razão de ser. Mas todos sabemos que as coisas estão longe de ser assim. Mesmo na improbabilidade de o Sporting conseguir dominar o Porto no Dragão, haverá, muito possivelmente, outras forças que se encarregarão de garantir que tudo corre como desejável. No ano passado foi assim na Luz. Mais a mais, há que ter em conta que os dragões precisam de vitórias para calar a contestação incipiente. Pinto da Costa diz que só os burros é que falam de árbitros, mas nesta hora difícil até o infame Lourenço Pinto, presidente da Associação de Futebol do Porto, vem aludir a “questões de ordem oftalmológica” dos juízes. É isto que muita gente deixa passar em claro, mas é nestas questões que muitas vezes se decide o rumo das campeonatos e taças. E os dirigentes impolutos ligados ao Porto já estão a estrebuchar…

apostas

A probabilidade de o Sporting não defrontar nenhum dos outros grandes nestas duas fases (dezasseis-avos e 3ª eliminatória), ignorando já a questão de jogar fora em ambas as vezes, era de 90,63%. Juntando a questão casa/fora, esse número seria ainda mais elevado. Outro dado interessante: se, antes do sorteio do Benfica-Sporting para a Taça do ano passado, uma pessoa tivesse apostado 1€ em como o Sporting iria à Luz nesse ano e ao Dragão no seguinte (nas respectivas fases da competição), ganharia hoje nada menos do que 7812€. Muito mais do que se o Gil Vicente fosse campeão nacional (1001€ na bwin) ou se o Ludogorets vencesse a Liga dos Campeões (o mesmo valor)!

Seja como for, os dados estão lançados. O facto é que o Sporting vai jogar ao Dragão no próximo dia 17 ou 18, sobrecarregando ainda mais um calendário já de si difícil. Sabemos o futebol que temos em Portugal, assim como sabemos que os adeptos de outras equipas irão ridicularizar estas desconfianças. O que há a fazer, ainda que possamos vir a ser a única equipa a jogar com onze elementos nesse dia, é acreditar sempre que a vitória é difícil, mas possível.

 

*com David Martins

João V. Sousa

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