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Hic Svnt Leones

Diogo Bernardo · 3 min

Hic Svnt Leones

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Núcleo Semanal

De cerveja na mão, com um amigo que fiz através do grupo, dava mais uma volta pela sala. Senti que era a centésima, mas havia sempre tanto para ver. Vasculhava as paredes de alto a baixo, sem conseguir vislumbrar um único ponto de tinta branca, tantos eram os cachecóis, camisolas e fotografias penduradas. “Filipe, o que quer isto dizer?”

Parei à frente de uma que me chamou particularmente a atenção. Já tinha visto aquela frase tanta vez sem nunca saber o seu significado. Agora, deparava-me com ela na fotografia de uma tarja da Torcida Verde, na «casinha».

Não foi o Filipe que me respondeu. Prontamente se virou para trás o chefe da claque, que falava com outro membro. “«Hic Svnt Leones»? Significa «Aqui há Leões». E esta aqui – apontou um pano gigante de um leão, exatamente por baixo da tarja na fotografia – é uma bandeira que oferecemos a uma claque com quem temos amizade. Não cabia no nosso setor, então oferecemos-lhes”.

claques
Foi o primeiro minuto de conhecimento de uma hora que se encheu de histórias ultras: a dos italianos, fãs de basquetebol, que como claque trabalharam para reerguer um clube falido e com jogadores amadores o devolveram aos escalões profissionais; a das inúmeras amizades leoninas com outras claques como a da Fiorentina, Hammarby e Rapid Viena; a que pairava por detrás do pó de cada foto, umas em Celtic Park com os Leões de Portugal, outras em Dortmund com os fanáticos adeptos do Borussia. Naquelas paredes estão penduradas décadas de história para contar e os que perdem uns minutos a descrevê-la deixam transparecer nos olhos o brilho de um grande amor.

Na semana anterior tinha ali levado o meu pai, como já antes levei o meu irmão, namorada e amigos, tanto àquela «casinha» como a outras de Alvalade. Quando saí, disse-lhe “são pessoas normais, vês?”. Respondeu-me com um “oh, claro!”, como se fosse a verdade mais absoluta deste Mundo. Infelizmente, não é. Dói-me ver a facilidade com que a ignorância leva as pessoas a atacar as claques. Eu, por estar de pé na bancada a gritar pelo clube que amo, sou apelidado de delinquente, criminoso e de pessoa que incita à violência quando, na verdade, os únicos desaguisados que tive na vida foram com o meu irmão, em miúdo, por termos mau perder no PES.

Não me venham dizer que eu sou uma exceção. Não! Eu sou a regra! Os delinquentes sim, são as exceções que nos confirmam como regra. Não nego que haja pessoas com objetivos condenatórios no seio das claques. Mas há nas claques como há em todos os grupos – seja nas associações de estudantes ou em simples conjuntos de amigos. Desde os meus 15 anos que vejo os jogos do Sporting no seio dos grupos organizados, tanto em casa como fora, e posso dizer que hoje, com 21 anos, vi mais pancadaria nos jogos do Atlético da Malveira que no meio da Juventude Leonina. E não, não foram encapuzados com tochas na mão, mas «senhores» de camisa, sapatos de vela e chaves de um Mercedes no bolso.

Como diz a maior e mais antiga, “isso que diz toda a gente, que somos violentos e somos delinquentes, não lhes faço caso, vou a todo o lado”. Porquê? Porque todos queremos ter aquele brilho nos olhos, daqui a uns anos, quando tivermos centenas de histórias para contar. Porque desejamos trocar de cachecol com um adepto do Celtic em plena Escócia. Porque aqui há leões. Hic Svnt Leones. Sempre.

Diogo Bernardo

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