Jérémy Mathieu | Je suis expérience

- Advertisement -

Quando eu era pequeno, adorava escutar o que os meus avós (e os mais sábios pupilos da escola da vida) tinham para contar. Todas as peripécias e aventuras que os acompanharam perpetravam a minha alma como de uma espada se tratasse, embora sem me ferir. Cada palavra irrompia na minha mente e obrigava-me a flutuar no mar da imaginação, cada história se compunha num capítulo de um livro que clama a atenção do leitor e que o impele a aguardar ansiosamente. Num cenário utópico, insano e completamente desvairado, uma boca gigante segredava a um ouvido de menor dimensão, resumindo toda a harmonia do momento.

A fase do “bom ouvinte” sucumbiu prematuramente. Se dependesse exclusivamente de mim, o seu prolongamento seria eterno. Cedo as palavras malograram, cedo a fonte de onde brotava todo o meu espírito embevecido secou, cedo o deserto substituiu a biodiversidade que pairou durante toda uma infância repleta de vida. De repente, os relatos, pintados com tintas vivas e alegres, numa demonstração de multiplicidade de cores, diluíram-se perante a chuva de uma invernia que teimou em não cessar e manchou todos os retratos desenhados com sentimento.

Apesar de ainda me considerar imberbe, hoje assumo a função de narrador e olvido a de mero ouvinte. Desta vez, personifico-me na constante junção dos lábios e teço um pedido encarecido com o desígnio de o leitor se transformar num ouvido só. Jérémy Mathieu, mais do que qualquer outro atleta, merece a menção e o carinho em forma de vocábulos. E os adeptos, esse público incansável e que origina fecundações amorosas sucessivas e inexplicáveis, também o merece.

Fonte: Sporting CP

O francês é a língua que evidencia todo o glamour, classe e requinte. O central leonino “aproveita” o facto de ser o mais velho do plantel para, às vezes, beber um copo de vinho numa esplanada, com a companhia da mulher e da música clássica que aquece o ambiente. Infelizmente, as lesões combatem com a idade e vencem maioritariamente. Mesmo assim, quando joga, é o exemplo do que um profissional deveria ser no seio das quatro linhas.

Se retirarmos Bruno Fernandes do paradigma futebolístico, Jérémy Mathieu comanda uma tripulação à deriva. Durante o jogo, cita apontamentos chave, alerta os companheiros para o que de errado acontece e encoraja-os à inversão do rumo. Um líder que, apesar da bengala lhe estar atribuída face à idade que possui, é o mais rápido, o mais eficaz, o mais experiente e o mais objetivo entre o lote de defesas que ruminam a relva e pastam durante o jogo. O rosto do inconformismo que não conhece súbditos nem camaradagem.

Antecipa-se a saída, antecipa-se choro ainda mais desesperante, antecipam-se resultados mais enfadonhos. O alicerce verga a cada passo e ninguém é capaz de o fixar, ninguém demonstra qualquer tipo de preocupação sendo que o Sporting Clube de Portugal é a sua. A pouca imponência defensiva é responsabilidade inteiramente sua e, na hora da partida, nada restará a não ser um monte de cacos espalhados e dispostos na frente de um guarda-redes completamente desprotegido.

É estranho, muito estranho. Aos companheiros de equipa não deve comover e enternecer aquela fala cálida, que magnetiza o ouvinte e que o molda a seu jeito. Volvendo à conjuntura supracitada, considero que os restantes colegas de equipa desprezem a ideia de fusão num só tímpano para ouvir a grande boca e a voz da experiência.

Foto de Capa: Sporting CP

Artigo revisto por Inês Vieira Brandão 

Romão Rodrigues
Romão Rodrigueshttp://www.bolanarede.pt
Em primeira mão, a informação que considera útil: cruza pensamentos, cabeceia análises sobre futebol e tenta marcar opiniões sobre o universo que o rege. Depois, o que considera acessório: Romão Rodrigues, estudante universitário e apaixonado pelas Letras.                                                                                                                                                 O Romão escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

Subscreve!

Artigos Populares

O sonho de um país: Eis as contas para Cabo Verde passar às eliminatórias do Mundial 2026

Cabo Verde tem uma oportunidade para fazer história ao qualificar-se para as eliminatórias na primeira presença em fases finais do Mundial.

Gustavo Marques deixa o Benfica e assina pelo RB Bragantino por 3,5 milhões de euros

Depois de um ano de empréstimo, o RB Bragantino pagou 3,5 milhões de euros ao Benfica para a contratação em definitivo de Gustavo Marques.

Franclim Carvalho negoceia saída do Botafogo rumo ao Vasco da Gama

A Globo Esportes avança que a direção do Vasco da Gama está em contacto com o atual treinador do Botafogo, Franclim Carvalho.

PUB

Mais Artigos Populares

Atenção, Sporting: Real Bétis já pensa em sucessor de Sergi Altimira e pode custar 20 milhões de euros

O Real Bétis está no mercado em busca de um médio. Antonio Blanco é um dos alvos do conjunto do Benito Villamarín.

Destaque da Segunda Liga pode ser o sucessor de Luís Esteves no Gil Vicente

Heiz Morschel é apontado como o alvo favorito do Gil Vicente para a posição de Luís Esteves, mas os gilistas terão concorrência no negócio.

Em equipa que ganha não se mexe: FC Porto tem duas posições fechadas para 2026/27

O FC Porto não pretende contratar nenhum defesa central e nenhum lateral direito, estando satisfeito com as opções existentes.