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Keizerball visto à lupa: O sucesso tático na vitória leonina

Tiago Silva · 5 min

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Foi no passado dia 3 de abril, que os Leões carimbaram a passagem à final da Taça de Portugal, vencendo o eterno rival SL Benfica por uma bola a zero, graças ao fantástico golo de Bruno Fernandes. O suficiente para carimbar o passaporte para a final, após a derrota por 2-1 na primeira mão, o Sporting CP irá encontrar agora o FC Porto na final, no dia 25 de maio.

Marcel Keizer voltou a surpreender, já Bruno Lage sobrevalorizou o Sporting CP. O jogo não foi de todo bem jogado, mas foi interessante e a vitória do Sporting CP acaba por ser justa. Bruno Lage analisou no final da partida, dizendo que a sua equipa foi a melhor no conjunto das duas mãos, mas não é verdade que o tenha sido. E a culpa é do próprio como já referi anteriormente. O Benfica não se demonstrou preparado para anular as dinâmicas e o sistema tático apresentado pelo Sporting CP. O SL Benfica foi sempre uma equipa lenta, sem ideias – sobretudo com a lesão de Gabriel – e o Sporting CP esteve sempre superior durante os 90 minutos. Existe demérito do SL Benfica, sem dúvida, mas por sua vez existe um mérito enorme por parte do Sporting CP. A equipa sabia ao que ia, lutou e foi recompensada.

Marcel Keizer voltou a apresentar a sua ideia de jogo já utilizada diante do SC Braga, onde venceu por 3-0. Voltou a apresentar o seu 3x4x3 com Borja, Coates e Mathieu no eixo defensivo, deixando as alas para Bruno Gaspar e Marcos Acuña. No miolo jogaram Wendel e Gudelj, deixando Luiz Phellype na frente, apoiado por Raphinha e Bruno Fernandes – como é possível ver na imagem em anexo.

Fonte: InStat

Na primeira fase de construção, o Sporting CP apresentou três centrais, permitindo a Gudelj e Wendel pisar terrenos mais centrais e subidos no terreno. Com isto, Bruno Fernandes e Raphinha procuram terrenos mais interiores, tentando jogar entrelinhas, deixando Bruno Gaspar e Marcos Acuña com a largura e profundidade nos flancos.  No entanto, o SL Benfica só pressionava com dois homens, ficando sempre em inferioridade numérica, nunca conseguindo assim fazer frente ao processo ofensivo da equipa leonina.

Fonte: InStat

A entrada em campo dos leões foi vincada pelos duelos ganhos, ganhando até algumas bolas no seu meio-campo ofensivo, permitindo criar perigo de várias formas, inclusive ganhar alguns lances de bolas paradas. Se em outros dérbis a linha de pressão leonina era num bloco mais baixo, o início da partida demonstrou um Sporting CP com as garras de fora, sem medo de pressionar e a pressionar alto no terreno, dificultando as ações dos encarnados. Esta agressividade permitiu desde cedo ao Sporting CP recuperar bolas e instalar-se no meio-campo defensivo do SL Benfica. O SL Benfica demonstrava claras dificuldades em sair, quer em posse, quer em contra-ataque.

Fonte: InStat

O Sporting CP foi premiado ainda de algumas desatenções no momento e processo de transição defensiva por parte dos encarnados. Uma equipa que por norma se apresenta bastante coesa, por inúmeras vezes deixou espaço entre a linha defensiva e a linha do meio-campo, partindo a equipa e deixando espaço para o Sporting CP explorar entrelinhas.

Fonte: InStat

No processo defensivo e apesar da tendência ser a de pressionar num bloco mais alto e reagir rápido à perda da bola, em algumas fases do jogo, onde o SL Benfica tentava pautar o ritmo de jogo e controlar com bola, foi possível verificar – como já aconteceu por outras vezes – o Sporting CP dispor-se em 4x4x2 juntando Bruno Fernandes a Luiz Phellype. Os encarnados nunca conseguiram traduzir estas situações ofensivas em situações de perigo, falhando sobretudo no critério e na definição da jogada.

Fonte: InStat

O golo leonino surge naquilo que tinha sido o mote dado em praticamente o jogo todo: recuperação de bola em zonas altas no terreno. Foi sem dúvida um dos pontos fortes do jogo leonino – a raça, a determinação e o querer. O Sporting CP demonstrou-se rápido na reação a perda da bola. Foi determinante em levar de vencida a formação das águias. Primeiro Bruno Fernandes recupera a bola, após mau passe de Diaby. Esta ressalta para um jogador do SL Benfica, onde aparece Raphinha novamente a recuperar a bola. Solta em Diaby, que descobre Bruno Fernandes. E é aí que aparece todo o talento e magia do número 8 leonino. Bruno Fernandes teve a inteligência e o critério de verificar que Grimaldo defendeu mal. O jogador dos encarnados, deu completamente o espaço central ao médio leonino. Colocou mal o corpo, colocou mal os seus apoios e Bruno Fernandes aproveitou. Demonstrou toda a sua inteligência e fez o único golo da partida, num excelente remate ao ângulo superior do poste mais próximo.

Fonte: InStat

O sistema tático e as dinâmicas utilizadas pelos verdes e brancos, permitiram controlar o jogo da forma que quiseram. Utilizando um meio-campo de posse e que sabe bem como tratar a bola, o Sporting CP procurou trocar passes curtos e rápidos, permitindo a uma maior mobilidade existente entre os jogadores do meio-campo e o trio ofensivo, dificultando as marcações por parte do SL Benfica. O próprio Gudelj – que até tem sido criticado pelas suas exibições – apresentou-se a um bom nível, principalmente por a equipa abdicar de um número 6 puro, jogando com dois jogadores no miolo lado a lado, sabendo que tem na sua cobertura três defesas e eventualmente numa fase mais precoce do processo ofensivo, os alas a fechar atrás. Dá maior liberdade ao meio-campo, que pode assumir o risco que o jogo pede. Este é um sistema de jogo que protege os jogadores leoninos e faz sobressair as suas qualidades. Bem trabalhado, com um ou outro reforço, não há dúvida que é por aqui que os pupilos do holandês, poderão causar maior perigo junto dos seus adversários.

De salientar ainda outros destaques individuais, pelas grandes performances que fizeram. Falo de Bruno Fernandes e Mathieu. Importantes em todos os aspetos, exímios no papel tático, assumiram o jogo e são preponderantes nesta ideia de jogo traçada por Marcel Keizer. Atacam os dois, defendem os dois, foram uns monstros em campo. O Sporting CP terá a todo o custo, manter estes dois jogadores para a próxima época. Se muitas vezes é dito que o Sporting CP deverá jogar em torno de Bas Dost, é errado. O Sporting CP perde todo o seu futebol com essa abordagem. O Sporting CP terá de jogar em torno destes dois jogadores que referi, especialmente Bruno Fernandes pelo papel crucial que assume na construção do jogo e no último terço, sendo decisivo no último terço do terreno. O Sporting CP empurrou o SL Benfica para fora das zonas de decisão, muito mais do que aquilo que os encarnados costumam estar habituados. Um Sporting CP mais dominante e autoritário, que apesar de nem sempre ter as melhores decisões, perante um SL Benfica que se demonstrou previsível e algo expectante, foi o suficiente para seguir em frente, rumo à final do Jamor.

Agradecimento especial a Pedro Bouças – fundador do site “Lateral Esquerdo” – pela disponibilização do jogo completo pela plataforma InStat.

Foto de Capa: Bola na Rede

artigo revisto por: Ana Ferreira

Tiago Silva

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